Da cana-de-açúcar não se pode dizer muito. Cultivada com carinho mas em reduzidas proporções na parte setentrional da província, consoante o depoimento de Dreys, brotou exuberante porém limitada, sem meios de alastrar-se e impor-se, como seria de desejar. Em Santo Antônio da Patrulha e adjacências teve nome, mas nome de família pequena. E seus títulos mais altos foram a Rapadura, a Canguara — aquela envolta em palha de milho e despachada em grandes porções para as vilas e cidades de então, onde era muito querida; esta encaminhada em garrafões bojudos para quase toda a província, em cujos recantos, com os nomes de Água-da-vida e especialmente Lágrimas-de-Santo-Antônio era, depois de vertida, enxugada com gosto. Digno de citação e diploma, havia também o melado, acondicionado em potes de barro, o qual, de mistura com farinha de mandioca era para os ricos agradável sobremesa e para os pobres, muitas vezes o pão de cada dia. O açúcar propriamente gerado por ali, não tinha o mesmo prestígio; escuro e áspero, dava a impressão dos torrões de ajuntada, do mascavo brabo, de má catadura e sabor suspeito...
Gente haverá decerto, mais sabida do que nós, capaz de provar com números o contrário do que se está avançando. Enquanto, porém, isso não acontecer, registe-se que, ao passo que o norte flutuava numa doce enseada de calda, nós aqui singrávamos um mar vermelho de sangue — sangue de boi, da ovelha e do carneiro. E não raro, até sangue do homem, tanto nos custou, em diferentes épocas, levantar uma barreira de peitos contra a cobiça dos espanhóis e suas pretensões territoriais...
Não querendo falar mal do nosso açúcar, digamos ao menos que ele sempre foi... pouco.
Quem duvidar, e para não ir muito longe, que atente para o mate amargo, o chimarrão do gaúcho — hábito que se lhe inveterou mais por necessidade do que por gosto. Faltando-lhe o torrão saboroso, o mate doce na roda do dia era luxo e, como luxo, só destinado às mulheres. A desculpa de que doçura não é pra homem trai logo a indigência do recurso e, se o ditado de algum modo se inspira na gentileza, não disfarça contudo a escassez do produto e muito menos.., o varonil desprendimento do herói... A verdade é que não havia açúcar mesmo.
De um almanaque antigo, dona Heloísa Assunção Nascimento tem a bondade de extrair e enviar-nos cópia de preciosa informação. Antônio José Ferreira, escrevendo sobre a conceituada família Ferreira, de Bojuru, diz a certa altura de sua notícia “... e para prova do quanto essa família era venerada pelos demais moradores da localidade, vamos citar uma narração histórica que vem da antigüidade. Na época em que eram escassos o açúcar e o café, nesse e em outros lugares, quem possuía desses artigos os depositava em boiões, que eram içados por uma corda apropriada na cumeeira da casa, e dali só eram arreados para obsequiar-se os membros dessa família — Ferreira — ao arrematante da Fazenda Real de Bojuru, ao padre da freguesia e aos hóspedes que trouxessem nos arreios seu coxinilho que neste bom tempo custava, cada um deles, uma onça de oiro. E como as onças de oiro, que até hoje são ainda bem raras, só as pessoas de elevada posição é que podiam possuir dos ditos coxinilhos, que eram tecidos de lã, mas tão bem preparados que seu fiado mais se parecia com fios de retrós do que a própria lã”.
Como se vê, o açúcar era aqui tão escasso antigamente que com ele apenas se obsequiavam as pessoas de destacada posição social. Em Bojuru, como em outros lugares, além das venerandas famílias locais, só aos figurões se exibiam os boiões suspensos: ao arrematante da Fazenda Real, ao vigário da Freguesia e aos hóspedes portadores de coxonilho, isto é, os pilchudos...
(Reproduzido de Doces de Pelotas, prefácio de Athos Damasceno, coordenação de Amélia Vallandro, Editora Globo, Porto Alegre, 1959)