Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
Edição do Mês | Edições Especiais | Edições Anteriores | Tema do Mês | Temas Anteriores | Por Autor | Por Artigo | Por Seção |
Fevereiro 2006 - Ano X - nº 87


Sumário

Festança
Sambas de roda
Hildegardes Vianna

A estranha origem do frevo
Benjamin Lima

O que é maracatu?
Rossini Tavares de Lima

Cancioneiro
Os encantos da morena
Guilherme Santos Neves

Uma coleta folclórica de 1915

O folclore alagoano
Hermógenes Lima Fonseca

Imaginário
Aventuras de dois irmãos
Alberto da Costa e Silva

João Cinza e a moça dos sete sapatos

O tatu e o professor
André Cardo

Colher de Pau
A poesia do café
S. M.

Metáforas superadas
Bastos Tigre

O vinagre na medicina caseira
Veríssimo de Melo

Oficina
Pregões

Carrinhos
Lídia Federici

O homem da ostra
Eustórgio Vanderlei

Palhoça
A marinha é de todos

Tipos populares de Atibaia: Henrique Evaristo Ferreira (vulgo Henrique Preto)
João Batista Conti

Sapatos do Pará
D. P. Kidder e J. C. Fletcher

Panacéia
Reumatismo
José Pimentel de Amorim

Benzeduras em Portugal
Elisa Vilares Cepeda

O culto de Santo Onofre
Mário Melo

Veja o que foi publicado em Colher de Pau
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Colher de Pau
Textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Metáforas superadas

Bastos Tigre

A desvalorização da nossa moeda, que passou a desmilingüir-se, depois que deixou de ser mil réis para crismar-se em cruzeiro, teve desastrosa influência, não somente no preço de utilidades e inutilidades, como, em conseqüência, no folclore das expressões populares.

Muitas destas perderam de todo o sentido e saíram de circulação, devido à vertiginosa alta do custo de certas mercadorias. Assim é que, de um sujeito a quem subitamente bafejava fortuna e galgava melhor nível social, dizia-se: Fulano está por cima da carne seca. Hoje, para estar por cima dela é preciso ter rendimentos declarados para além de trinta contos mensais, ou que tenha dado um desfalque vultuoso ou importado chevrolets, com mandado judiciário. É que o humilde charque de antigamente, transportado em marmita para o local do batente é hoje, servido em pratos de porcelana. Dele pode-se dizer que está por cima do fiambre. Assada ou frita, em bifes com farofa ou picadinha com abóbora, está em condições de figurar nos cardápios de gente bem.

Outra frase-feita culinária que precisa ser reestruturada é a que diz que o pobre diabo para quem qualquer coisa serve, que não exige muito para se ter por satisfeito: Para quem é, bacalhau basta. Estava muito bem nos idos tempos em que o bacalhau nos vinha, em abundância, da Terra Nova e da Noruega, depois de ter deixado por lá a cabeça para adubo e o fígado para óleo, futura vitamina A. Era, então o peixe do pobre para a abstinência das sextas-feiras. Hoje em dia, o bacalhau quase se nivela ao robalo e ao badejo e, em forma de bolinhos grafas, é servido em coquetéis e parties, ao lado dos sanduíches de patê e caviar. O tipo de bacalhau acessível ao barnabé, de tão seco e palhento, parece ter deixado nas suas terras de origem não somente a cabeça e o fígado, como a substância de todo o corpo.

Expressão igualmente superada é a que se refere ao sujeito difícil de acomodar-se, exigente nas condições de um acordo. A sua atitude exprimia-se metaforicamente na frase: "Este camarada quer vender caro, o seu peixe". A expressão, hoje, ne vime a non, pois que todo mundo que vende peixe exige preço alto e mais alto ainda se a COFAP se mete a tabelá-lo.

Ainda outra locução relacionada com comedorias é a que define a derradeira lona a que podia chegar o sujeito nos limites do miserê: - Coitado! Vive a pão e laranja. Separando os dois termos do binômio (com licença, senhor Juscelino), nota-se que o pão, em quantidade suficiente para manter o corpo ligado à alma, não é acessível ao individuo sem vocação para faquir. Quanto à laranja, depois que descobriram a sua opulência em vitaminas (de A a Z), passou a ser classificada entre os grandes alimentos terapêuticos e a ser vendida a preço de remédios.

Para concluir: urge uma rigorosa revisão nas metáforas gastronômicas, de modo a adaptá-las à época, de acordo com os tabelamentos da COFAP.

(Bastos Tigre. "Metáforas superadas". A Noite. Rio de Janeiro, 25 de julho de 1955)

Home | Revista | Catavento | Almanaque | Realejo | Downloads | Colaborações | Mapa do Site
Assine nosso boletim | Central dos Leitores | Expediente | Apoio Cultural
Jangada Brasil © 1998-2009. Todos os direitos reservados. | Fale Conosco | Termos e condições de uso