Noutro dia Osório Rocha, jornalista de boa têmpera, escrevendo sobre o "frevo" chamou a atenção dos estudiosos para o étimo de tão curioso vocábulo.
A sua crônica, que é interessantíssima, antes de ser lida por mim já chegara aos meus ouvidos, pois aquele bicho ouï-dire, de que fala Rabelais, já me informara de que, nela, eu era denunciado como "frevista" entusiástico.
Não é mentira. Essa dança recifense tem fascínio inconfundíveis e eu me confesso um apaixonado dela. O frevo antes de tudo é um chamamento coletivo e talvez por isso exerça essa "mágica influência", sobre os que, como eu, amam o povo nas suas realizações espontâneas e ingênuas, primitivas e sinceras, de sabor nitidamente folclórico.
Já tive ocasião de observar que os folcloristas do Rio de Janeiro pouco freqüentam as cerimônias e festas populares, apesar de fingir conhecê-las de perto. Eu que as analiso in loco geralmente só encontrava lá Mário de Andrade — que era folclorista de esplêndida cultura e amigo da observação direta. Os outros confesso, jamais os vi por essas bandas...
Osório Borba, com agudeza, analisando a origem do vocábulo e confessando que ignora se os pesquisadores de língua brasileira já fixaram o étimo aponta "frevo" como evidente corruptela de "fervo", por sua vez simplicação de "fervura".
O problema, entretanto já tinha sido discutido por um ilustre pernambucano e eruditíssimo conhecedor da língua nacional, o sr. Rodolfo Garcia, que o seu bem feito "Dicionário de brasileirismos", publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro declara ser "frevo" "metátese de fervo por fervor", afirmando ainda ser termo de criação recente.
Lembra também uma versalhada publicada em A Província (1913), que diz assim:
O frevo, palavra exótica
Tudo que é bom diz, exprime.
É inegualável, sublime
Termo raro, bom que dá...
Vale por um dicionário
Traduz delírio, festança
Tudo salta, tudo dança
Tudo come, tudo rói...
O "localismo" do vocábulo afasta a origem negra. Os vocábulos negros, de regra, possuem área-geográficas amplas e não se fixaram exclusivamente numa órbita urbana.
O fato de "frevo" ser batismo genuinamente recifense, urbano por excelência nos permite sugerir no étimo algo literário. A expressão "marcha frevo" deve se entender "marcha ligeira", como de fato é, aceitando-se "frevo" como corruptela de "frívolo", cujo significado geral é ligeiro, volúvel, etc.
Este étimo que surgiu só é admissível e defensável, enquanto estiver assentado que o "frevo" é criação exclusivamente urbana de Recife.
Do ponto de vista lingüístico as mutações frívolo, frivo, frevo, são aceitáveis. A queda da última sílaba explica-se pela tendência contra os esdrúxulos. A mutação já tem exemplos numerosos: scribo, escrevo; avaritia, avareza; consitium, conselho etc.
O campo das etimologias fertiliza a imaginação.
O jovem escritor Josué Montelo explica "frevo" como corruptela de "febres", o que, sem dúvida, não fere a fonética, mas tira a saúde de tão sadia coreografia pernambucana...
Qual das conjeturas guarda o segredo da origem? A divergência impede uma solução definitiva. A linguagem parece ciosa de seus mistérios...