Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Da obrigação de se divertir

Nelson Palma Travassos

Uma das grandes maçadas da vida humana sempre consistiu na obrigação em que o homem acha de se divertir. Nada, talvez, mais melancólico do que o esforço que se despende nisto. Todos nós sentimos que a vida foge. E o pavor de que ela passe em branco nos leva ao dispêndio incrível de energia na busca de se encherem as horas não ocupadas com o trabalho. Nada mais cansativo que um domingo, quando se vai à praia, ou às corridas, ou a uma excursão. Sofrem-se dissabores. Mas o medo de que os outros estejam se distraindo enquanto estamos em casa, leva-nos também a sair em busca da alegria, embora saibamos que ela seja efêmera.

As horas ocas da ociosidade, são as mais tenebrosas. Quem viajou, pode ter conhecido as tardes roxas de saudade e tédio, quando parado ao terraço de um café fica contemplando a massa humana indiferente e anônima.

Pensamos que a felicidade reside na alegria do momento e por mais que se viva ou aprenda, esquecemos que ela ficou no passado, uma vez que é a memória quem alisa as arestas do sofrimento. A felicidade é uma lembrança, uma remtniscencia poética, é um doce bater apressado do coração por algo que já vai distante. porque o presente é sempre o processo de uma dúvida, o medo de uma decepção.

Com o marchar dos anos a felicidade surge no olhar para trás, no cobrir o passado com a memória.

Mas como é difícil aprender a viver dentro de nós mesmos!

Se compararmos com o tempo antigo, concluíremos que o mundo de hoje é infinitamente mais cheio de distrações do que aquele, quando nenhum apetrecho material permitia o luxo da variedade de divertimentos.

Existiam as caçadas, as raras festas, alguma corrida de cavalo. As proezas cinegéticas eram assunto interminável. Os feitos de cachorros famosos propiciavam tiros eficientíssimos. Mas a matéria era limitada: por isso mentia-se. Havia até especialistas no gênero, porque imaginosos, sabiam colorir os fatos inverídicos de tal maneira que suas lorotas corriam mundo pela boca dos ouvintes.

Mal uma roda se orgamzava, aparecia um mentiroso conhecido:

— Oh! Manequinho! abanque-se. Por onde tem andado?

— Pescando. Mas não fiz nada. Água muito suja. Em todo caso rendeu duas piabas e um...

— Toma uma cervejinha Manequinho?

— Obrigado. Levantei da mesa agora... um pacu...

— Por falar ciii pacu, — interrompe o Caetano Lopes, — outro dia me aconteceu uma muito boa. Ali no corrego do Rangel.

— O que?! Você pegou pacu no córrego do Rangel?

— Pois é para ver...

— Não é possivel, oh Lopes! Nem água o córrego tem

— Mas tem pacu! Pois é para vocês verem!

— Ora Lopes! Essa ninguém engole...

— Mas esperem. Deixem contar. Vocês não se lembram daquela noite de tempestade que eu fui.

E a mentira ia longe por aí afora. E o mais interessante é que toda gente sabia que o fato não era verdadeiro, mas na falta de assunto a mentira ajudava a matar o tempo.

Mentia-se a respeito de tudo. Assim, por exemplo. se alguém falava em navios, o mentiroso logo emendava a mão:

Por falar em navios, como são confortáveis esses paquetes modernos! Na última vez que estive em Santos fui visitar um transatlântico que estava no porto. Admirável! Havia de tudo. Até salão de bilhar!

— De bilhar? — estranhavam os presentes.

— Sim de bilhar. E havia até varias mesas.

— Mas como se poderá jogar bilhar a bordo? —indagava algum curioso, — com o balanço do navio as bolas não param!

— Ah! Aí é que se vê a inventividade daquela gente. As bolas eram fixas!

As corridas de cavalo eram um esporte de alto coturno, no qual se empenhavam os milionários municipais. Não havia hipódromos circulares e os páreos se processavam em raias, com os cavalos correndo dois a dois de cada vez. Para isso escolhia-se nos arredores da cidade um campo sem acidentes. onde fosse possível rasgar essa reta.

Quase sempre essas corridas terminavam em pancadaria, tiroteio, uma vez que a ladroeira era regra. Havia trapaça de todo jeito, desde a substituição de cavalos, ao erro da marcação na partida ou na chegada, com trânsito pela compra do jóquei. Existiam especialistas nestas coisas. Embora ninguém ignorasse os riscos, jogava-se forte nas apostas. Às vezes no intuito de exibição ou satisfazendo pedidos de amigos fazendeiros residentes em São Paulo, levavam para fazer correr nestas raias cavalos já decadentes do Jóquei Clube. Então a corrida se tornava importantíssima e a afluência de gente de prol, de moças, era muito grande e a tarde esportiva passava a ser um acontecimento falado durante anos.

