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Ano VIII - Edição 87
Fevereiro de 2006
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O homem da ostra, por Eustórgio Vanderlei



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O homem da ostra

Eustórgio Vanderlei

Na galeria dos tipos populares da formosa Mauricéia destaca-se um popularíssimo e que, bem se pode dizer, familiar há três gerações. Certa vez, há uns dez anos, me confessou ele ter perto de 90 anos, pois havia nascido "no tempo da praieira", revolução pernambucana de 1848!

Esse veterano dos tipos populares recifenses é o conhecido "homem da ostra", que adotou um original pregão com que insinua serem frescas as ostras que vende, afirmando, com sua voz de baixo profundo:

- Eu tenho a ostra chegada agora!

Seu pregão é, mais ou menos, melodioso. Compõe-se de uma frase musical de dez notas em um compasso e meio, em tempo quaternário, de acordo com as dez sílabas do que apregoa, notando-se que as quatro notas finais são semitonadas, dando a impressão de que ele fala e não canta as duas últimas palavras: "chegada agora..." Ao invés de a música terminar na tônica do tom escolhido, finaliza com duas notas, dois semitons abaixo da tonalidade inicial.

Um pouco de lenda

O povo teceu uma estranha lenda em torno da vida do velho Gabriel do Espírito Santo, pois assim se chama o célebre "homem da ostra".

Conta-se que ele, quando era moço, foi pachola, meio brigão, gostando de usar roupas de brim branco bem engomadas e de passear a cavalo. Certa vez - é ainda a lenda que fala - pediu à sua velha mãe que lavasse e engomasse um dos seus ternos brancos para o passeio domingueiro. A velhinha fez o que o filho lhe pedira. Ele, porém, não gostou do trabalho, achando-o mal-feito, principalmente as calças, que não estariam ao seu gosto, talvez bem duras de goma, e - ó, sacrilégio! - exasperado, teve a audácia de bater com elas na própria mãe!...

Praga de mãe

Ela, magoada com aquele gesto perverso e infeliz do filho, exclamou:

- Nunca mais na tua vida acharás uma calça que te chegue às pernas!

Nessa hora, o sino de uma igreja bateu meio-dia.

E então o jovem Gabriel do Espírito Santo estremeceu. Lembrou-se do que diz o povo:

- Praga de mãe, na hora do meio-dia, pega.

Ele, arrependido, pediu perdão à velhinha, mas a praga já estava "pegada"... e ao meio-dia.

O certo é que - acrescenta ainda a lenda - nunca mais o "homem da ostra" encontrou uma calça que lhe chegasse até os tornozelos. Todas elas lhe ficavam pouco abaixo do joelho, por mais compridas que ele as comprasse.

O senhor Gabriel do Espírito Santo tem uma elevada estatura, passando alguns centímetros além dos dois metros. Nas lojas da rua do Rangel, ou nos "compartimentos" do mercado de São José, onde se vendem roupas feitas, ele compra as calças, as mais compridas que encontra. Experimenta-as ali. Estão de bom tamanho. Quando, em casa, ele as veste, estão sempre curtas.

- Praga de mãe - diz o povo.

O coração não envelhece

Apesar dos seus anos provectos, o "homem da ostra" não se condenou ao ostracismo amoroso. Várias são as criaturas do sexo feminino que têm passado pela sua vida como companheiras amáveis. Uma das últimas poderia ser até sua neta ou bisneta, pois era um brotinho moreno de menos de vinte anos.

- Enquanto ela andar dereito - disse-me o senhor Gabriel do Espírito Santo - tem a minha porteção. Trastejou, já sabe: vai andando pra mor de criar calo.

E, dizendo isto, ele próprio foi andando, com uma das mãos espalmadas sobre os rins, o cesto ou samburá das ostras equilibrado à cabeça, no seu passo gigante e pausado, apregoando:

- Eu tenho a ostra chegada agora! Eu tenho a ostra chegada agora!

 

(Vanderlei, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo. 1ª série, 2ª edição. Recife, Colégio Moderno, 1953-1954, p.221-223)
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