Os Pires de Lima, autores do Romanceiro minhoto, ouviram este romance de várias cantadeiras do Minho, e afirmam que talvez seja derivado de um episódio real, cuja veracidade, no entanto, não puderam averiguar.
Em Portugal, já foram recolhidas várias versões dessa xácara e Lima Carneiro registrou uma com o título de O pavão, não a publicando por não lhe parecer de origem popular.
No Brasil, parece que o único documento publicado é o que devemos ao mestre Mário de Andrade, que o recolheu da tradição oral de São Paulo, com solfa e texto poético. Depois dele, nós registramos seis versões, assim, discriminadas: uma da capital, uma de Ibitinga, uma de Sorocaba, uma de Celidônia (estado de São Paulo), uma de Caxambu, uma de Barbacena (estado de Minas Gerais). Todas as versões foram recolhidas entre 1948 e 1949 e os informantes mulheres e crianças, afirmam que ele é cantado em nossas rodas infantis.
Analisando os documentos que recolhemos, chegamos às seguintes conclusões:
1º) Quanto aos personagens — são três: o menino (Antoninho), dois homens (o pai e o mestre, mestre-escola ou professor, que na versão de Celidônia é chamado de compadre pelo pai de Antoninho), alunos ou meninos que vêm da aula e o poeta narrador, aparecendo na versão de Sorocaba também o juiz;
2º) Quanto ao assunto — é a "estória" de um menino que mata o pavão do professor (mestre, mestre-escola, compadre) e é por este assassinado à punhal ou a tiros;
3º) Quanto à poesia — compreende quadrinhas setissilábicas com rimas entre o segundo e quarto verso;
4º) Quanto à música — quatro documentos estão na tonalidade menor, seis principiam em anacruse e estão no compasso ternário, quatro são iniciados na dominante, um na mediante e um na tônica, cinco terminam na tônica, cinco terminam na tônica e um na mediante (Ibitinga), todos terminam no grave há predomínio de melodias de oitos compassos;
5º) Quanto à versão mais completa — uma das mais completas que recolhemos em Sorocaba, em 1948, de um dos nossos informantes; segundo a sua opinião, o documento, que vai publicado abaixo, possui mais de cinqüenta anos, entretanto, dos que registramos, é o que mais reflete influência portuguesa. Ei-lo:
— Antoninho vá pra aula
É preciso aprender.
— Mamãe eu não vou à aula
Porque sei que vou morrer.
— Bom dia, senhor mestre
Aqui tens o meu quinhão
Pra pagar o senhor mestre
O valor de seu pavão.
— Vá-se embora, amigo meu.
Para o amigo não é nada,
Mande Antoninho pra aula
É preciso estudar.
— Antônio vai para aula
Já falei com o professor.
— Papai eu não vou à aula
Porque sei que vou morrer.
Antoninho foi para aula
Todo o caminho a chorar
Chegou na porta da escola
Chorando a suspirar.
O mestre quando lhe viu
Na hora de entrar.
Pegou-lhe por um braço
E agora me vais pagar.
Já são onze horas
Meio-dia não tarda a ser
Já vimos os meninos da aula
E Antoninho sem aparecer
— Ô meninos que vindes da aula
Não viste o meu Antoninho?
— Está morto na sala de livros
Com o coração aos pedacinhos.
Seu pai que ouviu isso
Tratou de se preparar.
Meteu revólver ao bolso
E o mestre-escola foi matar.
— Senhor juiz de direito
Venho me entregar à prisão
Matei o mestre-escola
Com três tiros no coração.
— Mataste o mestre-escola
Mataste um bom ladrão
Mata-nos essa gente toda
Até a quinta geração.