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Sapatos do Pará

D. P. Kidder e J. C. Fletcher

Quando os rústicos sapatos do Pará são manufaturados, é uma medida de economia dispor de fôrmas de madeira. Essas são, no começo, revestidas de argila, para mais facilmente poderem ser retiradas. Às vezes, para conveniência da operação, é-lhes fixado um cabo.

O fluido é derramado na fôrma, e uma delgada capa imediatamente adere à argila. A operação seguinte consiste em expor a goma à ação da fumaça. A substância queimada para esse fim é o fruto da palmeira vassou. Essa fumaça serve para o duplo propósito de secar a goma e dar-lhe uma cor escura. Quando uma camada está suficientemente endurecida, acrescenta-se outra, e defuma-se de novo. Assim podem-se produzir placas de qualquer espessura. É raro que um sapato receba mais de doze capas. O trabalho, quando terminado, é exposto ao sol. Durante um dia ou dois, o sapato fica macio suficientemente para receber impressões permanentes, recebendo então, os sapatos, desenhos de acordo com a imaginação do operador, que usa um estilete ou uma ponta. Conservam sua cor amarelada, ainda algum tempo depois que se fizeram os últimos desenhos, e são dados como prontos para irem ao mercado. Realmente, são usualmente vendidos, quando a goma elástica ainda está tão fresca que os sapatos precisam ser guardados, uns separados dos outros: por isso vêem-se pares de sapato geralmente amarrados e suspensos em longas varas. Podem ser vistos diariamente no Pará, suspensos sobre os passadiços das canoas, que descem o rio, e nos ombros dos homens que os levam para o mercado. Quem compra os sapatos para exportação, geralmente os cobre com graxa seca, para conservar as dimensões. Várias pessoas que moram nos subúrbios do Pará recolhem goma elástica e fabricam objetos com ela, em pequena escala; é porém, das florestas da região circundante, onde os habitantes quase que só se dedicam a esta tarefa, que o mercado é principalmente suprido.

A goma pode ser recolhida durante todo o ano; mas é mais facilmente recolhida e mais facilmente trabalhável durante a estação seca. Os meses de maio, junho, julho e agosto são principalmente apropriados ao seu preparo. Além de grande quantidade dessa substância, que o Pará exporta sobre outras formas, têm sido exportados, de alguns anos para cá, cerca de 300.000 pares de sapatos de borracha, anualmente. Há, contudo, algumas variantes na forma de sua exportação; há poucos anos passados, um americano residente no Brasil tirou uma patente, garantindo uma invenção para exportar borracha sob a forma líquida. A região amazônica satisfaz atualmente, e provavelmente ainda por muito tempo, em grande escala, a atual e rapidamente crescente procura desta substância.

Várias outras árvores, a maioria delas pertencentes à tribo das Euphorbiaceae, produzem uma goma semelhante, porém nenhuma delas é capaz de competir com a árvore da borracha do Pará.

Certas árvores, que não são raras na província, denominadas maçaranduba, produzem uma secreção diferente, tão parecida com o leite que é muito estimada como alimento. Forma, quando coagulada, uma espécie de placa de gesso, a que se dá muito valor. Essas árvores produzem o líquido em grande profusão. Os seus caracteres botânicos nunca foram propriamente pesquisados. Diz-se que a resina da árvore da borracha é também, às vezes, usada como leite, e que os negros e os índios que trabalham no seu preparo gostam muito de bebê-la; entretanto, uma jovem senhora que a foi beber no Pará, morreu dos efeitos da coagulação da goma em seu estômago.

[1855]

 

(Kidder, Daniel Parish; Fletcher, James Cooley. O Brasil e os brasileiros; esboço histórico e descritivo. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1941, v.2, p.303-306 (Biblioteca Pedagógica Brasileira, Série 5ª, 205-A))
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