"Toda pessoa de qualquer qualidade e condição que seja, que se encontrar "emascarada", incorrerá na pena de servir a sua majestade, que Deus guarde na Nova Colônia do Sacramento, do Rio da Prata, e, sendo negro ou mulato, será açoitado publicamente, e todo oficial de guerra que encontrar os tais "emascarados" os prenderá logo, sob pena de um mês de prisão, para uma das fortalezas etc."
Isso no tempo do governador Duarte Teixeira, que assinou esse "bando". Mas de pouco valeu essa proibição, porque as máscaras não tardaram a dominar, nos três dias de folia.
Com as máscaras vieram 98 fantasias. Destacaram-se nos primeiros anos do Carnaval, os tipos clássicos europeus: arlequim, pierrô, colombina, o ciowa, o polichinelo, o diabo.
Depois os índios, a baiana, o pai-João, a mãe-Maria, o escravo e até figurantes fetichistas de macumbas.
O primeirão
Dizem que o primeiro mascarado que percorreu a cidade foi um tal de Antônio José de Melo, proprietário do grande curtume da rua de São Cristóvão, e, ao mesmo tempo, dono de um "retalho de carne verde" — ou seja, um açougue.
Certo dia de Carnaval, para fazer uma patusca, ajustou ao rosto um pedaço de papelão vermelho, à guisa de máscara, vestiu-se de boiadeiro e, montado numa vaca mansinha, passeou pela cidade, durante 4 horas, notadamente na rua do Carmo, causando "ruidoso" sucesso.
Os dominós
Os primeiros dominós surgiram, no Rio, em 1855. De origem religiosa, datam da Idade Média (séculos XV e XVI). Eram usados pelos frades — um gabão preto, largo, com capuz, durante a estação invernosa e quando viajavam. O galpão, ninguém sabe porque, chamavam-se dominó. Era usado por cima da sobrepeliz quando iam levar o viático a algum moribundo. Algumas pessoas, quando viajavam, preferiam usar o dominó para serem mais respeitadas pelo aspecto eclesiástico.
Daí o disfarce passar ao Carnaval de Veneza, alcançando depois a França, e tornando-se popular, nos bailes de mascarados, durante a menoridade de Luís XV, quando Felipe de Orléans era regente.
Da Europa para o Brasil, o salto não foi grande.
Aventuras do Vasques
A respeito do dominó, ficou registrado na história anedótica do Carnaval, a aventura de grande ator Vasques, glória teatral do Império.
Desejando intrigar a própria família e os amigos mandou fazer um dominó cheio de babados, que o tornava irreconhecível, e, para garantir o sucesso, foi vestir-se em casa de um amigo. Mal saiu à rua, ouviu logo: "Este é o Vasques".
Aturdido, desanimado, "cheio de dedos" como diz o povo, continuou a caminhar, já sem entusiasmo, e por onde passava ouvia sempre: "Este é o Vasques".
Envergonhado e desiludido, voltou a casa do amigo e verificou que este havia pregado às costas da fantasia em letras grandes, a identificação: "Este é o Vasques".
Mais curiosas
As máscaras antigas eram mais curiosas que as de hoje.
O diabo ou o diabinho, com o carão apavorante, língua de fora, chifres, trazia um garfo enorme, e a fantasia terminava em longo rabo, onde um alfinete pontudo espetando crianças e velhos, que lhe sofriam o ataque e as lambadas.
A "caveira macabra", que surgiu depois de uma devastadora epidemia de febre amarela, na cidade, apavorava toda a gente.
Medonha, toda de negro, com a cruz branca nas costas e no peito, ou branca com a pintura do esqueleto em negro, como uma mortalha com a máscara em caveira, levava uma campainha, que tocava lugubremente, e uma foice característica, que vibrava como se quisesse decepar a cabeça de toda gente.
O dr. Burro, vestido de casaca, cartola, com máscara de carão de burro, tá lendo sempre um grande b-a-bá.
Acontece que os menos favorecidos da fortuna costumavam fantasiar-se de dr. Burro, com uma cobertura de capim — crítica aos doutores e bacharéis, que, à falta dos títulos nobiliarquicos, abolidos com a república, começaram a vulgarizar-se, a ponto de dizer-se; "Brasil, terra de doutores".
Certa vez passou junto de Laurindo Rabelo, o célebre Lagartixa, cujos versos e humorismos, toda a cidade apreciava, um dr. Burro de Capim.
Laurindo, olhando-o chamou-o e perguntou: "Dr. Burro, o senhor, depois do Carnaval, come a fantasia?"
Havia ainda o fantasma, dois lençóis que se dispunham de forma a poder o de cima, que trazia a máscara branca, ser erquido e abaixado, ao gosto do mascarado.
O índio ou o caboclo era a cópia dos silvícolas das florestas brasileiras, na indumentária e nos gestos. Desconfiados andavam com passo incerto, apitando e fazendo mira para todos com arco e flecha.
O morcego surgiu em 1883. Foi um excentricidade de José Pedro de Matos, o "maçaneta", que assim saiu à rua, amedrontando a meninada.
O urso e o cigano com um brinco só na orelha direita, eram a reprodução de um quadro muito comum nas ruas da cidade, desde a chegada dos ciganos ao velho Rio.
O bebê-chorão, o portuga, a lua cheia, o china-marreco, o palhaço eram críticas a tipos e costumes da época.
Horríveis e irreconhecíveis pela imobilidade eram as máscaras de arame.
Havia, ainda, os "carões de velho", crítica aos conselheiros do império, o pai João e a mãe-Maria, lembranças dos negros escravos e outras menos insistentes.
As máscaras, hoje, são outras e os mascarados, em menor número.
A polícia proibiu certas fantasias, como padre, freira, marinheiro, que só desabonavam os personagens reais.
É muito comum a inversão de sexo entre os mascarados, homens vestidos de mulher e vice-versa, prova inequívoca de taras irrecusáveis.
Os "anjos", maltrapilhos, nojentos e os "pouca-roupa", no sentido da exigüidade de pano para cobrir a nudez, humilhação deplorável aos nossos costumes também estão proibidos. Mas os mascarados extravagantes populares pulupam na cidade nos três dias de Carnaval.