As praias do litoral nordestino são famosas pela beleza de suas paisagens tropicais onde as cores vivas disputam com entusiasmo o ambiente, numa sucessão de contrastes inesperados.
Se o dia está claro com o céu inteiramente aberto ao sol, as águas do mar não se contentam com a ostentação de uma única tonalidade. Ora exibem vaidosamente um verde muito claro e espantado, onde manchas irregulares, de um amarelo esmaecido, indicam o revolver de bancos submarinos de areia; ou então, emprestam o colorido exótico de corais e algas submersas e com ele espalham reflexos cambiantes pelo mar. Outras vezes, manifestando uma inconstância própria de mulher faceira, estas águas se aborrecem repentinamente das cores vivas. Perdem então o aspecto alegre; agitam-se arrependidas do exagero cometido e depois buscam piedosamente no céu o reflexo discreto de um azul profundo
Mas nem sempre os dias são claros e luminosos nas praias do Nordeste. Quando nuvens espessas escondem o sol e a tempestade ameaça desabar do céu, as águas agitam-se com violência elevando vagas enormes e cavando abismos profundos, e o revolver desordenado e sombrio que acompanha sempre o temporal cobre inteiramente o mar, com uma tonalidade quase roxa carregada de peixes escuros. E os matizes zangados, que então flutuam sobre as águas, parecem refletir a fisionomia apoplética do vento raivoso a fustigar, com a chuva, a crista dilacerada das ondas. Mesmo depois da tormenta, quando os elementos se aquietam vencidos pelo cansaço, esta chuva continua ainda a cair, sileciosa, fria e triste, apagando num branco esfumaçado a linha distante do horizonte. Mas é uma chuva que cai sem prazer, uma chuva morta, estéril, desanimada porque caindo sobre o oceano, não chega a sentir a emoção das águas fecundas, que regam a terra e participam do germinar milagroso das sementes.
Ao longo de todo o litoral nordestino, uma infinidade de coqueiros compõem uma paisagem característica. Com o egoísmo próprio dos troncos, altos e desgalhados eles sustentam bem lá em cima do caule, pencas enormes de coco verde e um tufo arrepiado de folhas, que saúda a brisa forte numa cortesia buliçosa e farfalhante. Crescendo naturalmente pelo chão numa abundância arrumada pelo acaso, estes coqueiros emergem de uma areia clara e fofa, que soa rangendo se é calcada com violência. Sendo assim tão leve e macia, esta areia deixa-se levar facilmente pelo vento caprichoso, que tenta com ela imitar em dunas, as ondas inquietas do oceano. E não satisfeito com isto, como se quisesse dar ainda um retoque na imitação, este vento, louco por um contraste que apareça à guisa de espuma, rola à vontade pela areia, restos enegrecidos, de gravetos, folhas secas e vegetais em decomposição.
Muito embora sejam bastante largas para arrefecer o ímpeto das águas, não chegam a ser praias amplas; somente alguns passos de distanciam os coqueiros mais debruçados das ondas afoitas, que deslizam pela areia numa sucessão de camada líquidas. São ondas que vêm de longe, adquirindo impulso e ganhando altura para depois atirar-se com arrojo em busca do alto da praia. Rolam pelo chão, mas à medida que sobem, tornam-se cada vez mais delgadas, vão perdendo aos poucos e impetuosidade, até que param sem forças para continuar, com os bordos a desaparecer rapidamente sorvidos pela areia. Marcam o terreno conquistado com uma franja de espuma e logo depois refluem marulhando, numa intimidade luminosa com os raios do sol que não se agüentam muito tempo na água fria e logo fogem brilhando em reflexos molhados.
Umas destas praias fascinantes enfeita o litoral cearense, bem ao lado de Fortaleza, sendo conhecida pelo nome de Mucuripe. Em sua orla, os arrecifes não embargam as ondas, como acontece freqüentemente naquelas paragens. Por isto mesmo, porque a praia sem escolhos facilita a arribação, é que aí se agrupam inúmeras jangadas, à espera de um vento bom ou a escorrer a umidade absorvida em alto mar. Algumas apoiam-se sobre rolos de madeira e podem assim deslizar facilmente até as ondas. Outras viradas de lado sobre a areia, esperam de alguém um reparo indispensável no madeirame.
