Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Tipos populares e molequismo

Abelardo F. Montenegro

A praça do Ferreira sede do moleque — vem sendo, através do tempo, o palco onde se apresentam e se consagram os tipos populares de Fortaleza. Dementes, maníacos, paranóicos, psicopatas de todos os graus, passaram pela praça e os mais expressivos deixaram seu nome que se perpetua em artigos de jornal, em livros de crônicas e, acima de tudo, na tradição oral, nas histórias ridentes ou dolorosas que passam de geração a geração.

Não se pode estudar a praça, nem lhe escrever a história, sem que se evoque as figuras que ela consagrou em contínuas explorações e transferências de seus freqüentadores. Essas figuras grotescas umas e disgênicas quase todas, constituem o alvo predileto dos que precisam descarregar tensões. É nelas que se tem cavado o molequismo ávido de vítimas, sequioso de escândalos e faminto de dissimetrias hilariantes.

Ora, a loucura, em qualquer de suas modalidades não furiosas, representa a matéria prima ideal para a fabricação de casquinadas. É essa a indústria dos que não têm o sentimento da caridade cristã, do amor ao próximo.

Ora, o molequismo, sob certo ângulo, já é fruto da falta de caridade. Quem tem pena do moleque, daquele que zomba da dor alheia? Quem se apieda do seu sofrimento?

O moleque quer esquecer, quer distrair-se, quer esconder a lágrima, quer diluir o pranto nas gargalhadas. Eis por que se esgargalha de modo estridente, parecendo ao ouvinte arguto que ele está mais se vingando do que se divertindo.

O tipo popular, pelas excentricidades oriundas da anormalidade psíquica, é uma diversão barata ao alcance de todos. Para gozar com a sua presença, para desopilar o figado, basta não ter piedade, ser insensível.

O psicopata, por sua vez, sentindo-se o ponto de convergência das atenções, passa a considerar a praça o ambiente ideal para as suas deambulações. Ela se torna, assim, o seu auditório, a sua platéia.

Eles vão surgindo e a praça vai descobrindo o calcanhar de Aquiles de cada um. Descoberto o ponto fraco, a ofensiva é incessante, de piadas, em prosa e em verso. É essa a literatura da praça, cujas peças mais bem feitas são transmitidas de boca em boca.

Opera-se, desse modo, uma seleção de cunho ridente ao gosto da praça. A tradição oral só perpetua aquilo que passou pelo serviço de peneiramento. O joio, o que não presta representa o enorme refugo que se perdeu no perpassar do tempo, imenso coveiro que tudo enterra.

José Tertuliano, Cavalo do Cão, Capitão Pirarucu, Casaca de Urubu, José Levi, Maxixe, Pilóia, Romão, Juca Gouveia, Jararaca, Chaga dos Carneiros, De Rancho, Papagaio, Mimosa, Siri, Garepa, Bode desfilaram pela praça em épocas diferentes.

Cada um deles deixou os rastros de sua passagem marcados em prosa e verso nos episódios humorísticos que ainda hoje são relembrados na praça com saudades pelos mais velhos.

Só o anormal resiste ao riso da praça

João Nogueira conta que, em 1880 mais ou menos, o pernambucano Magviniere fazia demonstrações de um invento denominado motor-hidro-circulatório duplo. Explicava que se tratava de máquina que podia multiplicar a força humana e que seria capaz de mover um navio. O advogado Luís de Miranda aparteava: "Sim, mas se o mar fosse uma gamela (risada geral), o inventor escafedia-se de vez".

O povo, observava João Brígido em Unitário, de 27 de abril de 1919, dá o nome de cu-de-boi às rusgas em que morre gente, e cu-de-pinto às rusgas sem importância. Diz-se de pobre que morre, que esticou a canela. Ridiculariza-se coisa perigosa. Os dramas mais pungentes têm o seu lado cômigo. Ninguém dá uma queda, embora quebre a costela, que não provoque o riso da praça.

O anormal, entretanto, não tem o senso do ridículo, nem sensibilidade moral. Encontra na praça o ar que respira com prazer, retribuindo generosamente as atenções que lhe dispensa a praça.

A evocação dos tipos populares da praça através do tempo reconstitui o humorismo do moleque cearense que nela atuou, gargalhando e difamando, escalpelando e casquinando, retalhando e mofando, sempre em posição de guarda, esgrimindo o insulto e vaiando, para suprema aflição dos que têm rabo de palha, dos que perderam a força moral nos dramas conjugais, nos escândalos de alcova, nas falcatruas, nos desfalques, ou dos que sofrem em conseqüência das deficiências de sua natureza e de sua inteligência.

O mais ligeiro estudo que se fizer da popularidade dos tipos que a praça do Ferreira explorou e apupou, adverte o homem normal a não cair no ridículo, a não se tornar um sujeito desfrutável. Qualquer deslize, qualquer concessão que fizer, pode ser o ponto de partida de um terrível desastre.

É preciso ter uma linha de conduta exemplar, ser, na verdade, uma varão plutarquiano, para não ser atingido pela catana da praça.

Assiste-se na praça, a cenas impediosas, em que a pobre vítima é amarrada ao poste de lapidação erguido pela crítica mais ferina.

O bêbado, o louco, o mitomaníaco ou o paranóico, qualquer um deles e cercado, vaiado ou vivado. A vítima então, ou improvisa o comício ou se desfaz em obscenidades. Discursando ou arrotando nomes feios, a pobre vítima está alimentando a praça, dando-lhe um dos pábulos preferidos.

Quem da nossa geração não se lembra dos comícios de José Levi? Quem não acha graça, ainda hoje, da maneira com que ele respondia a certos apartes?

Antes de 1930, José Levi comparecia ao meeting envergando fraque e cartola. Num desses comícios, em certo momento, o orador dizia: — Assim como Ashaverus... Alguém aparteia: — Quem é Ashaverus? Outro respondia: — É o José Levi. O orador, então irado, replicava: — Ashaverus é teu pai, cabra ruim!

Noutra ocasião, José Levi discursava no coreto da praça. Um dos ouvintes deruetava pela boca. O orador, silenciava e, depois, indagava: — Cavalheiro, já acabou de deruetar?

O Ceará Moleque gozava. O auditório desfazia-se em gostosas gaitadas. E o meeting prosseguia com o candidato permanente aos postos eletivos e figura proeminente do Partido do Eleitorado sem Cabresto.

A praça não podia viver sem seus tipos populares, nem eles podiam viver sem a praça. Nas relações de ambos, presidia o princípio dos vasos comunicantes.

À tardinha, após o fechamento do comércio, ou à noite, quando todos os bancos estavam ocupados por seus assíduos freqüentadores, apareciam os tipos populares. Entravam em cena. Começava, desse modo, a "função". O classe média esquecia, por momentos, as agressuras domésticas, os íntimos dissabores e ria a valer. A praça transformava-se num grande circo, em que os pobres palhaços, devidamente espicaçados, faziam a pláteia rir destemperadamente.

(Montenegro, Abelardo F. "Tipos populares e molequismo". O Povo. Fortaleza, 18 de março de 1957)
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