Manuel Diégues Junior
A anedota representa uma maneira de exprimir sentimentos, e o povo, a utiliza justamente como aquele meio mais feliz, através do qual se traduz uma espécie daquela coerção difusa, a que se referem os sociólogos, em relação às normas de compromisso mantidas pela sociedade. Através da anedota, o povo critica ou concorda, vaia ou aplaude, tudo dependendo da posição em que se coloca para ver os fatos. Por isso mesmo é que, no mundo das anedotas, há algumas antigas, antiqüíssimas mesmo, que se vão adaptando povo a povo.
De fato, este é um dos aspectos que traduzem a perenidade das anedotas. Elas passam de país a país, de povo a povo, de século a século; e nesta viagem vão reinterpretando-se, o que se traduz na maneira como cada uma dela se adapta para corresponder ao espírito do povo, ao fato a que se dirige. Desta foram o anedotário, a proporção que vai passando, nesta viagem pelo tempo e pelo espaço, vai sendo aplicado a fatos diferentes, desde que possam corresponder ao mesmo espírito.
Vemos assim que, no mundo político ou nos meios sociais, as anedotas vão se aplicando, vêm de tempos anteriores ou de outras aplicações para tomar novas feições. E o que foi dito, no anedotário a respeito de figura ou acontecimento passado, passa a ser referido em relação a pessoa ou acontecimento recente. O espírito do povo vai enfeitando, enriquecendo, adaptando a anedota, num processo contínuo de reinterpretação e, sobretudo, de incorporação ao acervo popular.
Mas isso não exclui a criação, a novidade nas idéias, o registro do fato novo, que a anedota observa e focaliza, incorporando a maneira como é visto pelo espírito popular. Tanto em relação ao fato velho, adaptado, como ao novo, criado, o certo é que a anedota exerce uma função social tem uma significação própria, que não se pode esconder. É um registro autêntico, preciso podemos dizer, de como o espírito do povo vê o fato como o aceita; e é, sobretudo, sua maneira de exprimir-se, quer dizer seu modo de aplaudir ou de vaiar, ou até mesmo de expressar simpatia ou carinho.
Nós bem sabemos como o carioca é rico no anedotário.
O espírito popular adapta ou cria, inventa ou reinterpreta em condições tais que todos os fatos são também fixados através da anedota. O espírito do carioca é clássico, tradicional, conhecido nesse sentido. Nisto, aliás, está uma de suas virtudes; esta admirável virtude de estar sempre alegre e sempre alegre ver os fatos e olhar os mundos. Virtude que a outros pode parecer defeitos. Pois tal herança tem suas boas raízes, vai prender suas fontes mais remotas em terrenos longínquos. Pois também o nosso velho ancestral português tinha -- e o português de hoje ainda tem -- o espírito aberto para a criação ou adaptação da anedota.
De modo que essa qualidade de ver as coisas com alegria, esse modo de encarar os fatos, tem uma significação social bem alta e bem pura. Pois que a anedota é um estado de alma, e, mais que isto, traduz uma forma de exprimir sentimentos. Mesmo naquele anedotário que se possa considerar irreverente ou menos leve, ou que, na aparência, se consideraria ofensivo, é no fundo uma prova de simpatia, e mais que de simpatia, principalmente de afeto e carinho. Pois ninguém brinca com alguém se não lhe quer bem; ninguém faz pilheria com quem odeia. Só mesmo por amizade e carinho é que se faz uma pilhéria, E veja-se que a anedota é sempre uma pilhéria para exprimir um sentimento.
Sua significação social está justamente em exprimir este estado de simpatia, esta prova de carinho, esta demonstração de afeto e amizade. É claro que pode traduzir o oposto. Mas aí deixa de ser a anedota alegre, feliz, pilhérica. Contudo, como diz o velho ditado que quem quer bem maltrata, mesmo aí ainda iríamos encontrar uma prova de amor ou de querer bem. De qualquer maneira, no fundo, a anedota exprime a simpatia e, sobretudo, amizade. E quando é feita do sentido de traduzir a popularidade de uma pessoa ou de um fato, não lhe falta, para envolvê-la, esse carinho.
Aí está, por sinal, outro aspecto a observar: a anedota sobre pessoa ou fato é sempre um índice de popularidade desfrutada. Se não fosse recebida pela alegria popular, por esse manto de popularidade que basta para consagrar, a anedota morreria. Nem chegaria a ser criada, por isso que ela envolve sempre uma pessoa ou um tema já de si popular. Pessoa sem popularidade não é alvo de anedota. E no fundo da popularidade o que está se não o aplauso, a simpatia, a alegria? O que bem demonstra que a anedota significa justamente uma demonstração de popularidade, e ainda -- ou sobretudo -- uma expressão de simpatia. Que é a popularidade se não a própria simpatia?
(Diegues Júnior, Manuel. "Significado social da anedota". O Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 23 de junho de 1957)