Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

Os encantos da morena

Guilherme Santos Neves

Se alguém se desse ao trabalho de recolher, na colorida seara dos versos populares, o que aí se diz a respeito da cor morena, certamente o acervo coletado seria impressionante e vasto, e através do mesmo não seria difícil sentir que a preferência amorosa (deles e delas) é para a cor trigueira.

No Cancioneiro capixaba de trovas populares (Vitória, 1949), onde reunimos mil quadrinhas do povo, em 39 delas se fala na cor morena, se exalta em predileção a essa cor feiticeira. Por vezes, o poeta justifica a sua opção, diz o porquê da sua preferência:

Fui na horta panhá couve
Esqueci, panhei serraia
Eu gosto da cor morena
Que é firme e não desmaia
(nº 377)

Outras vezes, não sabe bem porque ela o encanta:

Atirei com uma azeitona
Nos ares virou sucena
Não sei o que têm meus olhos
Que só ama a cor morena
(nº 136)

Por vezes, entre os vários matizes da cor predileta, ressalta-se a que mais agrada:

Eu perguntei a cupido
Qual era a morena bela
Cupido me respondeu:
- Morena cor de canela
(nº 322)

Duas quadrinhas sobre os encantos da morena, freqüentemente ouvíamos à saudosa e querida mamãe. Todas as vezes que, amoravelmente, lhe chamávamos de moreninha, lá dizia ela, prontamente, cantarolando:

Morena, morena
Dos olhos castanhos
Quem te deu, morena
Encantos tamanhos?

Encantos tamanhos
Nunca vi assim
Morena, morena
Tem pena de mim

Esses versinhos, de exaltação singela à cor morena, aprendera-os quando mocinha, lá em Leça da Palmeira (Portugal).

Note-se que o último verso da primeira quadra é retomado no começo da segunda, o que lembra o velho tipo medieval do leixa-pren. Aliás, segundo Leite de Vasconcelos, em Castro Verde, região alentejana de Portugal, é costume o emprego desse tipo de cantigas que lá se denominam "cantigas dobradas", e cita o seguinte exemplo, na mesma medida -- cinco sílabas ou redondilha menor -- das quadrinhas de Leça da Palmeira:

Já te tenho dito
Que não vás ao poço
Toma lá dinheiro
Ajusta um moço

Ajusta um moço
Ajusta um rapaz
Já te tenho dito
Que ao poço não vás
("Opúsculos". Etnologia, 2ª parte. Lisboa, 1938, p.1211)

Ó minha amora madura
Diz-me quem te amadurou
Foi o sol e a geada
E o calor que ela apanhou
E o calor que ela apanhou
Debaixo da silveirinha
Ó minha amora madura
Minha amora madurinha

Em Caçaroca, Espírito Santo, recolhemos, também, exemplo atual dessas cantigas dobradas, de sabor tão popular:

Alecrim da beira d'água
Cresce o pé, estende a rama
Isto é tolice minha
Amar a quem não me ama

Amar a quem não me ama
Não é amar, é cegueira
Querer bem a quem me quer
Que é justiça verdadeira

Essa breve apreciação sobre os encantos da morena, divulguei-as há tempos, no livreto Alto está e alto mora... (Vitória, 1954), todo ele dedicado à saudosa mãezinha.

Nas minhas constantes leituras e releituras, à cata de velhas expressões e ditos do povo, fui deparar, comovidamente, o restante da cantiguinha da morena. Está ela integralmente no livro de Júlio Diniz, As pupilas do senhor reitor, romance para moças, que data de 1867, tendo sido publicado antes disso em folhetins no Jornal do Porto.

É possível que a fonte da querida informante fosse, de fato, o romance de Júlio Diniz. Mas, que a cantiguinha era, ao tempo do romancista luso, de origem e fundo popular, ele mesmo diz no tópico do seu referido livro: (o reitor) Pôs-se a escutar de novo. e cada vez mais parecia confirmar suas suspeitas, acabando de se convencer de todo, quando ao assobiar sucedeu uma voz infantil, que ele logo reconheceu por a do discípulo, cantando ainda na mesma toada, que era de uma música popular, as seguintes cópias:

Morena, morena
Dos olhos castanhos
Quem te deu, morena
Encantos tamanhos?

Encantos tamanhos
Não vi nunca assim
Morena, morena
Tem pena de mim

Morena, morena
Dos olhos rasgados
Teus olhos, morena
São os meus pecados

São os meus pecados
Uns olhos assim
Morena, morena
Tem pena de mim

Morena, morena
Dos olhos galantes
Teus olhos, morena
São dois diamantes

São dois diamantes
Olhando-me assim
Morena, morena
Tem pena de mim

Morena, morena
Dos olhos morenos
O olhar desses olhos
Concede-me ao menos

Concede-me ao menos
Não sejas assim
Morena, morena
Tem pena de mim

Aí está, pois, completa, a cantiguinha da morena, cujas duas primeiras estrofes eu ouvia outrora, dos santos lábios maternos, em face despreocupada e feliz.

(...)

 

(Neves, Guilherme Santos. "Os encantos da morena". A Gazeta. Vitória, 13 de maio de 1956)
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