Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
Edição do Mês | Edições Especiais | Edições Anteriores | Tema do Mês | Temas Anteriores | Por Autor | Por Artigo | Por Seção |
Fevereiro 2005 - nº 75 - Ano VII


Sumário

Festança

A etimologia do frevo
Joaquim Ribeiro

O primeiro mascarado surgiu montando uma vaca mansinha

A primeira batalha em Madureira
Agenor Lopes de Oliveira

Cancioneiro

Romance do Antoninho ou do menino que matou o pavão do professor
Rossini Tavares de Lima

Estória do curupira
Aleixo Leite Filho

Pelo sinal
Brás Angelino de Souza

Imaginário

Variações sobre a mãe d’água
Ademar Vidal

A onça — Borges

Uma lenda tapuia

Colher de Pau

Precioso açúcar gaúcho
Athos Damasceno

Cozinha gauchesca: feijão
Glaucus Saraiva

O café no lendário brasileiro
Basílio de Magalhães

Oficina

Um dia no Guatambu
Carlos Borges Schmidts

Jangadeiros do Nordeste
Rubens Rodrigues dos Santos

Vendedores de tapioca
Maria Rita da Silva Lubatti

Palhoça

Balangandãs, barangandãs, berenguendéns
Jota Efege

Da obrigação de se divertir
Nelson Palma Travassos

Tipos populares e molequismo
Abelardo F. Montenegro

Panacéia

Santas na superstição do povo
Rolando de Serigi

Simpatia para animais
Osvaldo Elias Xidié

Previsão do tempo por José Leão Alves

Veja o que foi publicado em Imaginário
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Uma lenda tapuia

Carlos Estevão

(Extraída de um estudo sobre os apinage, do Alto Tocantins)

No princípio só existiam na terra Mebapame (sol) e Braburé (lua). Mais ninguém. Eles mesmos caçavam e eles mesmos preparavam a comida.

Uma ocasião combinaram formar uma aldeia com muitos homens e muitas mulheres. Para isso, mandaram o dorin (caracol - Strophochellus Oblegua) fazer um roçado, no qual plantaram unicamente gorani (cabaço ou jamaru - Curcubita Lagenaria).

Todas as manhãs iam os dois examinar a plantação.

Logo que os frutos brotaram, Braburé quis arrancá-los, no que foi obstado por Mebapame, que lhe disse: "É muito cedo. Não estão ainda maduros".

Quando amanheceram, foram todos colhidos e levados por Mebapame e Braburé para a margem do Tocantins, onde ambos, chegando, limparam uma grande área para nela ser construída a aldeia. Terminado esse serviço, Mebapame atirou dentro do rio um gorani. Este, caindo n'água, transformou-se em uma bela mulher, moça, alva e de cabelos tão compridos que chegavam ao chão. O gesto de Mebapame foi imitado por Braburé, quis arrancá-los, no que foi obstado por formosa porém cega. Em seguida, novo gorani é jogado ao Tocantins por Mebapeme. Agora é o nascimento de um homem, jovem, bonito e forte que se opera. Chega novamente a vez de Braburé. Surge também um homem, mas aleijado. Mebapeme repete a operação; nova mulher, alva, moça e bela, como a primeira. Continuando Braburé faz a mesma coisa; aparece uma preta... E dessa forma foram parar ao rio todos os goranis trasnformando-se sempre em indivíduos perfeitos e bonitos os arremessados por Mebapeme e em defeituosos ou pretos os jogados por Braburé.

Logo que nasciam, tantos os filhos deste, último como os daquele, saíam d'água. Mas, não se misturavam. Os de Mebapame iam para o seu lado, indo os de Braburé para onde estava este.

E assim, separadas as duas famílias, formou-se a primeira aldeia que houve no mundo.

Por alguns anos, viveram ali todos em paz.

Certo dia, porém, Mebapame, declarou que o Tocantins ia encher. E que essa enchente seria tão grande que cobriria não só a aldeia, como também, as suas redondezas.

Todos que ouviram aquela profecia, ficaram apavorados. Ele então consolou-os, dizendo ser assim mesmo. Que tanto os seus filhos como os de Braburé tinham de se espalhar por toda a terra, vindo a falar, por fim, línguas diversas.

Alguns dos filhos de Mebapame, convictos de que a profecia do pai se realizaria, construíram uma jangada, circulando-a de goranis secos para que ela pudesse flutuar melhor.

Depois, fizeram uma comprida corda de envira e com esta prenderam a jangada a uma enorme pedra que havia perto da aldeia.

Afinal, um dia, começou o Tocantins a encher. E encheu como nunca havia enchido; cobrindo as praias, cobrindo as margens, cobrindo as campinas.

A aldeia ficou inteiramente debaixo d'água. E todo o povo se espalhou.

Dos filhos de Mebapame muitos passaram-se para cima da jangada; outros treparam nas árvores que por ali existiam e o resto, juntamente com os filhos de Braburé, foram arrastados rio abaixo pelas águas.

Logo que o Tocantins principou a crescer, Mebapame e Braburé subiram para o céu.

A enchente durou uma porção de dias. Finalmente, baixaram as águas e, com elas a jangada. Aqueles que se tinham salvo nesta, formaram no lugar em ela baixou, uma nova aldeia, à qual deram o nome de Alegria. Deles descendem os atuais apinaga, que habitam aquela região.

Os filhos de Mebapame que haviam subido em árvores grossas, dela não puderam mais descer, virando abelhas e capins de pão. Os outros se espalharam-se pela terra com os filhos de Braburé.

Por isso, é que há índios apinage em diversos lugares. E, por isso, também é que existe espalhada pelo mundo gente preta, cega e aleijada, falando os povos diferentes línguas.

(Estevão, Carlos. "Uma lenda tapuia". Revista do Globo, ano 1, nº 4, p.6)