Primeiramente, o sol era grande e como carajá.. Era homem velho e tinha duas filhas bonitas. Carajá Alobederi e seu irmão queriam casar-se com elas. Deram ao sol muitos presentes, enfeites e outras coisas; casaram-se.
O sol certa vez disse às filhas:
- Agora vossos maridos têm de trazer-me fumo.
Os irmãos foram ao mato buscar o fumo. Mas o fumo não quis sair. Tentaram arrancar o fumo com a mão; mas ele ficou nos dedos e não saiu. Suas mulheres deram-lhe remédio, e assim o fumo saiu. O sol ralhou então com as filhas, querendo matá-las. Dizem que o fumo pertence ao sol.
Disse ainda uma vez o sol às filhas:
- Agora vossos maridos têm de trazer-me ovodi (alimesca, uma resina para ungir o corpo).
Alobederi e seu irmão foram ao mato. Quando chegaram lá, havia fogo em redor da árvore do ovodi.
- Como podemos retirar a resina?
Chamaram o passarinho e pediram-lhe que trouxesse água. O passarinho trouxe água e sempre mais água e apagou o fogo. Então os irmãos puderam retirar a resina e levá-la para a casa do sol. Disseram-lhe às mulheres:
- Eis aqui resina, dai-a a vosso pai. Dizem que o ovodi pertence ao sol.
Alobederi não sabia copular e perguntou ao irmão:
- Como vamos fazer isto?
Estava com medo e pensou: "Talvez a mulher tenha piranha na barriga". O irmão disse:
- Vamos perguntar ao macaco!
O macaco ensinou-lhes o coito, oferecendo-lhes o ânus. O macaco foi quem primeiro soube fornicar. Depois de algum tempo, Alobederi agarrou-o no cabelo que cai sobre a testa e gritou:
- Basta!
Por isso, hoje o macaco tem a testa livre e os cabelos não lhe caem sobre ela como acontece com os carajás.
Alobederi e seu irmão, depois de voltar do macaco, dormiram com as filhas do sol. Feito isto, abandonaram-nas, porque o coito não foi bom. Disseram:
- Agora viramos pirosca (pirarucu).
Alobederi e seu irmão caíram num lago e pularam como pirosca, tornando-se pirosca. No lago havia muitos jaburus. Alobederi disse ao irmão:
- Não queremos ser mortos pelos jaburus.
Os jaburus atiraram flechas nos piroscas, mas mataram só um, o irmão de Alobederi. Alobederi foi-se. Dizem que Alobederi é duro como pedra, por isso jaburu não o pôde matar. O irmão era mole. O jaburu comeu-o. Dizem que ambos os irmãos eram lindos e altos.
Então Alobederi chegou a outra casa, a casa de Irureruré, de um velho carajá. Alobederi disse:
- Há aqui, como dizem, duas araras, duas bonitas araras.
Irureruré foi pescar, voltou, e foi outra vez para apanhar ao anzol tartarugas e regressou de novo. Durante todo este tempo Alobederi ficou sentado na casa, só olhando. Então Irureruré foi buscar mel. Alobederi agarrou uma arara e saiu correndo. A mulher de Irureruré chamou por seu marido:
- Venha! Alobederi levou a arara consigo!
Irureruré correu atrás de Alobederi, alcançou-o e disse:
- Vou matar-te.
Alobederi lhe deu um remédio de plantas para poder levar levar consigo a arara. Então Irureruré voltou para casa.
Lenda recolhida por Herbert Baldus entre os carajás e publicada em Ensaios de etnologia brasileira (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1937, p.226-228, Brasiliana). Ouviu-a da boca do índio Dyuasá, na aldeia Beroromandu, situada perto de Santa Terezinha, na margem esquerda do Araguaia.