O curupira assava seu alimento, e na beira de um riacho se banhava, quando chegou perto do assado uma rapariga, que tirou, comeu dele e retirou-se. O curupira veio ao lugar e não vendo o assado, gritou. O assado respondeu na barriga da rapariga. correu atrás dela o curupira. A rapariga chegou debaixo da árvore do cunauaru [1] e gritou para os cunauarus:
— Cunauaru, venha me buscar... o curupira quer me matar... Abaixa-me teu cesto.
Quando os cunauarus a estavam puxando para cima, chegou o curupira e pediu-lhes:
— Cunauaru, vem me buscar.
Os cunauarus coaxaram para aborrecer o curupira. Este aborrecido voltou para sua terra. Os cunauarus fizeram descer a rapariga e a mandaram para casa, dizendo:
— Aqui perto está a tua casa.
Dizem que o curupira zangado, depois disso, dissera:
— Daqui em diante não como mais tariyra [2]. Vou procurar tatu. Achei o que hei de assar para mim.
Fez fogo na beira do rio.
— Agora vou tirar barro... Meu assado está no fogo. Vira-te, meu assado.
Um rapagão veio flechando peixe pelo riacho e achou o assado do curupira que estava cantando no fogo. O rapagão vendo a carne do tatu que estava no fogo, tirou um pedaço e comeu. O curupira disse:
— Vira-te, meu assado.
Calou-se.
Vendo o assado calado foi ver, mandou virar-se e este não se virou. Gritou:
— Meu as...sa... do!... Meu as... sa... do!...
Da barriga do rapagão o assado respondeu:
O rapagão correu para a casa da irara.
— Irara, tu me escondes? O curupira quer me comer.
O curupira chegou à casa da irara.
— Irara, onde está o meu assado?
— Qual é teu alimento?
— Meu alimento é gente.
— Vem comer mel comigo que é melhor.
— Não quero.
— Curupira, não me apalpes.
— Que é isto que tens na barriga?
— Já te disse. Mel é melhor do que gente.
— Irara, eu volto daqui para minha terra, porque não estou acostumado com o mel.
Notas
1. Sapo
2. Ou traíra. Espécie de peixe (Erythinus Tareira Cuv.)