Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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João Cinza e a moça dos sete sapatos

Tinha uma moça que todo dia pedia sete pares de sapato ao pai. O pai era o rei, e o pai dava. Com isso, o primeiro par era de ouro; o segundo era de prata; o terceiro, de metal; o quarto, de aço; e eu sei que terminava em ferro.

E nisso ele baixou o decreto: quem descobrisse esse mistério, daquela moça gastar aqueles pares de sapato toda noite (a moça se encantava, calçava aqueles pares de sapato e se encantava e desaparecia, quando reaparecia era com os sapatos acabados, e mandava pedir outro).

E assim era só indo príncipe e morrendo, porque não descobria e morria na forca. Ia dormir mais ela para saber o que era, mas não desencantava em nada. Quando era no outro dia, ela aparecia ao rei com os sapatos acabados, e os príncipes não sabiam nada, não falavam nada com o rei porque eles diziam: "nós não vimos nada". Aí iam para a forca, morriam.

Quando foi um dia, uma viúva tinha três filhos. Dois eram formados e um era alienado, não tinha destino, então vivia na cinza, na beira do fogo tomando banho de cinza e esquentando o fogo. Os rapazes, os formados foram e morreram. Aí o João Cinza disse:

- Bem, mamãe, eu vou casar com a filha do rei.

Aí ela falou:

- Meus filhos todos formados foram e morreram. Avalie você, seu João Cinza, você vai morrer também.

Aí ele arrumou-se e foi. Chegou no caminho, tinha uma briga de dois homens, brigando por causa de três objetos: essa bota, essa chave e essa carapuça. Aí o João Cinza foi e perguntou:

- E que mistério tem isso?

Eles disseram:

- Essa chave você abre toda porta quando quiser, não tem porta encantada para você não abrir; essa carapuça aonde você quiser se encantar, você se encanta, bota ela na cabeça e diz: "Carapuça, me encanta. Eu quero ficar encantado". Você se encanta e ninguém lhe vê; e essa bota, você bota ela no pé e passa o seu pensamento: "Bota, me bota com dez mil léguas, me bota com cem mil léguas", até com quinhentas, e quanto você pedir a ela, ela lhe bota.

Ele diz:

- Bom, e é por isso a briga?

- Porque esses objetos só servem para um e nós vamos nos matar. O que ficar vivo ganha os objetos.

Aí o João Cinza disse:

- Vocês vendem esses objetos?

E os outros:

- Vendo. Ah, agora melhorou pra mim...

Foi e vendeu os objetos. Os dois homens que estavam brigando foi e venderam os objetos para o João Cinza.

Aí o João Cinza chegou lá na casa do rei. Todo cheio de cinza, era um carvão danado. Aí falou o que queria. O rei deu uma risada e disse:

- Olha, inda ontem morreram dois príncipes formados aqui, nas garras da minha forca, e não descobriram nada. Avalie você, seu borraiento. Você tá bom é para botar na forca antes de ir lá falar com a princesa, mas eu vou te dar, você vai dormir hoje no quarto dela. Mas certeza amanhã a forca vai lhe comer, vai lhe estourar o seu pescoço.

Chegou lá, quando a moça viu ele, disse:

- Pai, o que veio fazer este miserável aí?

- Ele veio desencantar o que eu quero.

Ela disse:

- É, fique aí, mas é certeza, prepara logo a forca. Ainda ontem morreu dois outros daquele jeito e agora esse borraiento. Fica aí, borraiento. Antes do dia amanhecer, tu morre.

Ele foi e ficou. Ela dava umas bebidas temperadas com uma tal de dormideira. Barrãozinho com uma dormideira dentro. Dormideira é um líquido que a gente bebe e dorme dois, três dias, quatro dias, e tanto que for botado. Aí ele fez que bebeu. Deu a ele pra beber. Era o que desgraçava o príncipe, era isso. Deu a ele pra beber, ele fez que bebeu, mas não bebeu. Quando fez que bebeu, pegou no sono. Ela disse:

- Ah, miserável, tu amanhã, tu vai casar com a princesa, borraiento, miserável.

Daqui a pouco chega um moleque. Um tal de moleque. Moleque preto, danado, dançando que só.

