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Ano VIII - Edição 87
Fevereiro de 2006
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O culto de Santo Onofre

Mário Melo

Pertence o assunto ao folclore ou nele, pelo menos, se enquadra.

Segundo depoimento que me prestaram, era muito forte o culto a Santo Onofre, aqui no Recife, tornado pelas pretas e mulatas como protetor das amancebadas, particularmente quando o varão português.

Houve um rude escultor, que vivia de fazer pequenas imagens de Santo Onofre, e eram tanto mais privilegiadas as suas esculturas, quanto a oficina estava montada no antigo Telégrafo Ótico que, como sabem, funcionava na igreja do Espírito Santo.

Quão diferentes usos tem tido essa igreja! Surgiu no período holandês, como templo calvinista. Foi depois, ao catolicismo adaptada pelos jesuítas. Com a expulsão destes, serviu de estribaria ao capitão general Luís do Rego. Ascendeu a templo da Justiça. Voltou a templo católico reservado, porém, uma parte para o Semáforo. E vejo agora que também serviu de fábrica para bruxarias.

Vamos ao depoimento!

O fabricante era procurado meio furtivamente. Quando vendia o santo, explicava o que era preciso para fazer o milagre: Amarrar a imagem com uma fita vermelha e, sem que alguém visse colocá-la na jarra d'água, rezando três Ave Maria e pronunciando no fim, o nome da pessoa virada. Ir, em seguida para a janela, e rezar Padre Nosso e o Credo em intenção do santo que ficara mergulhado na jarra, para satisfação do desejo. Continuar na janela a espera de uma frase de transeunte, possível de ser interpretada como aprovação de Santo Onofre. Em caso negativo, repetir as rezas e esperar. Falhando a segunda, não falharia a terceira. Ir, então à jarra, tirar o santo, queimá-lo em alfazema, pronunciando enquanto o fogo consumir:

"Meu Santo Onofre, santo do meu coração, o fogo que te consome seja idêntico ao que há de arder o coração de Fulano, que me há de amparar e de ser meu até o fim da minha vida". (Rezar o Credo).

Infalível, especialmente se a devota de Santo Onofre fosse negra ou mulata, e português o desejado.

Seguia-se, então a fase final, para a amarração indissolúvel: tirar da vítima um pouco de cabelo da axila esquerda e misturá-lo com a comida destinada às galinhas.

Quando o cabelo penetra na moela da galinha, o homem, de cuja axila esquerda fora retirado perde completamente a cabeça e enlouquece de amor por aquela em favor de quem Santo Onofre atraíra.

 

(Melo, Mário. "O culto de Santo Onofre". Correio Paulistano. São Paulo, 10 de junho de 1951)
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