São todas construídas com troncos de piúba, madeira bastante comum nos pantanais do Amazonas. Suas toras flutuam muito bem e podem ser deixadas por longo tempo dentro d'água ou abandonadas ao sol, sem que cheguem a rachar ou apodrecer. Depois de limpas e descascadas estas toras são presas umas às outras por meio de cavilhas resistentes, formando assim um conjunto sólido, embora cheio de frestas, onde nem um prego foi usado para unir qualquer de suas partes. Medem geralmente uns 38 ou 40 palmos de proa a popa e 10 a 12 de largura, mas às vezes são encontrados tamanhos menores, cujo comprimento não ultrapassa 30 palmos. Neste caso são chamadas paquetes.
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Aventuram-se todas elas mar a dentro, impelidas por uma vela triangular de lona, presa ao mastro e esticada lateralmente pela tranca. É uma vela resistente, que leva sempre pintado bem no alto um nome sugestivo: Morou no Assunto, Gruta do Amor, Nossa Senhora Aparecida... Um nome que traduz o espírito gaiato, a inclinação poética ou a alma piedosa do seu proprietário.
O mastro é uma haste vertical talhada num tronco fino e resistente de tamanqueira ou mata-matar, que se apoia um pouco além do meio da jangada e pode ser conservado a prumo graças ao banco de vela. Este por sua vez, é uma armação em forma de banco; uma viga de cajueiro apoiada em pernas de pau d'arco, espetadas com firmeza na madeira grossa dos troncos centrais.
Quase na popa da jangada o espeque de pau ferro, fincado nas toras, ergue-se à altura do peito de um homem. É uma armação simples de paus roliços e resistentes feita para conservar longe do alcançe das ondas os utensílios que não podem ficar molhados. Bem no alto vai o feixe de lenha, que alimentará o fogo para aquecer o café, ao lado prende-se a cuia de vela, o facão e uns rolos de corda; mais embaixo, o barril de água doce balança pingando, junto a panela e da lata com mantimentos. Logo na frente do espeque, sobre o chão da jangada, vai o balaio grande, onde é colocado o peixe conseguido na pescaria. E lá para trás no curto espaço que separa o espeque da popa, firma-se o banco de governo, onde os tripulantes se apoiam quando sentem cansaço para dormir amarrados pela cintura, numa posição incômoda, o sono profundo em que mergulham os corpos extenuados.
Pouco acima das jangadas, aproveitando o sombreado dos coqueiros, muitas casinholas rústicas de tijolo e telha ou choupanas de pau e barro, apertam-se num amontoado frágil e medroso, a defender-se das tempestades e ventanias. Pendendo de suas paredes rústicas ou espalhados pelos cantos e arredores, uma infinidade de objetos aguardam a sua vez. E esta vez chega sempre cantando se vem da gaiola onde um sabiá saltita nos poleiros. Ao lado de uma porta, amontoada no chão, uma rede espera pacientemente a folga do proprietário, que sempre adia um remendo indispensável. Mais além encostado a um tronco de coqueiro, um machado descansa preguiçosamente o fio, enquanto logo adiante, peças de roupa gesticulando num varal, procuram afugentar um bando de moscas gulosas, que zumbem sobre uma cuia onde azeda um resto de pirão. Por toda aquela redondeza bancos rústicos espetam sua pernas pela areia, balaios guardam, cordas enrolam e crianças brincam alegremente pelo chão. Brincam completamente nuas, mostrando a pele de um moreno carregado, onde é difícil concluir até que ponto chega a responsabilidade do sol. Em suas feições, os traços oblíquos dos olhos, as faces salientes e os cabelos lisos e lustrosos, alternam-se com os lábios grossos e as carapinhas enrodilhadas, numa combinação diferente para cada indivíduo. Mas não é difícil encontrar, nesta fusão desordenada do índio com o mulato, uns olhos azuis ou uma cabeleira clara, que aparecem no conjunto, como a exclamação afirmativa da raça branca.
