Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Variações sobre a mãe d’água

Ademar Vidal

Entre os numerosos mitos que enchem a vida do Nordeste, muito se destaca aquele referente à mãe d’água. Todo mundo conhece e não poucos já viram as formas femininas do fantasma popular. Ninguém ainda disse que elas não são belas. Pelo contrário, afirma-se que, em matéria de formosura e sedução, ninguém excede a sua aparência toda feita de declives suaves como seios de mulher nova. Quem vê, ou melhor, quem tem a ventura de ver a mãe d’água, nunca mais a esquecerá, há de guardar na memória a lembrança mais agradável, não podendo esquecer o seu todo que, ao longe, parece macio e sensual. Porque de perto não se sabe de alguém que tenha conseguido o supremo favor de algum agrado material. Ela não esconde o seu orgulho, mostrando-se dotada de superioridade ainda não violada. Quem a tenha conquistado, nada, não apareceu ente nenhum — e não há mesmo pessoa alguma que dê notícia.

Está para surgir quem a dominasse pelo amor.

As histórias que se contam variam de tom e colorido, chegam às raias do inverossímil, dependendo apenas dos poderes criadores de quem as conta em voz pausada, firme e como que a esconder simuladamente a experiência que não teve jamais. Essas histórias somente num ponto não costumam variar: é quando aludem ao desdém que a mãe d’água demonstra por toda gente que procura aproveitar-se de aproximações com fim sexual. Não admite mesmo qualquer vizinhança. A distância é coisa que ela cultiva com um carinho que não relaxa, nunca cedendo. Quem quiser vê-la que se contente com o espaço de vinte metros, pelo menos, como limite obrigatório. Do contrário, estará malhando em ferro frio. À proporção que procure aproximar-se, por sua vez ela se distancia na mesma gradação. Torna-se inútil a luta por conseguir experimentar o calor de seu regaço branco — e que mais se parece com qualquer coisa envolvida em sonhos deliciosos.

A mãe d’água gosta de viver nos poços, nos rios e no mar, em todo canto onde o “líquido precioso” esteja estagnado ou em movimento. Sua majestade é de rainha, isto por causa da figura esplendorosa na sedução do corpo perfeito, onde se sente que a carne tem o cheiro e a dura consistência da juventude.

Coxas fortes de ranger se alguém chegasse a dar-lhes beliscões, cabelos caídos pelos ombros, quadris feitos para a criação, entretanto, o que mais se destaca nesse mito sedutor são os peitos grandes e formosos, que na superfície da água ficam boiando num atrevimento que mais significa desafio. Pobre do mortal que olhar aquela visão inquietadora, porque decerto não terá jamais o descanso dos desejos saciados. Vai tomar o seu banho muito despreocupadamente — e de súbito surpreende aquela mulher nua que se conserva em silêncio e numa provocação insuportável.

Mas ainda assim os banhistas preferem a companhia amável aos sentidos, prejudicando-lhe, para sempre, a tranqüilidade sexual. Até os velhos de cacete na mão se recordam da mãe d’água nas brincadeiras que outrora faziam nas praias ou nas beiras de rio. Não escondem a pontinha de saudade e também de despeito por não haver merecido a menor consideração de simpatia. Porém se entusiasmam quando têm o desejo de descrever as linhas puras do corpo que constituiu o fracasso amoroso para as suas aspirações de sexo não realizadas.

Falam dela, falam bem, mas aqui, ou ali, deixam a revelação dos rancores sem perdão. Os que ouvem essas conversas por sua vez sentem o maior interesse. Não raro atingem ao mundo do sonho e por lá ficam com o pensamento pairando à toa. Chegam até a ter raiva dos contadores de história de trancoso que viram e admiraram a mãe d’água. Alguns deles bem que deixam nas entrelinhas uma dúvida a balançar inquieta como bússola no temporal. Os mais gargantas não querem ficar assim, sem alguma vantagem a contar, sem a possibilidade de anexar certo “encontro”, troca de gozo que não houve e que jamais transpôs os limites da velha vontade. Porém se torna necessário a conveniência de aparentar bom “resultado”. E então é que botam no meio da conversa uma reticência significativa como a expressar o paraíso em que os caminhos eram suaves — e convidavam aos intensos prazeres da carne impura. Os ouvintes dessas histórias por tal maneira contadas ficam certamente se queimando de inveja.

Mentira, é mentira, ainda está para aparecer o homem que tenha tido a suprema ventura de haver caído nos braços da mãe d’água, experimentado os seus beijos, gozado as suas carícias. Os que afirmam o contrário estão brincando, ou estão faltando à verdade, querem é dar expansão aos sentimentos de vaidade, não querem quebrar o roço do orgulho.

No lugar onde o mito feminino se acha, tudo correrá bem por motivo do seu alto poder de amparar e proteger. Se aparecer aos banhistas, nada acontecerá de mau, O rio pode contar com a cheia e o mar ser maré de janeiro, que ninguém morrerá. Tudo há de ser alegria indefinível com a sensação, sim, de que jamais se extinguirá, prolongando-se para a eternidade. Os peixes ficam longe e como que imobilizados ante as fulgurações da beleza. Não se aproximam dos banhistas. Nem mesmo os tubarões ferozes. O mar se despovoa de viventes numa vizinhança de milhas.

Porém, quando não há banho, a mãe d’água muda de orientação, desde que a vez seja dos pescadores que precisam de sua imperial proteção, fazem todo o possível para merecer o sorriso de seu amparo marítimo ou fluvial. Ela, nestas circunstâncias, não afugenta os peixes, antes faz com que eles venham em cardumes, constituindo a felicidade dos que necessitam do trabalho de agarrá-los nas suas redes e linhas de anzol. A questão principal é o pescador dispor da sua simpatia, assim podendo dormir descansado porque a vida lhe correrá fagueira. Não conhecerá o mal nas suas tristes conseqüências.

Enquanto os homens gostam da mãe d’água, já não acontece o mesmo a respeito dos meninos, que alimentam um medo estranho de seu todo fantástico (*) . E esse medo vai ao ponto de não tomarem banho sozinhos nos rios, nos açudes e no mar. Fazem-se acompanhados de gente grande. Também a sereia fica na moita, não aparece, não tem mesmo vantagem nenhuma em aparecer às crianças, pois, se é tão formosa, a mãe d’água só pode ter interesse, realmente, em mostrar-se a homens que entendam e saibam o quanto vale a mulher na solidão e no abandono. Demais sendo extraordinariamente boa — e boa no sentido da beleza sedutora.

 

* Os meninos acreditam tratar-se de uma mulher cheia de feridas, feíssimas, apavorante e que, por esta razão, deve ser evitada às léguas.

 

(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.311-313)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005