A desvalorização da nossa moeda, que passou a desmilingüir-se, depois que deixou de ser mil réis para crismar-se em cruzeiro, teve desastrosa influência, não somente no preço de utilidades e inutilidades, como, em conseqüência, no folclore das expressões populares.
Muitas destas perderam de todo o sentido e saíram de circulação, devido à vertiginosa alta do custo de certas mercadorias. Assim é que, de um sujeito a quem subitamente bafejava fortuna e galgava melhor nível social, dizia-se: Fulano está por cima da carne seca. Hoje, para estar por cima dela é preciso ter rendimentos declarados para além de trinta contos mensais, ou que tenha dado um desfalque vultuoso ou importado chevrolets, com mandado judiciário. É que o humilde charque de antigamente, transportado em marmita para o local do batente é hoje, servido em pratos de porcelana. Dele pode-se dizer que está por cima do fiambre. Assada ou frita, em bifes com farofa ou picadinha com abóbora, está em condições de figurar nos cardápios de gente bem.
Outra frase-feita culinária que precisa ser reestruturada é a que diz que o pobre diabo para quem qualquer coisa serve, que não exige muito para se ter por satisfeito: Para quem é, bacalhau basta. Estava muito bem nos idos tempos em que o bacalhau nos vinha, em abundância, da Terra Nova e da Noruega, depois de ter deixado por lá a cabeça para adubo e o fígado para óleo, futura vitamina A. Era, então o peixe do pobre para a abstinência das sextas-feiras. Hoje em dia, o bacalhau quase se nivela ao robalo e ao badejo e, em forma de bolinhos grafas, é servido em coquetéis e parties, ao lado dos sanduíches de patê e caviar. O tipo de bacalhau acessível ao barnabé, de tão seco e palhento, parece ter deixado nas suas terras de origem não somente a cabeça e o fígado, como a substância de todo o corpo.
Expressão igualmente superada é a que se refere ao sujeito difícil de acomodar-se, exigente nas condições de um acordo. A sua atitude exprimia-se metaforicamente na frase: "Este camarada quer vender caro, o seu peixe". A expressão, hoje, ne vime a non, pois que todo mundo que vende peixe exige preço alto e mais alto ainda se a COFAP se mete a tabelá-lo.
Ainda outra locução relacionada com comedorias é a que define a derradeira lona a que podia chegar o sujeito nos limites do miserê: - Coitado! Vive a pão e laranja. Separando os dois termos do binômio (com licença, senhor Juscelino), nota-se que o pão, em quantidade suficiente para manter o corpo ligado à alma, não é acessível ao individuo sem vocação para faquir. Quanto à laranja, depois que descobriram a sua opulência em vitaminas (de A a Z), passou a ser classificada entre os grandes alimentos terapêuticos e a ser vendida a preço de remédios.
Para concluir: urge uma rigorosa revisão nas metáforas gastronômicas, de modo a adaptá-las à época, de acordo com os tabelamentos da COFAP.