Seus ventres abaulados, a projetar-se adiante das pernas raquíticas demonstram que ali a natureza é severa na seleção. Somente os organismos perfeitos, resistem por tantos anos aos vermes e ao raquitismo, para constituir depois aquele corpo rijo, onde vibra a coragem do jangadeiro nordestino.
De estatura geralmente baixa, com os músculos possantes a retesar-se sob a pele curtida pelas intempéries, o jangadeiro é um tipo que impressiona pela serena determinação que traz no olhar. Calmo, ele enfrenta uma vida árdua e arriscada, como se a necessidade e o perigo fossem circunstâncias naturais e inevitáveis.
Muito cedo, escuro ainda, ele salta da rede e veste a roupa tintada; apenas calça e camisa de pano grosso, que foram fervidas durante muito tempo numa infusão de casca de cajueiro, para resistir assim ao talho da água salgada. O café com tapioca ou um peixe frito de véspera com farinha, acaba de afugentar o resto do sono, que teima em provocar bocejos. Toma então o balaio, a isca, a linha com a chumbada e os anzóis; pega a lata onde leva a carne de sol com farinha, segura a fisga e, dizendo adeus à companheira, sai caminhando devagar pela praia com o chapéu branco a destacar-se na semi-obscuridade da manhã. Neste chapéu de palha comum mais impermeabilizado com tinta e óleo, o jangadeiro carrega tudo que não pode ficar umedecido. Dentro do copa alta ele guardas os cigarros e os fósforos, pois seus bolsos estão sempre sujeitos a respingos, molhadelas e ensopamentos. E, muitas vezes, enrola ainda ao seu redor, muitas braças de linha própria para fisgar o peixe agulha, ficando as extremidades soltas a pender ao lado da aba, sacudindo anzóis retorcidos de metal.
Caminhando sem pressa ele chega ao lado da jangada onde os companheiros já se entregam aos preparativos da partida. Ele é o mestre. Em suas mãos experientes o remo de governo manterá a embarcação no rumo certo. Chega e logo dá as primeiras ordens. Manda desenrolar a vela e aprumar o mastro; dirige a colocação dos rolos, sobre os quais a jangada desliza até as ondas. Depois de tudo pronto, após verificar se nada falta ao equipamento, ele firma a tranca e a jangada parte impelida pela vela de lona clara em busca do alto-mar.
Segue leve, deslizando sem estorvo sobre as ondas, que tentam inutilmente resistir ao avanço rápido da proa. Ora inclina-se, ora galga uma montanha líquida e depois baqueia do outro lado com um estalo seco: sobe até a crista das ondas, desce, torna a subir balança para os lados, para a frente, para trás mergulha a proa, emerge, joga acompanhando o movimento do mar, permitindo sempre que as águas passem livremente sobre os troncos, inundem tudo e percam-se depois pela popa, numa esteira branca de espuma.
Não se importanto com esta correria agitada o jangadeiro vai sempre, na borda da embarcação equilibrando o corpo em oscilações calmas e despreocupadas que acompanham o movimento ondulante das águas. Das águas ruidosas, que passam rápidas pelos lados, encharcando tudo, respingando as calças arregaçadas e cobrindo inteiramente os pés descalços. Pés espalmados de gente pobre, disformes, com a pele desbotada a envolver um calcanhar largo e chato e também dedos nodosos e fortes, habituados a necessidade constante de firmar-se sobre os toros roliços da jangada.
Logo, depois da partida, um dos tripulantes, empunhando a cuia de vela, molha completamente a lona com água do mar, para que ofereça assim melhor resistência e possibilite maior velocidade.
O mestre segue atento, empunhando o remo de direção a vigiar continuamente o vento. Se este muda de feição, no mesmo instante ele afrouxa a corda que segura a tranca; a lona torna-se bamba e a jangada pára de correr. A vela é então virada de bordo, acompanhando a tranca, que muda de lado. É depois amarrada novamente pelo mestre e a corrida prossegue outra vez, na direção certa, rumo às águas escolhidas para a pescaria.
