Se a criança cortou o pé e, no momento, não há em casa nenhum remédio de farmácia, o jeito é molhar um algodão com vinagre e botar em cima do talho. É um santo remédio. Estanca a hemorragia e ajuda a curar depressa.
Se a pessoa se corta com uma faca, vinagre; se o menino caiu e bateu com a cabeça no chão, formando um galo, vinagre em cima; se o sujeito foi mordido por um marimbondo ou por um bicho qualquer, vinagre, vinagre; enfim amplo é o emprego e numerosas as excelências do vinagre na medicina doméstica.
Todavia, o efeito mais terrível do vinagre -- dizia-me há pouco uma senhora -- é no emagrecer as criaturas. Deve ser tomado em doses diárias e afirmam que o seu resultado é tremendo.
(...) Mas contam-se casos de senhoras que tomaram vinagre para emagrecer e andaram às portas da morte. É que o efeito excedeu de muito às expectativas. E sabido, como é, que a gordura é deselegante e dispendiosa, o vinagre continua sendo empregado comumente por este Brasil apesar dos perigos de seu excesso.
É oportuno notar que essa utilização do vinagre na medicina popular não é criação nossa, brasileira, mas nos veio como tantos outros remédios extravagantes, das velhas terras lusas.
Já o eminentíssimo padre Manuel Bernardes, na sua Nova floresta (p. 228), refere o uso mais espantoso que conheço do emprego do vinagre para emagrecer. Um tal de Chiapino Virgílio, marquês de [?], chegou a engordar tanto que "era necessário sustentar o ventre em uma liga pendente ao pescoço". Pois bem: Só veio a diminuir três arrobas do seu peso com o uso diário de beber vinagre.
O livro do padre Manuel Bernardes é do século XVII e o caso narrado acima certamente muito anterior. Conclui-se que o uso do vinagre para emagrecer é muito velho e continua sendo empregado hoje, em Natal, com os mesmos sucessos daqueles tempos de Chiapino...