Lendas de fundo histórico
As lendas sobre o café, no Brasil, começaram com os historiadores mais reputados de seriedade. Robert Southey, cuja History of Brazil é de 1810-1819, colheu de um manuscrito anônimo sobre notícias desta então colônia luso-espanhola (v.1, p.453, da tradução de L. J. de Oliveira e Castro) que, na Bahia, em 1581, “crescia o café”. Monsenhor José de Sousa Azevedo Pizarro e Araújo, em suas Memórias históricas do Rio de Janeiro e das províncias anexas à jurisdição do vice-rei do Estado do Brasil (1822), referindo-se ao café, afirmou o seguinte:
“Apesar de ter sido transplantado da Índia para o Brasil, onde principiou a prosperar, foi, contudo, mandado arrancar, por el-rei dom Manuel, para conservar o comércio com a Ásia, impondo a pena de morte aos que tratassem da sua cultura e progresso.”
Não se estearam, até hoje, em provas insofismáveis, essas inverossímeis asserções.
A de ter sido iniciada a cultura do cafeeiro em nossa terra ao tempo do Venturoso não resiste aos argumentos contra ela formulados pelo erudito dr. Francisco Freire Alemão. Disse este (Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v.19, p.564-566) que não encontrou referência alguma ao café na Etiópia Oriental (1609), de frei João dos Santos; nem na História da alta Etiópia, do padre Baltazar Teles e composta em Goa (1665); nem nas Décadas de João de Barros e Diogo do Couto; nem em Duarte Barbosa, “que, em 1516, tão extensa e miudamente escrevia sobre coisas da Bahia, África e Mar Vermelho”; nem no padre Francisco Álvares, autor da Viagem ao preste João (1520); nem, enfim, na Fatalidade histórica da ilha de Ceilão, do capitão João Ribeiro, que foi para a Índia em 1640, e por lá se demorou “obra de quarenta anos”. Presume o nosso abalizado sábio que a errônea afirmativa de monsenhor Pizarro proveio da má interpretação que deu este ao seguinte lanço de uma carta datada de 1675 e dirigida pelo padre Antônio Vieira a Duarte Ribeiro de Macedo:
“Há muitos anos que sei se dá no Brasil a pimenta, e quase todas as outras drogas da Índia, como se experimentou no primeiro descobrimento; e el-rei dom Manuel, por conservar a conquista do Oriente, mandou arrancar todas as plantas asiáticas, com lei capital que ninguém as cultivasse; e assim se executou, ficando somente o gengibre, que, como é raiz, dizem no Brasil, se mete pela terra adentro; mas ainda assim se conserva a proibição e se toma por perdido.”
Há aí apenas um engano de palavra, que se corrige mediante a leitura das Cartas seletas do padre Antônio Vieira (ed. de J. I. Roquette, Paris, 1856), onde, à página 94, se vê que o grande jesuíta não escreveu “plantas asiáticas”, e sim “plantas indiáticas”. O certo é que, quando expirou dom Manuel, em 1521, ainda não se conhecia o café em Portugal, nem na Europa. Como, pois, poderia ter ele entrado no Brasil entre 1500-1521, e como se tornaria objeto de uma cogitação comercial que ainda não existia?
Liquidada essa, resta a asseveração de Southey, da qual fez praça o ilustre sr. Henrique Silva, em dois artigos sobre “A introdução do cafeeiro no Brasil” (A informação goiana, nº 10 e 11, de maio e junho de 1927). Como se infere do trecho do poeta-historiador, bem como da epígrafe marginal, admitiu ele, baseado no documento que julgou fidedigno, a existência do “café indígena” na Bahia, em 1581. Ora, nem na América em geral, nem no Brasil em particular, nunca se encontrou planta nativa da família das rubiáceas, que se enquadrasse no tipo da Coffea. Além disso, nenhum dos jesuítas que estiveram de passagem ou estanciaram na cidade do Salvador, desde o governo de Duarte da Costa até o período da união ibérica sob o cetro dos Filipes, menciona o plantar-se café ali. E, em contraposição ao anônimo informante de Southey, há o Tratado descritivo do Brasil em 1587, obra de Gabriel Soares de Sousa, senhor de engenho da Bahia, nela residente dezessete anos, seu vereador da Câmara, etc.” (2ª ed., devida a Francisco Adolfo de Varnhagen, Rio de Janeiro, 1879). Nesse grosso volume, escrito por quem morou longo tempo na cidade fundada por Tomé de Sousa, e contemporâneo do informante de Southey, acha-se minuciosa notícia de todas as plantas, ainda as mais humildes, então cultivadas ali ou simplesmente utilizadas para fins comerciais, voluptuários e medicinais, e entre elas não figura o café. Nada adianta ao caso a alegação de Henrique Silva, de haverem procedido da Bahia as primeiras sementes de café, plantadas em 1774 no sítio do Riachão, do município goiano de Santa Luzia. Tanto podiam ter ido para lá, naquela data, do Pará, do Maranhão (onde se sabe que já existia em 1774) ou do Rio de Janeiro, onde já havia entrado e era objeto de cultura o cafeeiro, como também talvez da Bahia, onde, provavelmente, já era então conhecido, embora ao sul dela penetrasse em 1786, por mãos de uns missionários italianos, frei Marcelo e frei Pedro, que o declararam “produto do Brasil”, como se lê na “Breve notícia da primeira planta de café que houve na comarca de Caravelas, ao sul da província da Bahia, escrita segundo dados autênticos por João de Sampaio Viana, juiz de direito da mesma comarca, em junho de 1842” (Revista do Instituto Histórico e Geográficó Brasileiro, v.5, p.77-79). Que Portugal, preocupado com as riquezas metálicas do Oriente e Novo Mundo, a elas e às especiarias ligou sempre mais importância do que ao café, comprova-se ainda com a introdução da utilíssima rubiácea nas suas ilhas coloniais mais próximas. Assim é que, no arquipélago de Cabo Verde (ver O Panorama, v.2, p.166), as cinco primeiras mudas de cafeeiro, que vicejaram na ilha de São Nicolau, foram obtidas de uma possessão inglesa por Antônio Leite. Portugal tratou com o mais solene pouco caso a Coffea, nos seus domínios ultramarinos, esquecido da nova divícia que teria na magnífica planta. E tanto isso é verdade que, ainda em começos do século XIX, era o café gênero escasso na metrópole de além-mar. Assim é que, ainda nos começos do século XIX,* D. João VI o pedia do Brasil, para o seu uso pessoal, e até indicava os maiores desvelos no acondicionamento das arrobas que se lhe remetessem, conforme consta de documentos que li e copiei no Arquivo Nacional.
