Já havia sido constituída a Comissão de Carnaval que, como era de praxe, superintenderia a confecção do préstito a ser apresentado na terça-feira gorda defendendo as cores rubro-negras da agremiação. Mas poucos dias antes do tríduo do reinado de Momo, a diretoria tomava uma resolução meritória invalidando o anteriormente resolvido: a verba que seria gasta com os carros alegóricos libertaria alguns escravos. Desse modo, a Sociedade Euterpe Comercial (depois Clube dos Tenentes do Diabo) não desfilou pelas ruas da cidade em 1864 participando das competições foliônicas ao lado do Congresso das Sumidades Carnavalescas e outras.
Ausentando-se assim dos empolgantes prélios, que eram a atração máxima do
carnaval naquela época, quando ainda imperava o grosseiro entrudo, a
agremiação cumpria, no entanto, ação digna de louvores. Se permitia que em
sua sede houvesse reuniões de abolicionistas com a presença de José do
Patrocínio, Quintino Bocaiúva e seus demais companheiros, o que deveria
demonstrar sua participação no movimento. Comprou, pois, a carta de alforria
de cinco pretos (segundo o informe do saudoso tenente Joaquim da Silva Barros,
em 1931) ou de doze (no relato de Marques Júnior, em 1948). Divergências
naturais à falta de documentário preciso.
Gente de dinheiro funda um clube
Contando presentemente 108 anos, o Clube dos Tenentes do Diabo, que foi fundado em 1855, a 31 de dezembro, sob a denominação de Sociedade Euterpe Comercial, era constituído de pessoas abastadas. Seus associados eram, todos, negociantes, gente de dinheiro. Quem não tivesse alguns 'contecos' ou boa reputação econômico-financeira recebia o veto rígido e atento da Comissão de Sindicância. Mesmo depois de muitos anos, por volta de 1920, quando o atual vice-presidente, Aires Câmara, ingressou no clube, teve que associar-se a um borracheiro para configurar a condição de comerciante ainda exigida.
Intitulando-se Euterpe Comercial é de se deduzir, já que dois incêndios
(há quem afirme serem três) havidos na sede destruíram seus arquivos ou
documentário, ser a finalidade do clube musical e recreativa. Tinha uma banda e
promovia saraus dançantes. A primitiva designação veio a ser ampliada mais
tarde para a Sociedade Euterpe Comercial Tenentes do Diabo, tendo como
presidente Silvestre Leite que, por coerência rubro-negra, é paredro do
Flamengo. Ficou sem efeito também a exigência de ser comerciante ou "de
ter dinheiro na burra" para ingressar em seu quadro social. Hoje é uma
agremiação carnavalesca formada por gente da classe média, embora contando
com alguns endinheirados.
Como do diabo conseguiu ter os seus tenentes
Etimologicamente o tenente, que na hierarquia militar é o primeiro posto do oficialato, equivale na nomenclatura civil ao substituto ou assessor do chefe. Conseqüentemente o diabo (Lúcifer, Satã e seus muitos nomes) passou a ter nos carnavalescos da centenária Euterpe Comercial gente a seu serviço mas, claro, que não "pra valer", apenas como gracejo foliônico. Como e por que esses denodados adeptos de Momo decidiram aliar-se a Plutão e designar até sua sede social como "caverna", explica-se sempre na divergência que baralha o histórico da agremiação, de duas maneiras.
Uma delas, que parece melhor fundamentada, é a da promoção ou gradação
militar-carnavalesca. Os foliões de boa têmpera, os mais animados, tinham a
classificação de "praças" ou "praças escovados" quando
eram mesmo da fuzarca. Assim, querendo sobrepor-se, a gente do clube rubro-negro
proclamou-se "tenente", que era mais acima, isto na jactância da
rivalidade clubística. Outra versão, muito difundida aliás, é a de que numa
agitada reunião na qual se deveria conferir, de acordo com o estatuto, o
título de Tenente aos sócios mais entusiastas, houve grande tumulto
contestando nomes. Perdendo a calma, o presidente com um forte murro na mesa
exclamou: "Faz-se uma promoção geral. Ficam todos Tenentes do
Diabo!".
Escravos saem das senzalas para a "caverna"
Colaborando de maneira decisiva na campanha abolicionista, cedendo sua sede social para as reuniões dos líderes do movimento, a Sociedade Euterpe Comercial Tenentes do Diabo devia positivar seus propósitos. E o fez de maneira decisiva por ocasião do Carnaval de 1864. Com o dinheiro amealhado para a confecção de seu préstito que seria constituído de carros com alegorias e de crítica, comprou as cartas de alforria de alguns escravos. Não saiu às ruas para receber os aplausos que sempre lograva os seus desfiles, mas os conquistou, ainda mais calorosos, com a resolução humanitária levada a efeito.
Os pretos libertados, que segundo entrevista concedida por Joaquim Silva
Barros (apelidado no clube General Sassarugo) em 1931 ao Diário da Noite
eram cinco, ficaram tendo moradia na sede. Ali, na "caverna", como
até hoje é designada a sede social, prestavam serviços. Um deles, de nome
Jorge, excelente mestre-cuca, foi até mil-novecentos-e-vinte-e-tantos o
cozinheiro oficial da sociedade e era quem (segundo Silva Barros) preparava os
banquetes oferecidos aos sócios e convidados. Deveria ser ele quem também se
incumbia de fazer as famosas canjas dos tenentes a que alude nossa colega Eneida
em seu livro História do carnaval carioca.
Antes da marchinha, a chula era o hino oficial
Assim como o Vem cá, mulata pertence ao Clube dos Democráticos e o maxixe "No salão dos Fenianos / Existe muita alegria..." do sempre lembrado Caninha exalta o glorioso alvirubro carnavalesco, também o Clube Tenentes do Diabo tem o seu hino oficial. A marchinha de Benedito Lacerda e Gastão Viana, lançada no carnaval de 1933, advertindo: "Macaco, olha teu rabo / Se não vai haver o diabo..." ficou sendo a que até hoje anima os festejos dos chamados "baetas". É aos acordes dessa música que a sociedade centenária faz sua entrada na avenida Rio Branco e arranca os aplausos do povo na terça-feira de encerramento do tríduo momesco.
Antes, ainda no tempo da monarquia, tinham os endiabrados Tenentes uma chula que lhe servia de hino oficial. de autor ignorado, com musiquinha fácil e versos simples dizia: "A polícia só dizia / Que os Tenentes não saía / Os Tenentes tão na rua / Com prazer e alegria / Chover, chover / Ventar, ventar / O coração de Maria / É que me vai acalentar". Rebelava-se, como se deduz, contra pretenso cerceamento policial e punha nas ruas as suas alegorias, suas críticas ferinas, precedidas, como ainda hoje, de fanfarras e bandas a cavalo. Tudo mantendo a tradição secular que repousa não só nos "baetas", mas, por igual, nos "gatos" (Fenianos) e nos "carapicus" (Democráticos).
O Jornal, 19 de janeiro de 1964