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O tatu e o professor

André Cardo

Dedo mindinho, seu-vizinho, pai-de-todos, fura-bolos e mata-piolhos... velha história que ouvem todas as crianças para distinguirem esses formidáveis apêndices que concederam ao homem o privilégio de se tornar um ser superior e dominador do mundo. Não fossem as duas mãos e os seus dez dedos, as centelhas do intelecto humano, caso chegassem a se produzir, se perderiam inutilmente, como nebulosas e abstrações...

Escapavam à argúcia do major Terêncio Ávila, abastado estancieiro na costa do Jaguarão-Chico, estas especulações filosóficas, pois que o almanaque Bristol ainda era a sua leitura predileta, não obstante ser homem inteligente e gaúcho de lei.

Na sombra de hospitaleira capororoca se distraía o avô Terêncio distraindo os netos. Um, de três anos escassos, era quem recebia a lição dos nomes de batismo dos utilíssimos prolongamentos das mãos. O fura-bolos era, sem dúvida, o gostosão da turma, na primeira oportunidade faria uma experiência com o seu, em algum pão-de-ló colocado ao seu alcance, planejava o guri.

Com dez anos completos e muito alarife, acerca-se o Chico, já traquejado nos trabalhos campeiros e já mui sabido de uns quantos segredos da natureza, por força da convivência com os animais e dos hábitos da gente rural. Acompanhava-o o Pedruca, um par de anos mais moço e que, se não saía ao campo devido à pouca idade, pelo menos participava das lides caseiras, ajudando a crioula Marcula nas peregrinações diárias pelos paióis, galpões, chiqueiros e galinheiros. Era ágil para manotear galinhas, que a peona apalpava, uma por uma, todas as manhãs, deixando encerradas aquelas que tinham ovo para o dia.

Ambos ouviram a explicação que o avô dera ao fedelho, mas, já mais taludos, tinham opiniões próprias a manifestar quanto ao fura-bolos. O Pedruca proclamou a sua utilidade como elemento de previsão da postura das aves de capoeira, enquanto o Chico, orgulhoso dos seus conhecimentos, empregava-o tal como a negra Marcula aplicava às pedrezes, mas para arrancar as mulitas das tocas, no que se considerava perito.

O major Terêncio se deliciava com a vivacidade dos netos e os instigava a desenvolvê-la, cutucando-lhes a cuirosidade. Nesta oportunidade, explicou ao Chico que o seu processo de caçar mulita se aplicava, também, aos tatus, mas que se não descuidasse em agarrar com toda a gana a cola, valendo-se da mão direita e utilizando-se do fura-bolos da outra para fazer o bicho distender o corpo, que costumava arquear contra a parede do buraco, como recurso para resistir ao arrastão.

Para a petizada estava subindo de importância o dedo indicador, sem reações maliciosas. É que mal não há, onde mal não se pensa. No campo, a vida se desdobra sem artifícios nem cortinas aguçadoras da imaginação infantil, sendo as manifestações biológicas fenômenos naturais como a chuva, o frio, as sementeiras, a reprodução dos animais.

Muito antes de aprenderem a lidar com o alfabeto e as quatro operações, as crianças campesinas absorvem vasto cabedal de conhecimentos gerais, de história natural e são capazes de fazer úteis preleções nesse terreno, aos adultos citadinos.

 Não lhes falta inteligência, nem discernimento. Se permanecem ignorantes é pela ausência de escolas rurais. Isso, obrigará o major Terêncio Ávila a contratar um professor para ministrar conhecimentos didáticos aos netos. Era moço instruído e não menos educado, mas inteiramente desconhecedor das maneiras da campanha, pois nem andar à cavalo sabia, o ilustrado acadêmico João Freitas,  que aceitara o encargo por conveniência da saúde.

Todas as tardinhas, sozinho, se dirigia ao Jaguarão-Chico, formava no fundo do piquete, ali se sambulhando n'água, em saudável descanso espiritual. Depois de uma hora de exercício físico, voltava às casas, animado de respeitável apetite, acalmado por gostoso assado de ovelha e feijão. Essas idas e vindas consistiam verdadeiras lições de coisas para o jovem Freitas. Aqui, uma linda árvore; ali, uma infatigável abelheira escondida no oco de um grosso tronco; mais além, bandos de pombas carijós e jacus esquivos espiando por trás de altos galhos; pelo chão, guaracrains maroteiros e, até, um grande tatu, encontrava quase todos os dias.

Certa vez, já mais familiarizado com a fauna local, não resistiu à tentação de segurar o tatu, que frechou como um tiro, entrando em sua toca, logo ali cavada numa barranca. Experimentou puxá-lo pela cola, pois que, confiante em si mesmo, não penetrara no seu covil senão uns dois palmos. Quando se sentiu agarrado, nada mais fez que encurvar o corpo, de modo a calçá-lo contra a parede do buraco e, assim expandido, ficou encravado na terra.

Ora! tatu entocado para ser pegado, ou terá de se inundar a sua casa com água ou arrombá-la a pá ou picareta. Mas, se se conserva perto da boca, ao alcance das mãos, há um processo mais expedito que aqueles...

Quando encontrou-se o professor com o major Terêncio, relatou a este o seu fracasso como caçador. O velho repetiu as instruções que, havia tempos, ministrara ao seu neto Chico, talvez se descuidando em esmiuçá-las convenientemente, já que o Freitas não era versado em detalhes da arte venatória crioula...

Dias decorreram sem falarem mais no assunto. Por fim, o estancieiro interpelou o rapaz se não mais topara com o tatu mas suas digressões pelo mato sendo informado que o encontrava diariamente.

- Então, não quis experimentar a técnica campeira que lhe ensinei para sacar o bicho da toca?

Sim, experimentara-a à risca, mas sem bom resultado, durante os seis últimos dias. Era de embasbacar como resistia ao esforço de arrastá-lo para fora da casa, embora empregasse toda a sua força... E mostrava ao major a mão direita escalavrada e cheia de bolhas, enquanto que a canhota nada sofrera...

Ficara aturdido o gaúcho com o insucesso, que para ele não tinha explicações. Com o intuito de ser agradável ao professor, insistiu para que tentasse, ainda uma vez mais, garantindo-lhe o êxito da empreitada.

Um tanto constrangido, mas cheio de decisão, o Freitas contraponteou:

- Desisto, major! Não agüento mais. A mão direita está do jeito que vê e onde colocava o dedo esquerdo não está melhor!

Lamentável confusão deve ter ocorrido...

 

(Cardo, André. "O tatu e o professor". A Hora. Porto Alegre, 18 de dezembro de 1957)
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