Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VI - Edição 75
Fevereiro de 2005
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Um dia no Guatambu

Carlos Borges Schmidt

Um parava para limpar a enxada, outro para gritar pelo "bombeiro", todos para tomarem água. Às 12:30 horas um deles parou e encostou-se no cabo da enxada para falar com uns companheiros. A conversa continuou depois enquanto trabalhavam. Como o assunto era a vida alheia todos os quatro passaram a tomar parte nos mexericos. Logo em seguida, um deles limpou o suor do rosto com a fralda da camisa. Reclamaram pelo "bombeiro", que não voltava. Reclamaram do sol, que estava esquentando. Certo deles queixou-se de dor no braço e disse que era porque "tinha a cana do braço aberta". Cerca de 30 minutos depois da vez anterior, os quatro tomaram água.

Logo depois um deles sugeriu trabalharem apenas até às quatro e meia da tarde. Pelas aparências já estão, todos eles ficando cansados. Isso às 12:30 horas. À sombra, 27ºC.

Um antigo trabalhador, que apareceu por ali, comentou um fato qualquer:

— Na turma os velhos fazem força porque não querem ficar para trás.

Os moços que estão carpindo junto então amolecem o corpo, aproveitando a comparação com a fraqueza deles. O bom é fazer turmas por igual: só de velho, só moço e só criança.

Às 13:30 horas foram tomar café e meia hora depois já estavam de volta. Amolaram as enxadas e pegaram de novo às 14:07 horas. Logo depois começou a prosa. O assunto era as condições do trabalho da mesma natureza que o deles é os salários em lugares diversos, bem assim a situação de diversos companheiros, criticando-os. E o trabalho prosseguia. A temperatura máxima alcançou 29ºC às 15 horas. Até às 16:10 horas, tomaram água mais duas vezes.

— Amanhã a gente perde hora. Deita na cama e perde hora. Sem querer mais nada...

A impressão era a de que estavam bastante cansados entretanto, o rendimento do serviço não caíra muito.

— Se tivesse um baile hoje, você teria coragem de pular?

— Oh! Se teria...

— Então você não está cansado.

Às 16:30 a terra já estava "encerando" no corte da enxada. Logo vinte minutos depois, às 16:50 horas foram mandados largar o serviços, depois de 7 horas e 43 minutos de trabalho efetivo. Tinham os quatros carpidos uma área de 6.400 metros quadrados, mais de uma parte de alqueire. Fazendo os cálculos os quatro carpiram em média 13,82 metros por minuto; cada um carpiu 3,45 metros quadrados.

(Schmidt, Carlos Borges. "Um dia no Guatambu". Diário de Notícias. São Paulo, 29 de maio de 1960)
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