Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Uma lenda tapuia

Carlos Estevão

(Extraída de um estudo sobre os apinage, do Alto Tocantins)

No princípio só existiam na terra Mebapame (sol) e Braburé (lua). Mais ninguém. Eles mesmos caçavam e eles mesmos preparavam a comida.

Uma ocasião combinaram formar uma aldeia com muitos homens e muitas mulheres. Para isso, mandaram o dorin (caracol - Strophochellus Oblegua) fazer um roçado, no qual plantaram unicamente gorani (cabaço ou jamaru - Curcubita Lagenaria).

Todas as manhãs iam os dois examinar a plantação.

Logo que os frutos brotaram, Braburé quis arrancá-los, no que foi obstado por Mebapame, que lhe disse: "É muito cedo. Não estão ainda maduros".

Quando amanheceram, foram todos colhidos e levados por Mebapame e Braburé para a margem do Tocantins, onde ambos, chegando, limparam uma grande área para nela ser construída a aldeia. Terminado esse serviço, Mebapame atirou dentro do rio um gorani. Este, caindo n'água, transformou-se em uma bela mulher, moça, alva e de cabelos tão compridos que chegavam ao chão. O gesto de Mebapame foi imitado por Braburé, quis arrancá-los, no que foi obstado por formosa porém cega. Em seguida, novo gorani é jogado ao Tocantins por Mebapeme. Agora é o nascimento de um homem, jovem, bonito e forte que se opera. Chega novamente a vez de Braburé. Surge também um homem, mas aleijado. Mebapeme repete a operação; nova mulher, alva, moça e bela, como a primeira. Continuando Braburé faz a mesma coisa; aparece uma preta... E dessa forma foram parar ao rio todos os goranis trasnformando-se sempre em indivíduos perfeitos e bonitos os arremessados por Mebapeme e em defeituosos ou pretos os jogados por Braburé.

Logo que nasciam, tantos os filhos deste, último como os daquele, saíam d'água. Mas, não se misturavam. Os de Mebapame iam para o seu lado, indo os de Braburé para onde estava este.

E assim, separadas as duas famílias, formou-se a primeira aldeia que houve no mundo.

Por alguns anos, viveram ali todos em paz.

Certo dia, porém, Mebapame, declarou que o Tocantins ia encher. E que essa enchente seria tão grande que cobriria não só a aldeia, como também, as suas redondezas.

Todos que ouviram aquela profecia, ficaram apavorados. Ele então consolou-os, dizendo ser assim mesmo. Que tanto os seus filhos como os de Braburé tinham de se espalhar por toda a terra, vindo a falar, por fim, línguas diversas.

Alguns dos filhos de Mebapame, convictos de que a profecia do pai se realizaria, construíram uma jangada, circulando-a de goranis secos para que ela pudesse flutuar melhor.

Depois, fizeram uma comprida corda de envira e com esta prenderam a jangada a uma enorme pedra que havia perto da aldeia.

Afinal, um dia, começou o Tocantins a encher. E encheu como nunca havia enchido; cobrindo as praias, cobrindo as margens, cobrindo as campinas.

A aldeia ficou inteiramente debaixo d'água. E todo o povo se espalhou.

Dos filhos de Mebapame muitos passaram-se para cima da jangada; outros treparam nas árvores que por ali existiam e o resto, juntamente com os filhos de Braburé, foram arrastados rio abaixo pelas águas.

Logo que o Tocantins principou a crescer, Mebapame e Braburé subiram para o céu.

A enchente durou uma porção de dias. Finalmente, baixaram as águas e, com elas a jangada. Aqueles que se tinham salvo nesta, formaram no lugar em ela baixou, uma nova aldeia, à qual deram o nome de Alegria. Deles descendem os atuais apinaga, que habitam aquela região.

Os filhos de Mebapame que haviam subido em árvores grossas, dela não puderam mais descer, virando abelhas e capins de pão. Os outros se espalharam-se pela terra com os filhos de Braburé.

Por isso, é que há índios apinage em diversos lugares. E, por isso, também é que existe espalhada pelo mundo gente preta, cega e aleijada, falando os povos diferentes línguas.

(Estevão, Carlos. "Uma lenda tapuia". Revista do Globo, ano 1, nº 4, p.6)