Edigar de Alencar
O humor negro se apresenta muito de perverso na sua capacidade de gracejar com o macabro ou o doloroso, nem por isso, ou por isso mesmo é destituído de agudeza e inteligência.
Ninguém poderá negar o espírito das múltiplas e maldosas anedotas que correm mundo sobre loucos. E haverá nada mais triste e merecedor de respeito e temor que a loucura?
Noutro dia me contaram três ou quatro dessas anedotas de que são férteis as grandes cidades, sobre leprosos... Confesso que não gostei.
Está sendo espalhada pela cidade, a historieta do rapaz que fora contratado para filmar com Brigitte Bardot. A coisa ficara planejada e ao eufórico rapaz fora marcado o prazo até o dia 15 de determinado mês ára o seu embarque, rumo ao local da filmagem. Todavia esta viagem poderia não se realizar desde que o candidato recebesse até à véspera daquele dia telegrama em contrário. Se não recebesse, poderia embarcar para iniciar as filmagens com a famosa estrelinha francesa, vedete do mundo.
O candidato combinou com os colegas que se não viesse o telegrama até à véspera, daria uma grande festa nesse dia de despedida. E assim aconteceu. Na noite de 14, a casa se encheu e haja farra. Comes e bebes, música, dança, orgia. Mas o prazo fatal só terminaria à meia-noite. Por isso a sensação era imensa. Às 11 horas, a campainha retine. Faz-se um silêncio de morte. Como se marchasse para a cadeira elétrica, o jovem se encaminha à porta e de lá traz, pálido e ansioso, o envelope do cabograma. Abre-o, nervoso, em tremuras, para depois berrar numa imensa e insopitada alegria: -- Pessoal, não é nada, não! Foi minha mãe que morreu!
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O Diário de Notícias publicou há tempos uma pequena história contada por Queneau (Raymond). Um condenado ao fuzilamento ao lhe ser oferecido um cigarro no minuto final, responde, sereno: -- Obrigado. Estou tentando deixar de fumar.
Aqui já me referi certa feita ao suicida Agostinho Moura de Assunção -- moço de 24 anos que deixou uma carta cheia de humor e clarividência. Entre outras coisas dizia o tresloucado mancebo: "Senhores, sou partidário do suicídio da humanidade. O mundo se torna cada vez mais insuportável. Deixemos o mundo. Mas levemos também os macacos, pois se trata de um bicho que, segundo Darwin, costuma degenerar em homem. E se os deixássemos ficaria ainda no mundo a possibilidade de se encher novamente de gente".
E ainda prosseguia com outras tantas frases de espírito.
Nos corredores da Rádio Nacional com a morte de três dos seus artistas no mês de agosto último [1962], uma delas em circunstâncias trágicas, houve quem pilheriasse, glosando um já famoso programa de rádio: Francisco Alves está chamando!
No teatro, o humor negro é freqüente. Nélson Rodrigues em O beijo no asfalto põe em cena um velório que desperta riso, embora o pranto compulsivo que de lá se escapa. E um dos atores provoca boa gargalhada da platéia, quando informa com referência ao defunto:
-- Está exalando!...
Vejam a adequação perfeita do verbo.
Outro autor dramático nosso, Vanda Fabian, faz humor negro durante todo o transcorrer de O enterro de Carolina, peça que teve da censura no Rio de Janeiro a maior propaganda.
Não será legítimo humor negro a perversidade que se derrama dos versos dos desafios sertanejos, nos quais os cantadores repentistas se comprazem em causticar e achincalhar os defeitos físicos, as infelicidades do adversário? São terrivelmente impiedosas e contundentes essas diatribes rimadas. Às vezes, contudo, é o próprio infeliz que se ironiza. José Carvalho refere-se ao famoso cantador Patativa que só tinha um olho e que assim comentava o defeito:
A minha sorte comigo
Foi bem cruel e tirana
Só me consente enxergar
Três dias numa semana
Nas grandes catástrofes que de quando em vez enlutam o Nordeste brasileiro, são freqüentes as manifestações de humor negro. O sarcasmo e a resignação dos flagelados juntam-se à inteligência e ao conformismo nos ditos e nos comentários mesclados de perversidade. Rodolfo Teófilo, na sua História das secas, pinta uma cena:
"Trôpegos, enfraquecidos, deformados pelas cicatrizes da varíola, saídos há pouco das pocilgas a que chamavam lazaretos, carregando pedras num percurso de sete quilômetros para ganhar uma ninharia os homens ainda tinham coragem de rir. Trocavam ditos zombeteiros. Metiam a ridículo a desgraça alheia. Riam da própria infelicidade. Se passava um companheiro a quem a bexiga destruíra o nariz diziam, entre risadas e motejos:
-- Olha aquele diabo! As papocas comeram-lhe tanto a venta que nem tem com que tome fôlego!"
É ainda no excelente José Carvalho que vou buscar a historieta com que remato essa conversa fiada.
O cearense encarregara um outro de matar um seu desafeto. Depois que o homem saiu para cumprir sua missão, o mandante se arrependeu. E toca a matutar. No outro dia como era domingo resolveu ir à igreja onde na certa encontraria o mandado. O cearense chegou-lhe ao ouvido e disse que não precisava mais liquidar o outro. Arrependera-se.
Mas o homenzinho informou, piedoso:
-- Chegou tarde -- já rezando por alma dele...