Quase não se repara na nova mania ambulante que anda por aí. É que foi acontecendo aos poucos. Em cada temporada, uma novidade. A somar-se a outras que haviam surgido muito de manso. Todas elas aceitas sem espanto. Com naturalidade. Porque para o estômago, comer e beber são coisas naturais. E, infelizmente, imprescindíveis. Se bem que isso que agora, anda por aí, a tentar-nos em cada esquina, sejam apenas gulodices.
E, com isso tudo, anda mais bonita a cidade. Reparem só.
No começo, na cidade ou na praia, eram os cestos. Principalmente de maçãs coradas. Cestos que ficavam pousados sobre o chão parados. Tentando, com o vermelho lustroso, tanto os atarefados comissários da rua XV como as famintas crianças que faziam castelos e bolinhos de areia, na praia do Gonzaga.
À noite, numa das esquinas da Senador Feijó, era o homem da lata quente de salsichas e do cesto fundo de pães macios. Que cachorro-quente gostoso. Deus meu. Na praça Independência, eram as pretas dos tabuleiros. Com o fogareiro de lata esparramando calor, o bife provocando apetite novo até nos que haviam acabado de jantar.
Eram os cestos de pipoca, paçoca e amendoim torradinho. Era o tubo comprido do dilim-dilim. Os tabuleiros de cocada. Branca e queimada. Hum.
Mas nada disso marchava sobre rodas. Era quase que um comércio estático, embora sendo tipicamente de rua. Um dia, porém, principiaram a surgir os carrinhos. Aquele grande que, chiando, fazia o doce e branco algodão. Sempre com gosto de querosene. Culpa da lâmpada que iluminava a engenhoca chieira. Veio o caminhão da garapa, o único motorizado a roncar grosso com a moagem da cana. A pipoca saiu do cesto. Ganhou carrinho. Alto, estreito, desengonçado.
E um belo dia, invenção norte-americana, surgiu o carrinho amarelo de sorvete. Novidade absoluta. Carrinho grã-fino, com rodas pneumáticas, baixo e elegantemente bojudo. O modelo, típico, passou, então, a realmente enfeitar a cidade. O mau gosto dos carrinhos de pipoca, a armação desengonçada dos churros e pastéis, foi contrabalançada pela elegância alegremente colorida dos carrinhos amarelos e laranja dos sorvetes pelo vermelho e pelo verde das bebidas que os americanos nos impingiram.
Toma-se mate em carrinho. Bebe-se laranjada ambulante. Até o cachorro-quente anda sobre rodas de borracha.
Com isso tudo, surgindo aos poucos, as esquinas, praças, praias e ruas da cidade, estão lindas. Coloridas, alegres, Carrinhos fazem fila. Carrinhos desviam-se de carrinhos. Só nós é que deles não conseguimos escapar. Principalmente quando rebocamos crianças. Haja bolso recheado, meu Deus!
(Federici, Lídia. "Carrinhos". A Tribuna. Santos, 24 de março de 1962)