Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

Pelo sinal

Brás Angelino de Souza

Composto pelo mestre-escola Brás Angelino de Sousa em Santa Cruz da Uruburetama (Ceará), em 1877. Registrado por Leonardo Mota em Violeiros do Norte.

A fome me faz temer
Da desgraça o duro corte,
Estou conhecendo a morte,
Pelo sinal...

Se não chover em geral,
Em dezembro, com franqueza:
Se acaba toda a pobreza
Da Santa Cruz...

A furtar não me dispus,
Morrer de fome acho feio...
Porém de pegar no alheio
Livrai-nos Deus!

Pode ser que com os meus
Escape deste “estandarte”,
Pois temos de nossa parte
Nosso Senhor

Se ficarmos a favor
Dos mais arremediados,
Temos de ser desprezados
Dos nossos.

Já vendi todos meus troços,
Só não digo que furtemos
Porque do dono seremos
Inimigos.

Vamos ter novos castigos,
Não se tem pr’onde fugir:
É ao governo pedir
Em nome do Padre...

No caso que ele se enfade,
Se nos der coisa tão pouca,
É só pra botar na boca
Do filho...

Não temos feijão, nem milho,
Nem farinha, nem crueira,
Só nos resta uma palmeira
Do “Espírito-Santo”.

Não sirva a ninguém de espanto:
Mas tenho profetizado
Que há de morrer tudo inchado!
Amém...

 

(Em Mota, Leonardo. Violeiros do Norte; poesia e linguagem do sertão nordestino. 3ª ed. Fortaleza, Imprensa Universitária do Ceará, 1962, p.86-88)
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