Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...

A baiana Hildegardes Viana

Eu me chamo Hildegardes Cantolino Viana. Uso apenas Hildegardes Viana, por ser mais simples de guardar. Nasci na ladeira do Genipapeiro, na cidade de Salvador, num mês de março, e acho que isto me dá sorte. Fui batizada por Hildegardes depois de minha família relutar muito entre Cândida e Juraci. Meu pai abriu ao acaso A nova floresta, do padre Manuel Bernardes e encontrou o nome da abadessa Hildegardes. Até hoje agradeço aos céus o livro não ter sido em alguma página onde houvesse nome como Urraca ou Berenguela. E já que falei em meu pai, devo dizer que sou filha de Antônio Viana, o cronista de Casos e coisas da Bahia. Sempre fomos muito bons amigos. Meu pai era jornalista por vocação e serviu à imprensa durante 60 anos. Foi poeta e seus versos de amor são lindos. Foi cronista e suas crônicas são uma delícia. Fez parte do famoso Exército de Cavalheiros do Sonho de Nova Cruzada, movimento literário que congregou gente, como os Mangabeiras (Otávio e Francisco), Artur de Sales, Carlos Chiachio, Presciliano Silva, Paulo Filho e outros grandes vultos. Foi da Academia de Letras da Bahia, do Instituto Geográfico e Histórico e organizou e consolidou a Comissão Baiana de Folclore; possuía um caráter raro e um coração de ouro. Sabia consolidar os aflitos como poucos o saberão fazer. Talvez porque tivesse uma confiança extraordinária na bondade divina. Tinha valor de sobra. A luta pela vida não deixou que realizasse tudo quanto tinha arquitetado. Nos seus últimos anos, quando pôde viver sem apreensões financeiras, dedicou-se de corpo e alma à difusão do folclore baiano e foi um dos esteios da assistência aos menores desvalidos. Ser filha de Antônio Viana para mim é o meu maior título. Minha mãe combinava amor e severidade. Foi um exemplo de abnegação e desprendimento.

Cresci num casarão soturno da ladeira da Poeira. Entre móveis de Gonçalo Alves, louça de Macau e gente velha que gostava de falar do passado. Data desse tempo minha curiosidade pela vida antiga. Aprendi a ler num livro de histórias da carochinha. Aos 8 anos, já lia respeitando a pontuação e com alguma expressão. Lia em voz alta para meu pai ouvir e, de vez em quando, dava para chorar, porque tropeçava em alguma palavra mais difícil e era repreendida. Custei muito a fazer ditado com correção. Mas achava bonito escrever.

Nossa casa era muito freqüentada por jornalistas e literatos. Minha mãe nunca me deixava ficar na sala para dar apartes, pois não gostava deles. Ainda me lembro de Aloísio de Carvalho (Luís Parela), Roberto Correia, Deraldo Dias, Monsa Tapiranga. Lulu Parola me fascinava. Pequeno, feio, risonho. Muito simpático. Nunca me permitiu que lhe tomasse a bênção, me tratava por senhorinha e punha em minha mão uma moeda para comprar "cocada". Isto na hora da despedida.

As minhas recordações mais gratas estão ligadas ao Rio Vermelho, onde tínhamos uma casa de veraneio. O mar do Rio Vermelho é azul como poucos. Bonito e cheiroso. Lembro com saudade dos saltos de trampolim, as "cambadas", as moquecas de peixe comidas com bobó de inhame, os ternos e ranchos de Reis dançando na noite de sábado da festa, os frangos d'água, os sambas no Peso, a finada procissão de Nossa Senhora dos Mares, a festa da Lagoa, o presente da mãe d'água no dia 2 de fevereiro e também dos "caldos" tomados quando queria nadar mais longe do que podia.

Nunca fui propriamente estudiosa. Dei muito trabalho ao meu irmão Valtércio, menino sisudo e aplicado. Preferia pular corda, dar pedradas e rabiscar papel, desenhando tudo que me caísse debaixo dos olhos. Chegaram a pensar que eu desse para pintora. Menina, ainda, comecei a ajudar meu pai. Nas horas de aperto, enquanto comia, meu pai me ditava notícias e artigos. Fiquei treinando a ponto de analisar as palavras que deveriam ser substituídas depois ou os períodos longos demais. Meu pai acatava minhas críticas e repetia que, se eu estudasse iria longe. Pôs em minhas mãos Camilo, Herculano e Vieira. Comecei a caçar palavras desconhecidas para fazer vocabulário. Mas, para ler, eu gostava mesmo era de Júlio Diniz, e sonhava com uma viagem a Portugal. Aos quinze anos, mostrei a meu pai uma crônica feita por mim a propósito do Disraeli de André Maurois. Meu pai leu, guardou no bolso e não disse nada. Publicou no outro dia no rodapé do matutino O Imparcial. Recebi muitas felicitações. Minha alegria se transformou em humilhação quando um maldoso perguntou quem tinha escrito aquilo para eu assinar. Meu pai me consolou garantindo que o mundo não era tão feio assim.