Às vezes os jangadeiros afastam-se da praia apenas uma ou duas léguas, para pescar à risca nos lugares, mais rasos, onde ainda é possível observar as pedras no fundo. Chegando ao local escolhido e solta a vela e o toaçu, uma pedra comum presa a ponta de uma corda, e atirada de bordo para imobilizar a embarcação, como se fosse a âncora de um navio. Começa depois a pescaria. Em pé, na borda da jangada, segurando a linha com a mão, o mestre e seus três ou quatro companheiros, esperam pacientemente o beliscar do peixe. Quando têm sorte e encontram algum cardume, nem precisam colocar a isca ao anzol. Basta jogar a linha e logo apanham uma bonita biquara, uma garoupa, mariquitas e sapurunas. Outras vezes quase nada conseguem, apesar da insistência paciente com que oferecem os anzóis, durante muitas horas seguidas.
A pesca no alto já é feita a maior distância da costa, bem longe do mar, de onde a terra é vista apenas como um sombreado baixo no horizonte. Aí o jangadeiro apanha os peixes maiores, a cavala, o cangulo, a arabaiana, o sefigado e a carapitanga.
Cheio de paciência ele arremessa o anzol e espera o sinal na linha. Quando sente o peixe preso, não puxa imediatamente. Espera que a presa canse, nadando enlouquecida pela dor e pelo medo; deixa que ela dispare em zigue-zagues desorientados, ora dando saltos fora d'água, ora imergindo até bem fundo, numa tentativa desesperada de safar-se do anzol. Só depois que sente o peixe entregue, o jangadeiro começa a colher a linha, vai puxando aos poucos, devagar com medo de perder a presa, até conseguir fisgá-la com um gancho muito afiado, preso a um cabo longo de madeira. Tira-a, então para fora do mar. Sobre os troncos roliços o peixe volta a debater-se num derradeiro esforço para fugir. Agita o corpo brilhante e escorregadio, esborrifa água com a cauda, sangra pela boca e revira os olhos vidrados, enquanto as guelras se abrem com ansiedade, procurando inutilmente sorver a água que já não existe.
O jangadeiro sempre acaba de liquidá-lo com pancadas na cabeça e a seguir esfrega-o na vela, pois o visgo que recobre as escamas ajuda a preservar a lona.
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Durante a pescaria o jangadeiro se alimenta quando sente fome e bebe água quando está com sede. Come pirão com peixe assado na hora, ou carne de sol com farinha, bananas, rapadura e, às vezes, pão. Leva também café, que aquece sobre uma lata onde acendeu o fogo.
A cachaça é proibida pelas leis marítimas e pelo patrão, o dono da jangada, aquele que pagou os dez mil cruzeiros necessários hoje em dia para a sua construção. Ele não participa da pesca. Fica em terra e recebe depois metade do peixe apanhado pelo mestre e seus companheiros.
Ao cair da tarde as jangadas retornam facilmente para a praia, pois o vento sopra quase sempre do mar. Mas não são raras as ocasiões em que a calmeria ou o vento leste obrigam a muitas horas de imobilidade ao sabor das águas, ou a uma luta desesperada contra o perigo de virar, antes que possam novamente pôr os pés em terra firme, tarde da noite ou já na manhã seguinte. Quando chegam, logo reúnem-se com o patrão para repartir o peixe. Às vezes têm sorte e voltam para casa satisfeitos, carregando um balaio cheio; ou então retornam calados tristes porque nada conseguiram na pescaria.
Mas seja qual for o resultado do seu esforço, o jangadeiro nunca desanima. Voltando satisfeito ou resignado, ele sempre espera que o dia seguinte seja de bom vento, de mar calmo e de abundantes cardumes.
Talvez seja esta eterna expectiva de fartura, a atração do amanhã incógnito, mas esperançoso, que anime como um jogo fascinante, a determinação do jangadeiro em continuar. Continuar na sua corrida incerta sobre as ondas, castigado pelos rigores das intempéries, flutuando perigosamente a vida na fragilidade semi-submersa de uma jangada. Continuar sem ao menos ter o consolo de um regresso acolhedor, pois também em terra na sua choupana primitiva, o desconforto jamais deixa de acompanhá-lo.
Como se estivesse viciado pelo mar, ele prossegue sem esmorecer. Prossegue seduzido como um jogador de anzóis, e arrebatado por esta atração cheia de instinto, que à cata incerta das coisas vivas, acorda sempre no mais longínquo recanto do coração humano.