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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Panacéia

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Panacéia
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Cirurgias, garrafadas e mezinhas, benzeduras e outros processos de curar, por Saul Martins

Iemanjá, por Antônio Constantino

"Vai-tiarré" e outros esconjuros, por Guilherme Santos Neves
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Catavento
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Almanaque
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PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


"Vai-Tiarré" e outros esconjuros

Guilherme Santos Neves

Em breve estudo publicado neste jornal, edição de 4 de setembro do ano passado, sob o título "Ainda a expressão 'levado do diabo'", transcrevemos a seguinte quadrinha popular, recolhida em Vila Velha:

Eu juro e te desconjuro.
Vai-tiarré, Cruz! Pé de Pato!
Sai daqui raça ruim,
Mais levado do diabo!

Vamos agora discorrer sobre essas outras expressões de esconjuro, usadas ainda hoje pelo povo, ou melhor, pelo "povo-povo", como o escrevia Almeida Garret.

Entre os processos mais simples para o fim de "afugentar o demo" ou livrar-se alguém dos seus malefícios, está o esconjuro ou "desconjuro" como se diz na trova citada. Consiste ele no pronunciar certas palavras, algumas de grande poder e força como a "cruz" e o "credo". A cruz tem prepoderante influência e afasta os males diabris. Às vezes, nem é preciso que se pronuncie: "Cruz!". Basta que se faça o sinal da cruz ou uma cruz digital, ou ainda se risquem no chão os dois traços cruzados. Com isso estará conjurado o perigo.

Quanto ao "credo", todos sabem o alto poder que tem, sobre o tinhoso, a velha oração. Ruth Guimarães, em seu livro Os filhos do medo (Porto Alegre, Ed. Globo, 1956), diz à página 148: "O credo serve para proteger quem o reza, para afugentar o diabo, para espantar assombração, para abrir portas. Desvia feitiços, mau-olhado, quebranto, e fecha o corpo. Dizem que feiticeiros nada podem contra quem reza o credo todas as noites para dormir. O diabo nada consegue com quem traz o credo num bentinho, na bolsa, ou pendurado no pescoço (patuá)".

Nem sempre, como se vê, é necessário rezar o credo. Se ele estiver escrito num bentinho ou num patuá, a pessoa está fechada às tentações do capiroto e sua corte. Também em certas ocasiões não seria possível rezar o credo, pois a situação premente não o permitiria. Então bastará que se diga a palavra — Credo! sozinha, ou seguida de outras como: — Credo! Cruz! — Cruz! Credo! — Credo em Cruz!

Não nos seria possível carrear para aqui a prova desses esconjuros, a não ser através das páginas dos autores que reproduzindo a vida, a fala e os costumes do povo, registram, com fidelidade, esses exorcismos orais.

É o caso, por exemplo de Camilo Castelo Branco. Num rápido manuseio de alguns dos livros desse admirável coletor de dados folclóricos e etnográficos, podemos encontrar o esconjuro nos seguintes passos: "... d'alil ao inferno não mais que morrer. — Credo!" (A queda d'um anjo, 3ª ed. Lisboa, 1925, p.204). "Deixa-te de crendices... não creais em maranhões... — Credo! não digas tal" (A filha do Arcediago (6ª ed. Lisboa, 1918, p.22). "Credo! tu estás endemoninhado, rapaz!" (Aventura de Bazilio Fernandes Enxertado, 3ª ed. Lisboa).

Isto, quanto ao Credo!, que se pode ver, ainda, em A brasileira de Prazins (Lisboa, 1943, p.62), O santo da montanha (Lisboa, 1907, p.43), A enjeitada (Lisboa, 1907, p.48), A doida do Candal (Lisboa, 1917, p.20), Onde está a felicidade? (Lisboa, 1915, p.265), As três irmãs (Lisboa, 1917, p.95 e 183), O sangue (Lisboa, 1921, p.15).

Em dez romances de Camilo, — onze exemplos, colhidos assim a lume de palha ou a granel. Quantos não poderão colher-se na obra toda?

No que respeita aos esconjuros — Cruz!, e — Cruz! Credo! ou — Cruzes! no plural, tomemos agora autor brasileiro, e seja Coelho Neto, para exemplo. Em Treva (3ª ed. Porto, 1924, p.164): "Cruzes! esconjurou dona Emerencina supersticiosa". Em Inverno em flor (3ª ed. Porto, 1923, p.182): "Cruzes! antes uma boa morte. Que horror!". Em Banzo (Porto, 1912, p.38): "Uai! Cruz! Correram todos, curiosos...". Em Sertão (4ª ed. Porto, 1921, p.248): "Cruz! esconjurou o assombrado". Neste último livro de contos, depara-se, à página 340, o cruz credo!: "Sabe! sabe! Que é, galinha preta? Sabe! E atirava pontapés, sapateava frenética, voltando, de instante a instante, a cabeça para dentro, receiosa de que algum (urubu) houvesse penetrado. Sabe! Sabe! Cruz! Credo!"

Esse "cruz credo" pode-se ler em recente livro de Origenes Lessa — Rua do sol (Rio de Janeiro, José Olímpio, 1956, p.101): "— Parece criação do demônio — dizia Nha Calu. — É uma cabeça que anda sem cavalos. Anda sem o bicho deixar; cruz credo!".

O mesmo "Cruz! Credo!", podemos encontrar, também, nesta chistosa quadrinha popular, recolhida em nosso Cancioneiro capixaba de trovas populares (Vitória, 1949, nº 140):

Atirei um limão verde
Na porta da sacristia.
Bateu na coca do padre,
Cruz! Credo! Ave-Maria!"

Aqui como se vê, depois do esconjuro, há uma invocação à Virgem Maria. Ao contrário da trovinha inicial, onde, ao lado de Cruz! se põe o pé de pato, que, como ninguém o ignora, é um dos nomes por que se conhece o demônio. Ruth Guimarães no seu referido livro depois de citar este dito da criançada paulista do interior:

"Pé de pato
Pé de pinto,
Quem sobrou
que vá pros quintos"

Acrescenta: "Pé de pato, referindo-se ao diabo e quintos ao inferno. Entre os caipiras do Vale do Paraíba, o diabo é, entre outras coisas: pé de pato..." E adiante: "Pé de pato parece comum no Norte do Brasil. (...) "A idéia de pé de pato surgiu possivelmente sugerida pela patologia. Será como pé de cabra e coxo, fundamentada pela vista de casos teratológicos, o que, de certo explica a sua singular persistência." (p.75).

Não sei se se prende ao mesmo significado, o "pé de pato" da velha parlenda infantil para o encerramento de história da carochinha:

"Entrou por uma porta
Saiu por um pé de pato:
Manda o rei, meu senhor,
Que me conte quatro".

Se não tem ligação com o nome do "cujo" valerá, ao menos, para findar, estas modestas nótulas.

(Neves, Guilherme Santos. "'Vai-Tiarré' e outros esconjuros". A Gazeta. São Paulo, 22 de janeiro de 1956)