Aí ela calçou o sapato de ouro e sumiu. E ele vendo tudo e o moleque carregando os outros sapatos. O moleque é quem carregava. Aí quando ela sumiu, ele foi e calçou a bota e disse:

- Bota, me bota aonde está a princesa encantada, a princesa do mistério encantado, dos sete pares de sapato.

Calçou a nota e quando deu fé, estava no quarto, no salão, ela estava dançando. O salão era todo de ouro, chegava a faiscar. Ela dançando mais o moleque que estava danado. Era uma dança danada. Num instantezinho acabou o par de sapato. Quando acabou o par de sapato, calçou o sapato de prata e sumiu-se. Ele foi e calçou a bota e disse:

- Bota, me bota aonde está a princesa do mistério encantado.

Quando deu fé, ele estava lá no salão de prata que estava faiscando. Ela dançando mais o moleque com o sapato de prata. Ele com a carapuça na cabeça, não teve quem visse ele. Quando ela acabou o sapato de prata, ele apanhava o restinho, botava no saco. Já estava com o de ouro, apanhou o de prata. Depois sumiu-se. Calçou o sapato de aço, depois sumiu-se. Ele foi, calçou a bota e disse:

- Bota, me bota onde está a moça do mistério encantado.

E assim foi. Aí ela calçou o sapato de metal, sumiu. Ele fez o mesmo e assim chegou nos sete salões. Derradeiro foi o de ferro. Ele ajuntando tudo aquilo, botando num saco. Aí botou a bota no pé e disse:

- Bota, me bota daonde eu vim, no quarto da princesa.

Ele botou a bota no pé. Quando deu fé, estava no quarto da princesa. Daí um pouco, ela chegou com o moleque ainda. Disse:

- Olha, moleque, vai para a forca amanhã. Está dormindo chega a estar espalhado, mas não desencanta o nosso mistério.

O moleque era um moleque dos diabos. O povo diz que tem esse tal de diabo. Era um moleque endiabrado. Disse:

- Ele vai morrer, mas não desencanta nesse mistério.

Ele fez que estava dormindo. Quando foi bem cedinho, às cinco horas, o rei chegou.

- Como lhe foi? Já está acordado, seu borraiento? Já está pronto para morrer?

Ele disse:

- É, estou pronto para casar com a princesa. Descobri tudo.

- Descobriu como?

- O encanto daqui é um moleque pequenino desse tamanho. Um cão. Um moleque endiabrado. É quem carrega os sapatos. Ela calça um e sai danada. Fui no salão de ouro. Está aqui o par. Olha aí o sapato de ouro. Ela acaba num instante. Depois calçou um de prata. Eu fui. Está aqui o de prata. Aí foi passando pelos salões todinhos e eu fui apanhando os sapatos. O derradeiro foi o de ferro. Está aqui o sapato de ferro. Os setes pares de sapato. É um moleque endiabrado, é um cão, viu. É um cão endiabrado e estava fazendo isso com o senhor. Se não aparecesse um jeito, o senhor ia ficar de esmola, ia morrer. Terminava o moleque lhe matando e carregando a moça, a princesa, mas agora ele não vem mais aqui, não, porque eu desencantei tudo. Aí o senhor prepara, aí, umas coisas...

Ele foi e ensinou para o rei:

- Dá uma surra nele com sete rosários, sete cordões de São Francisco, dizendo umas palavras. O senhor fazendo isso, acaba com o moleque endiabrado e a princesa fica livre. A princesa ia morrer também. Ia para o inferno com ele e o senhor ia morrer nessa luta, ia endoidecer e ia morrer também. Ia acabar-se toda a família do senhor.

Ele disse:

- Já ganhaste a minha filha.

Aí levou ele, tratou dele, coroou ele logo como rei, casou ele com a princesa.

Quando ele chegou em casa foi como rei, coroado como rei.

 

(Informante: Chiquinha da Silva. Rio de Janeiro RJ)

 

(Adaptada do original em Barreto, Mônica L. de Barros (org.); Frade, Cáscia (coord.). Do jeito mais simples; crianças pesquisam cultura popular.  Rio de Janeiro, Funarte; Secretaria de Educação e Cultura, 1979. v.2, p.46-49)
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