Talvez muita gente ignore que o café introduzido nas ilhas Havaí, em 1825, saiu aqui do Rio de Janeiro (ver W. H. Ukers, ob. cit.). No seu variado e ótimo trabalho Seixos rolados (Estudos brasileiros, Rio de Janeiro, 1927), onde vem o interessante capítulo “Um manto real de Havaí” (p.19-30), trata o erudito Roquete Pinto da visita que o soberano Riho-Riho (Tamehameha II) fez, em 1824, a esta capital, onde chegou a 16 de fevereiro e foi recebido, a 27 do mesmo mês, por dom Pedro I. Houve troca de mimos entre os dois monarcas: o polinésio recebeu “uma rica espada” e sua esposa “um anel de brilhantes de grande preço”, das mãos do imperador do Brasil, a quem Tamehameha II ofereceu “o manto de Owyeen”, e a rainha Tameha-Malú “um colar de plumas”, que foram mandadas por dom Pedro I para o Museu Nacional, cujas coleções opulentaram. O que não rezam os documentos da época (e, por isso, entra no domínio da lenda, justificada pelos fatos), nem foi objeto de investigações de Roquete Pinto, é que os coroados havaianos tanto apreciaram o nosso saboroso café, que daqui o levaram, à sorrelfa, em sementes e mudas, com que se iniciou a cultura da rubiácea no longínquo arquipélago do Grande Oceano.
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Nota:
* Em suas Viagens no Brasil (Reise in Brasilien, München, 1823), agora mandadas traduzir e publicar pelo Instituto Histórico (ajudei a rever e anotei a dita versão), Spix e Martius fazem muitas referências à cultura do café em nossa terra. Além de haverem encontrado chins, destinados à cultura do chá, a plantar a rubiácea nas proximidades da fazenda de Santa Cruz; além de se lhes haver deparado um cafezal na propriedade agrícola do holandês Dufles, adiante de Itaguaí; além de afirmarem que a maior esperança de Langsdorff, na fazenda da Mandioca, sita em Petrópolis, “estava posta na plantação do cafeeiro, que ele já havia iniciado ali”, põem em particular evidência, como plantadores da Coffea arabica, nos arredores da baía de Guanabara, o dominiquense Lesesne e o inglês Chamberlain.
As páginas 146-147 do volume 1 (ed. alemã), descrevem pormenorizadamente a lavoura de café, realizada aqui pelo dr. Lesesne, assim como os processos pelo mesmo ernpregados para o beneficiamento dos frutos, tendo explicado antes, à página 127, o seguinte: “O café começou a ser cultivado ativamente na capitania do Rio de Janeiro há poucos anos, tendo-se verificado que a produção daqui chega a igualar em excelência a de Martinica ou São Domingos, desde que se observem na colheita as mesmas necessárias cautelas. O café procedente do Rio não gozava de estima na Europa, há alguns anos atrás, porque, em geral, os grãos eram apanhados ainda verdes, e, para tirá-los da casca, expunha-se esta ao tempo até apodrecer, o que estragava o bom sabor do fruto, dando-lhe um colorido claro e amolecendo-o. Só há pouco tempo foi que melhorou aqui o cultivo do cafeeiro, em conseqüência do modo de colher-lhe os frutos, principalmente depois que o dr. Lesesne, ilustrado fazendeiro de São Domingos, fugido de lá por motivo de perturbações políticas, fez uma grande plantação nas vizinhanças do Rio de Janeiro e chamou a atenção dos poderes públicos para o modo mais proveitoso de beneficiar este produto. O seu exemplo e a grande procura do gênero fizeram aumentar consideravelmente a produção, de modo que atualmente o Rio de Janeiro é, dentre todos os portos do Brasil, o que despacha mais café, e da melhor qualidade, para o exterior. Nos últimos anos, tem sido a seguinte a sua exportação: 1817, 9.567.960 libras; 1818, 11.140.350; 1819, 8087.220 (por causa da seca); 1820, 14.733.540”.
À página 142, finalmente, vem o seguinte: “Empenhando-nos principalmente em prosseguir para diante da fonte da Carioca (pois que, na zona quente, tudo quanto vive procura a água), fomos dar numa plantação de café, solitária, e então propriedade, como depois nos informaram, do cônsul inglês, o sr. Chamberlain, que também se ocupava de entomologia e tinha uma rica coleção de insetos, colhidos naquelas circunvizinhanças.