Foi em princípios de 1915, antes do Carnaval desse ano.
Madureira, de então, era um longínquo subúrbio da Central, mal calçado, mal iluminado à noite, e pouco conhecido.
Cascadura tinha a primazia. Era o ponto de parada dos trens suburbanos a vapor, dos expressos de pequeno percurso e dos trens paulista e mineiro.
A pacata Madureira de outrora abrigava em seu seio famílias cariocas de classe médio e do povo trabalhador. Havia como que uma estreita união entre eles, formando uma espécie de grande família suburbana, com hábitos peculiares à nossa gente.
Entre rapazes e moças dessas famílias reinava um espírito de camaradagem e amizade recíprocas, que tornavam encantadora a sociedade local. Os bailes eram freqüentes; as festas religiosas realizadas na nova igreja de São José da Pedra e na antiga igreja do Campinho, com seus leilões de prendas, suas quermesses, suas procissões, atraíam multidões longínquas, transportadas em carroças, carros, a cavalo e a pé; as serenatas em noites de luar marcavam época, com os seus cantores sentimentais e inspirados.
Nas festas públicas, muitas vezes realizadas em praças e largos empoeirados, com o indefectível coreto rústico, ao centro fazia-se ouvir a afinada banda de música do antigo Regimento de Artilharia de Campanha, sediado no Campinho, para deleite da massa popular embevecida com suas marchas militares, suas valsas dolentes e com a sinfonia do Guarani, de Carlos Gomes, número obrigatório que arrancava aplausos entusiásticos daquela gente, que ainda não estava viciada com os sambas...
E o bondinho de burro cumpria rigorosamente o seu dever indo e vindo, ligando Madureira à tradicional e histórica localidade de Irajá, com seu cemitério e sua colonial igreja de Nossa Senhora da Apresentação, fundada em 1613.
A mocidade contemporânea desses fatos acima descritos, aproveitava o tempo que corria em reuniões literárias, cívicas e carnavalescas. Daí o aparecimento de um jornalzinho intitulado O Eco Suburbano, cujo redator-chefe era Pinto Machado, repositário dos fastos sociais e das inspirações dos poetas, literatos e escritores madureirenses.
Houve época em que surgiram duas pequenas sociedades carnavalescas, clubes mirins, intituladas Fenianos e Democráticos de Madureira, as quais apresentavam carros alegóricos e de crítica, imitando os grandes clubes da cidade... Daí, seus nomes...
Ainda havia a organização do cordão, de origem histórica, intimamente ligada à chegada da corte de dom João VI ao Rio de Janeiro, com uma interessante sátira popular aos fidalgos lusitanos, uma desforra aos incômodos que a população carioca sofreu com a chegada dessa gente, conforme já tive oportunidade de descrever no meu artigo — O cordão — publicado em Brasil Policial, em 18 de junho de 1948.
Um cordão se tornou célebre pelo comprimento do seu nome, que ocupava todo o estandarte: Sociedade e Clube Recreativo, Dançante e Carnavalesco, Prazer das Morenas, Filhos do Sol, da Lua e das Estrelas de Jacarepaguá!
O Carnaval de outrora tinha um cunho acentuadamente nacional, sem a influência deturpadora dos africanismos norte-americanos e locais.
Não podemos olvidar algumas das figuras pelo progresso dessa localidade, hoje transformada em uma quase cidade.
A Farmácia Suburbana, do bondoso e competente farmacêutico, Cândido Gabriel de Souza, apelidado de seu Candó, uma das mais antigas daquela zona, era ponto de união da elite intelectual dessa estação e para as conversas e imaginações pessoais.
A figura do humanitário médico, o dr. Fernandes Dantas, proprietário da Farmácia dos Pobres, montado em seu cavalinho branco, aparecia onde havia a dor e o sofrimento físico.
O vulto do comissário de polícia Belmiro Viana, também em seu cavalo branco, surgia apaziguadoramente sempre que se fazia mister...
Também havia uma figura popularíssima — a da desordeira Maria sapeca, que tomava e pulava de trens em movimento; que manejava perigosamente a navalha nos conflitos; que era temida e respeitada, até o dia em que foi assassinada em Dona Clara.
A propósito desses dois últimos personagens, é interessante recordar uns versinhos que terminavam assim perfidamente, publicados em A Tribuna:
Seu Viana que é chorão
Vem já c'o nós pra folia
É um comissário tão bom
Não nega fogo à Maria
(Dizem os "filhos da Candinha" que os versos eram de autoria do telegrafista da estação de Dona Clara, sr. Araújo...)
* * *
Foi neste ambiente sui-generis que, um grupo de rapazes, constituído pelos seguintes moços: Frutuoso Dantas; Antônio Moreira Fontes e sua noiva, a normalista Florianita Manaem (filha do agente da estação de Cascadura); Celestino Cavalheiro Roldão; Amazor Vieira Borges (professor e diretor do Ginásio Federal de Vila Isabel); André Romero (diretor da Escola de Polícia Municipal); João da Silva Vale (falecido); Eurialo Romero (médico da Saúde Pública, ex-chefe dos "comandos sanitários"); Júlio Lopes de Oliveira (causídico e professor); Junquilho Lourival (autor de Fátuos), inspirado poeta; Durval Valadares (poeta repentista falecido); os irmãos Xavier de Brito; Uriel Lourival, mavioso poeta e cantor de nomeada; Nerval Bernardes, outro valioso poeta, também falecido em 1918, durante a epidemia de gripe espanhola; o autor destas reminiscências e outros cujos nomes não ocorrem no momento, resolvereu promover a "batalha de confete", realizada no largo de Madureira, próximo à estação de Inharajá (hoje Magno), da antiga Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil (hoje linha auxiliar da Central), no Carnaval do ano de 1915, a primeira, sem dúvida, que foi realizada naquela localidade, e que obteve um enorme sucesso, contra a expectativa geral de então. Diziam: "Que loucura! fazer batalha em Madureira!" "Ninguém virá a essa batalha!" "Estão doidos!"
O sucesso foi amplo. A praça enfeitada com bandeirinhas de papel multicor e um tosco coreto, também enfeitado dessas bandeirinhas e com bambus em arco, ficou repleta de monta e o povo brincou de verdade, com alegria e entusiasmo até o clarear do dia. Confetes, serpentinas e lança-perfumes em profusão. Não houve acidentes, nem conflitos, tudo dentro de uma ordem que hoje a gente custa a acreditar.
E foi assim que foi lançada a semente dos famosos carnavais de Madureira, com os seus coretos não menos famosos!...