Outro motivo de diversão, eram os bailes familiares quase sempre improvisados, ou quase sempre fingindo que o eram, uma vez que assim dispensavam preparativos. O motivo deles era o namoro, nunca muito exigente em matéria de organização. A música se improvisava num momento, com qualquer pianista presente, e depois com o acréscimo dos que iam chegando, trazendo sem cerimônia os seus instrumentos.

As festas de maior solenidade tinham lugar nas fazendas, no geral por determinada comemoração.

Como as distâncias eram grandes, os convidados partiam cedo das cidades, em troles. Vinham para o almoço, ficavam para o jantar, dançavam a noite toda e partiam com o romper da aurora. É fácil imaginar a movimentação de gente que uma festa destas exigia, sabendo-se que até banda de música se contratava, pois era de praxe que paralelamente à festa do proprietário se desse outra aos agregados.

É claro que estas recepções só se efetuavam nos anos em que o café atingia bons preços, nos “anos de alta”. Eram raras, portanto e marcavam época.

Não se pode deixar de falar num esporte de salão muito em voga: o bilhar. A carambola francesa chegou a ser mania, com a disputa de campeonatos com prêmios ao vencedor.

Dado o alto custo das mesas e a modéstia dos recursos financeiros de toda gente, o bilhar era um ramo de negócio, explorado conjuntamente com um bar, pois que o violento exercício, redundava em grande consumo de cerveja. Jogavam-no moços e velhos. Mas, como toda gente era bigoduda, nós crianças o supúnhamos um esporte de pessoas idosas.

Havia ainda uma distração na qual se punha grande empenho: o tiro ao alvo. É preciso não esquecer, que estávamos no pleno apogeu das caçadas, esporte elegante na Europa, violento no Brasil, dado o agreste da natureza. Saber atirar bem tinha um cunho de alta fineza, era mesmo um ponto de honra.

Por isso era comum a competição de tiro ao alvo e todo homem elegante possuía sua arma de precisão, utilizada nos dias comuns, no abate de sanhaços.

Uma das conseqüências do progresso material, foi a abolição do luxo e da etiqueta.

Por luxo, entendia-se naqueles tempos, o acúmulo de coisas dentro das casas, o excesso de roupas cobrindo o corpo e a riqueza dos estofos. Quem se der ao trabalho de examinar a fotografia de um interior decorado à vitoriana, ficará curioso de saber como se movimentariam aqueles senhores e senhoras rotundos e estofados no meio de tantas porcelaninhas, bric-a-braques, jarrões de flores, colunas retorcidas, porta-retratos. sem quebrar coisa alguma e sem esbarrar em nada! Deviam possuir uma habilidade fenomenal. O excesso de cortinas ia ao ponto de colocar reposteiros de seda chamalotada, abarrotados de pingentes nas portas de comunicação interna. As camas demoravam esmagadas pelo peso de docéis complicados de fazendas raras e espessas. Além do docel, o leito era envolvido por uma nuvem diáfana de tecidos finos, que ondeavam e caíam formando pregas ricas.

A etiqueta traçava métodos de comportamento para tudo, num tal excesso, que, penso, existiam regras para dormir com boa educação.

No interior de São Paulo a modéstia da fortuna. a falta dc comunicação com os grandes centros que impedia a vulgarização da intimidade da vida social das capitais, não abusou ou sequer usou do luxo, mas permaneceu inabalável dentro da etiqueta. Uma etiqueta caipira, mas etiqueta, uma vez que é um erro supor que o provinciano não a possui à sua maneira.

“Ter modos”, foi sempre o martírio das crianças. Em “ter modos” é no que consistia a classificação social das pessoas. Mas acontece também que o “ter modos” tornava toda gente postiça, estandardizada, convencional e isso estragava o sabor das coisas, embora aquele artificialismo se tornasse uma segunda natureza.

O automóvel foi quem começou a derruir estes preconceitos, porque aquela etiqueta encafuada de quem se transporta nas carruagens tiradas a cavalo, não se amoldava às funções mecânicas do sportman automobilista. A carruagem era um prolongamento do salão, levava para as ruas a imponência do homem de sala. O automóvel exigia outra atitude. Criou, talvez, um novo tipo de pose e talvez esse desarranjo de postura atual, seja de grande etiqueta e nós não o saibamos. Uma etiqueta moderna que o futuro derruirá, criando outra, interplanetária, já que marcharnos para um mundo de “lunáticos”.

 

(Travassos, Nélson Palma. Quando eu era menino... São Paulo, Edart Livraria Editora, 1960, p.231-237)
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