O samba de roda já foi a dança apontada como típica da Bahia, ao tempo em que capoeira era somente luta. Tinha características próprias. Era o que se podia chamar de dança espontânea. A começar pelos instrumentos: um prato de mesa e uma faca, duas colheres de sopa, um pente de cabeça envolto em papel fino, uma lata vazia. Às vezes nem mesmo isto. Apenas as mãos dos participantes batendo palmas num ritmo buliçoso.
Havia sambas com pandeiro, sambas com viola, sambas com sanfona, sambas com castanholas, sambas com reco-reco. Sambas com tudo junto. Mas sempre samba de roda, inimitável, com passos próprios, formas melódicas características. Manuel Querino, Afrânio Peixoto, Anísio Melhor, Antonio Viana, Edison Carneiro e muitos outros baianos registraram o samba de roda, dando seu testemunho visual do que ele era. Do que era e ainda é quando se chega em algum lugar, e os que sambam fazem aquilo habitualmente como divertimento e somente como divertimento. Que Deus proteja estes núcleos que ainda não foram alcançados pelos maus olhos dos que estão matando o samba de roda.
Farinha fina é de mesa, quem quiser me ver, Moinho da Bahia queimou, Severo é bom, Foi agora que eu cheguei ó dona, Nazaré, Nazaré, Ó mulhé do balaio grande, Eu bem não queria ir lá, são alguns dos temas de samba de roda que se tornaram tradicionais. O canto era quase sempre espontâneo. Surgiram ao correr do samba, como bons achados reveladores do talento poético dos nossos tiradores, novos temas que o povo guardava e incorporava ao acervo comum.
Um amigo, a que me referi na semana passada, que extravasou toda a sua tristeza com o que está acontecendo na Bahia em matéria de folclore numa carta tipo testamento, escreve: "A pobreza do samba de roda é de causar pena. Os cânticos tradicionais se mantêm apenas por falta de coisa nova apreciável. Os tiradores de samba, salvo um ou outro, não mostram grande habilidade no inventar samba. Os profissionais de exibição (vi quatro ou cinco e perdi meu tempo) pisam e repisam dois ou três temas muito batidos e se acrescentam algo novo é desastroso. Para suprir o que não possuem enrolam versos e melodias de procedências díspares. A linha melódica do samba de roda já não tem um desenho padrão.
Feitas as contas pouco há para mostrar no samba de roda que vem sendo cultivado por aí. Deixando de ser um meio de expressão espontâneo, deixou de ser samba de roda. Porque motivo esta gente que dança não faz de conta que está se divertindo na vadiação, dando de si. Até os gestos das mulheres são padronizados. Que negócio é este?
Posso responder com o que me disse um velho capoerista e sambador, Tibúrcio José dos Santos, já falecido. Ele achava que o que estava acabando com a capoeira (naquela época não havia turismo) era a falta de capricho do negro. Branco só entrava em roda de capoeira para apanhar, em roda de samba para namorar. Acabava fazendo (o termo é impublicável) e acabando com o que o negro tem.
O negro já não quer sambar na roda porque o branco diz que quem samba arrastando o pé é mulher. Mas o que está matando o samba de roda é a maneira pela qual está sendo conduzido. Samba de roda vem de dentro, é instinto, não é dança para ser aprendida. Ou se nasce sabendo sambar ou nunca se samba. Pouca gente sabe movimentar os pés numa destas rodas de samba de encomenda. Se pelo menos apresentassem uma forma nova, resultante da evolução dos tempos. Mas não tem uma diretriz básica na movimentação. Não sabem movimentar os pés, cortar jaca, sapatear, apanhar caroço.
Até os grupos folclóricos que deviam dar a impressão de que partiram de uma pesquisa não dão uma amostra do que seja o legítimo samba de roda. Sempre foi defeito rodar muito muito em volta de si próprio ou sambar para trás. Sambar para trás, todo mundo samba. É falta de tarimba, forma primária, maneira de dançar de principiante. Rodar muito em volta de si próprio era e é utilizado pelos que não têm ritmo seguro nos pés. Qualquer sambista que mereça tal nome sabe disto. Os sambistas quando mostram suas letras, podem fazer o que lhes der na telha: gingar, pular, corrupiar, sapatear, andar, correr, mas sem perder o ritmo, nem o constante do vai-vem dos pés.
Vi rodas de samba em que as mulheres mexiam os quadris imitando cabrochas de escola de samba, faziam xaxado num arremedo, rodavam e rodavam, arrastavam os pés, pulavam apenas como se em pleno carnaval. As palmas nem sempre tinham o mesmo bater ritmado. As sambistas demonstravam "muita bossa" mas nenhum conhecimento do samba de roda. Tanto que quando uma velhota entrou na roda e fez quase que o mesmo praticado antes, mas nos moldes de samba de roda, todos os assistentes vibraram. Por que estas mulheres, se querem ganhar dinheiro, não aprendem como é que se samba? Samba por samba, de outro tipo, temos no Rio de Janeiro e com mais vantagem.
Termina perguntando porque os órgãos oficiais não tomam providências sérias, impedindo que continue a decadência das formas de expressão popular. Cita até a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro como o único organismo capaz de deter tal degenerescência. Como se tal tarefa fosse fácil de realizar. Fácil e possível.