Caro leitor atenção
Para o que vou relatar
Baseado no que sei
Mas porque ouvi contar
Sobre o tal do curupira
Que reina em certo lugar
No reino do curupira
A lei tem que ser cumprida
A fauna é bem vigiada
A flora bem protegida
Quem não cumprir seu preceito
Se arrisca a perder a vida
Em toda floresta existe
Um emissário do rei
Que faz às vezes de muitos
Dizer a quantos não sei
Conforme o tamanho da área
Vem a quantia na lei
Dizem ser um molequinho
Dos tapuias descendente
Com pouco mais de meio metro
E os calcanhares pra frente
Com um machadinho na mão
Montando em porco e contente
Propalam que o curupira
Tem os seus pés para trás
Para enganar pelo rastro
Aqueles que vão atrás
De traquinar pelos matos
Tentados por satanás
Mas se ele pisa pra trás
Sempre andando para frente
Quem achar que deve ir
Acompanhando este ente
Mais adiante ele se esconde
Pra pegar o imprudente
Montado num porco espinho
Ele faz vigilância
Na parte que lhe pertence
Não se enfada com distância
Por onde passa o que é vivo
Dá lhe a maior importância
Ele vive atento a tudo
Observa os caçadores
Corre pras margens dos rios
Em busca de pescadores
Ou fica dentro das matas
Espantando os lenhadores
Com seu machado que é feito
Da pata de um jabuti
Nas árvores dá um aviso
E as aves voam dali
O caçador vendo aquilo
Procura cuidar de si
Ele faz do mesmo jeito
Avisando aos animais
Que se embrenham na floresta
Cada qual correndo mais
E o caçador fica só
Dando suspiros e ais
Em rio, açude e lagoa
O machado funciona
Os cardumes vão pras locas
Ou mudam logo de zona
E o pescador descontente
O local logo abandona
Procede da mesma forma
Assombrando o lenhador
Tem pé de pau que se encanta
Outros que mudam de cor
Por trás de um toco ele geme
Para causar mais temor
Quem entra numa floresta
Pensando em perversidade
Se arrisca a não mais voltar
Para a vida da cidade
Pois muitos se perdem ou morrem
E ninguém sabe a verdade
Quem não quer acreditar
Nesta ação do Curupira
Mais das vezes sai da mata
Com suas vestes em tira
E nunca mais diz aos outros
Que se trata de mentira
Incendiário de matas
A ordem é levá-lo preso
Para matá-lo de fome
Dentro de um grande revezo
Queimou madeira de lei
Tem que morrer no desprezo
Para isto ele tem ajuda
Dos bichos em companhia
Quem não quiser se entregar
Ele faz uma magia
Que o cabra inda sendo forte
Dá-lhe logo uma agonia
Ele condena, almanjarra
Cambito, canga, chiqueiro
Tamanco, máscara, currais
Jereré, jequi, viveiro
Rinhá, arapuca, alçapão
Peia, laço e galinheiro
Ajuda a gatos e onças
A carregarem os filhotes
Desengancha aves no mato
Protege ninho em magotes
E ensina a bicho miúdo
A não perder-se dos lotes
Ensina a poltro e bezerro
Por meio da natureza
A cruzarem rio cheio
Com suas mães, com firmeza
Encostadinhos do lado
Que recebem a correnteza
Sabe onde tem as meizinhas
Para todos animais
Protege a boca das furnas
Conhece o tempo e tem mais
Adivinha as trovoadas
Quando vêm fortes demais
Foi Mário Souto Maior
Professor e folclorista
Quem me contou certo dia
Que o curupira é artista
Em se encantar, para a gente
Não dá com ele de vista
Às vezes vem encantado
Em missão para a cidade
Tudo que é pássaro e bicho
Ele deixa em liberdade
Abrindo jaula e gaiola
Pra sua felicidade
Pensam que ele é atrasado
Analfabeto de guia
Mas isto tudo é mentira
De pessoa sem valia
Porque não tem como ele
Quem saiba de ecologia
Dar lição de agronomia
A qualquer dos professores
Dizem que Humberto Carneiro
Aprendeu com seu pendores
Para poder ensinar
A seus futuros doutores
Pois o curupira até
No lugar que tem minério
Evita passagem d'água
Fazendo um serviço sério
De vez que a mina enriqueça
Cada vez mais seu império
As coisas da natureza
Os homens só podem usar
Se for para o bem de todos
E em nada prejudicar
E ainda na condição
Do curupira aprovar
Deus a tudo deu destino
De acordo o que lhe convém
A cigarra quando canta
Não quer divertir ninguém
É para avisar que ali
Só dá pra ela o que tem
Tudo tem o seu proveito
Não adianta mudar
Num chamado ecosistema
Tudo vem a se ligar
O que não é pra existir
Compete a Deus retirar
Quem vê um jegue seguindo
No corredor para o corte
Vê-lo tremendo e chorando
Por certo temendo a morte
Nas charqueadas não sente
Quem tem natureza forte
Se é verdade que a Amazônia
Do mundo é mesmo o pulmão
Que será do nosso folêgo
Se não houver proteção
Ao resto das nossas matas
Sujeitas a sequidão
Certa vez disse um poeta
Que alma uma árvore tem
Talvez seja o lenhador
Que em forma de árvore vem
Para morrer pela mão
Dos seus colegas também
Ouvi dizer que inventaram
Um engenho vibrador
Que quando, com seu machado,
Se aproxima o cortador
A árvore que vai morrer
Vibra nele de horror
Quando em cada brasileiro
Um curupira existir
As riquezas naturais
Nos aponta outro porvir
E o mal da poluição
Trata logo de sumir
Vamos de agora por diante
Ao curupira imitar
Zelar pela nossa flora
A nossa fauna tratar
Deixar os bichinhos vivos
E mais árvores plantar
Na Estação Tapacurá
Tem um desse molequinho
Que gosta de conversar
Com Vasconcelos Sobrinho
Por isso fizeram a estátua
Dele no seu porco-espinho
Antes ali eram os frades
Hildelbrando e Gabriel
Bernardo, Agostinho, Pedro
Cientistas de burel
Agora é Humberto Carneiro
João Dias e Maciel
Seguindo nos benfeitores
Eu desço na regra inteira
Lutzenberger, Roriz, Ruschi
Belart, Maroni, Nogueira
Warwick, Bento, Machado
Aroldo e Roldão Siqueira
Parahym, Murilo, Mário
João Vasconcelos Sobrinho
Estevão e Farias Lima
Seguem no mesmo caminho
Que Gilberto e Costa Perto
Abriram devagarinho
Aí estão alguns homens
Que através dos seus valores
Procuraram demonstrar
Ao povo os grandes favores
Que a natureza lhe faz
Merecendo mais amores
Peço desculpas aos leitores
Pela minha firoleira
Descrevendo o curupira
Com afeição verdadeira
Do modo que me pediu
O doutor Cícero Ferreira