Na escola de música cheguei a ser uma aluna brilhante. Fui para o quadro de honra durante todo o curso e cheguei também a ganhar medalha de aplicação. Tocava Bach que dava gosto. Não tinha talento musical, mas estudava dobrado para contentar minha mãe, que era apaixonada por música. Ela viveu o bastante para me ouvir tocar algumas peças mais ou menos como o disco. Hoje não tenho tempo nem estímulo, e raramente toco. Mas o diploma de professora de música está guardado com carinho. Colei grau de bacharel em ciências jurídicas e sociais, pela Faculdade de Direito da Bahia, aos 19 anos. Tinha, então, vontade de reformar o mundo, mas não encontrava a oportunidade.

A morte de minha mãe me tornou uma simples dona de casa. Foi uma das mais duras experiências da minha vida. Sei tomar conta de casa, mas declaro ser uma tarefa tenebrosa. Quem existia era a casa e não eu. Com o segundo casamento de meu pai, voltei a existir. Principiei a publicar contos baseados em lendas e fatos passados nas margens do Paraguaçu. Cheguei a ganhar, num concurso de contos regionais, um prêmio que, se não era tentador, pelo menos significava um estímulo. Quando meu pai organizou a Comissão Baiana de Folclore, meu entusiasmo pelas coisas regionais cresceu. Dediquei-me à pesquisa de campo e em 1951, apresentava um documentário sob o título de Contribuição para o estudo da cozinha baiana ao Primeiro Congresso Brasileiro de Folclore. Em 1952, enviei ao Concurso de Monografias da Discoteca Municipal de São Paulo uma coletânea de histórias, romances e casos. O ofício comunicando que o trabalho tinha sido recomendado para publicação chegou às minhas mãos no dia do enterro do meu pai. Já nada me importava. Eu tinha a impressão de que havia morrido também. Teria ficado neste estado de desolação se não fosse meu irmão Valtércio, que exigiu que eu continuasse. Meu pai esperava muito de mim e eu precisava mostrar que podia fazer o que ele tanto sonhara. Assim, em 1953, levei ao II Congresso Brasileiro de Folclore um volumoso trabalho sobre uma pesquisa acerca de Bailes pastoris. Em 1954, comecei a juntar material para escrever a história de Nova Cruzada. Se Deus ajudar, ainda farei um bom trabalho. Foi esta pesquisa que me desvendou o mundo maravilhoso de antes da primeira guerra mundial através dos velhos jornais da época. As crônicas começaram a ser publicadas em A Tarde, o jornal de maior repercussão na minha terra. Traziam a assinatura de Hildegardes Viana. Não faltou quem dissesse que eu estava roubando coisas inéditas de meu pai. As crônicas me firmaram no conceito público e ainda publicarei muitas enquanto tiver vida e saúde.

Em 1955, na II Reunião Brasileira de Antropologia um trabalho de investigação sob o título de O breviário das sendeironas e aparadeiras. Não é que eu queira me elogiar, mas meus trabalhos são sempre bem recebidos por seu cunho sério e honesto. Foi também em 1955 que aprendi com os trovadores e violeiros a fazer sextilhas de improviso. Confesso que dou para a coisa.

Na Bahia, já estou feita. Lá todos gostam de mim. Não tenho inimigos e posso ser baiana com "h". Já pude publicar um livro. É este Cozinha baiana, seu folclore, suas receitas, que está fazendo uma bonita carreira, inclusive na Argentina. Gente de peso por este mundo afora tem batido palmas ao que fiz. Passo a maior parte do tempo remexendo jornais velhos no Instituto Geográfico Histórico da Bahia. Meu primeiro leitor é sempre Valtércio, crítico severo e imparcial.

No mais, sou uma moça comum. Considero-me feliz por aceitar a vida tal como é. Nunca espero mais do que me dão e, por isto, recebo sempre muito. Gosto muito de rir. Sei cozinhar, cozer e bordar. Ignoro se isto fica bem dito por uma escritora. Sou naturalmente tímida. Fiquei mais um pouco desembaraçada atuando em teatro de amadores. Aliás, dizem que tenho talento para a comédia. Sou kardecista, porém não discuto nem argumento. Crença é coisa que não se pode incutir na cabeça alheia.

Não tenho planos para o futuro. Pretendo viver na Bahia, vindo de vez em quando espiar o Rio. Quando tiver dinheiro, irei a Portugal, Peru e Egito. Projetos apenas. Gosto de me preparar para o momento em que as coisas tenham que acontecer. Vou voltar para a Bahia e continuar a pesquisar e estudar. Quero terminar a História da Nova Cruzada e rever minhas crônicas que estão merecendo publicação em livro. Vou também continuar a reunir a obra que meu pai deixou esparsa em jornais, para, um dia, mostrar ao Brasil quem foi Antônio Viana. Por enquanto é só. O que Deus fizer comigo será reflexo do que ele acha que deve me dar.

Assim contou a folclorista Hildegardes Viana, cronista e mulher de grande inteligência que, no momento, se encontra nesta cidade, onde veio "espiar" e lançar seu livro encantador: A cozinha baiana.

 

"A baiana Hildegardes Viana". Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 29 de julho de 1956)
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