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Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Aventuras de dois irmãos

Alberto da Costa e Silva

Primeiramente, o sol era grande e como carajá.. Era homem velho e tinha duas filhas bonitas. Carajá Alobederi e seu irmão queriam casar-se com elas. Deram ao sol muitos presentes, enfeites e outras coisas; casaram-se.

O sol certa vez disse às filhas: 

- Agora vossos maridos têm de trazer-me fumo.

Os irmãos foram ao mato buscar o fumo. Mas o fumo não quis sair. Tentaram arrancar o fumo com a mão; mas ele ficou nos dedos e não saiu. Suas mulheres deram-lhe remédio, e assim o fumo saiu. O sol ralhou então com as filhas, querendo matá-las. Dizem que o fumo pertence ao sol.

Disse ainda uma vez o sol às filhas:

- Agora vossos maridos têm de trazer-me ovodi (alimesca, uma resina para ungir o corpo).

Alobederi e seu irmão foram ao mato. Quando chegaram lá, havia fogo em redor da árvore do ovodi.

- Como podemos retirar a resina?

Chamaram o passarinho e pediram-lhe que trouxesse água. O passarinho trouxe água e sempre mais água e apagou o fogo. Então os irmãos puderam retirar a resina e levá-la para a casa do sol. Disseram-lhe às mulheres:

- Eis aqui resina, dai-a a vosso pai. Dizem que o ovodi pertence ao sol.

Alobederi não sabia copular e perguntou ao irmão:

- Como vamos fazer isto?

Estava com medo e pensou: "Talvez a mulher tenha piranha na barriga". O irmão disse:

- Vamos perguntar ao macaco!

O macaco ensinou-lhes o coito, oferecendo-lhes o ânus. O macaco foi quem primeiro soube fornicar. Depois de algum tempo, Alobederi agarrou-o no cabelo que cai sobre a testa e gritou:

- Basta!

Por isso, hoje o macaco tem a testa livre e os cabelos não lhe caem sobre ela como acontece com os carajás.

Alobederi e seu irmão, depois de voltar do macaco, dormiram com as filhas do sol. Feito isto, abandonaram-nas, porque o coito não foi bom. Disseram:

- Agora viramos pirosca (pirarucu).

Alobederi e seu irmão caíram num lago e pularam como pirosca, tornando-se pirosca. No lago havia muitos jaburus. Alobederi disse ao irmão:

- Não queremos ser mortos pelos jaburus.

Os jaburus atiraram flechas nos piroscas, mas mataram só um, o irmão de Alobederi. Alobederi foi-se. Dizem que Alobederi é duro como pedra, por isso jaburu não o pôde matar. O irmão era mole. O jaburu comeu-o. Dizem que ambos os irmãos eram lindos e altos.

Então Alobederi chegou a outra casa, a casa de Irureruré, de um velho carajá. Alobederi disse:

- Há aqui, como dizem, duas araras, duas bonitas araras. 

Irureruré foi pescar, voltou, e foi outra vez para apanhar ao anzol tartarugas e regressou de novo. Durante todo este tempo Alobederi ficou sentado na casa, só olhando. Então Irureruré foi buscar mel. Alobederi agarrou uma arara e saiu correndo. A mulher de Irureruré chamou por seu marido:

- Venha! Alobederi levou a arara consigo!

Irureruré correu atrás de Alobederi, alcançou-o e disse:

- Vou matar-te.

Alobederi lhe deu um remédio de plantas para poder levar levar consigo a arara. Então Irureruré voltou para casa.

 

Lenda recolhida por Herbert Baldus entre os carajás e publicada em Ensaios de etnologia brasileira (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1937, p.226-228, Brasiliana). Ouviu-a da boca do índio Dyuasá, na aldeia Beroromandu, situada perto de Santa Terezinha, na margem esquerda do Araguaia.

 

(Silva, Alberto da Costa e. Antologia de lendas do índio brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Instituto Nacional do Livro, 1957, p.70-71)
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