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Antônio Constantino
Todas as tardes, Maninha tomava a direção da praia, punha-se a olhar a imensidão
das águas. Fitava a linha do horizonte, além da ilha onde o farol principiava a
luzir, alertando os navegantes. Um barco seguia no meio das ondas, a vela se
distanciava até ser absorvida pelo escurecer. Maninha esperava em vão o retorno
de Júlio. Ele havia partido há duas semanas, negócios que não contava o atraíam.
A companheira desconfiava muito do outro, o que aparecia sempre com umas valises
pesadas. Os dois se trancavam no quarto e só pela madrugada saíam. Júlio a
beijava, sossegando-a, antes de amanhecer ele estaria de volta. Saltavam os dois
no barco e sumiam. Noite alta, Júlio regressava alegre, trauteando um samba e
cheirando a aguardente. Fechava-se em segredo, porém lhe trazia presentes caros.
Há quinze dias, seu homem não dera mais sinal de vida. Fora com o estranho, para
demorar dois dias, e nada. A vizinhança sentia dó de Maninha sofrendo, assediada
de maus pressentimentos. As amigas às vezes a levavam à praia e retornavam,
porque Maninha se sentava nas pedras, sem ver as horas passarem. Só o bramido do
oceano respondia às perguntas do seu coração magoado. Descia a noite, as
estrelas cobriam o infinito e se esparramavam entre as vagas. Maninha, indagava
se elas não sabiam novas do seu amado. Mudas, as estrelas cuidavam apenas de
brilhar e de se disseminarem nas ondas insensíveis aos padecimentos de Maninha.
Quando tombava na cama, não conseguia cerrar os olhos inchados de tanto chorar.
A vizinha lhe disse o quanto Iemanjá, deusa do mar, protege as criaturas
abandonadas pelo seu amor. "Você nunca viu ela?" Maninha, suspirando: "Não, Que
jeito ela tem?" "É mais bonita do que todas as sereias juntas. Nem a iara das
lagoas tem pupilas tão lindas e voz tão macia! O corpo dela é branco, tão branco
que nem a lua cheia... O ventre desce, se encomprida, e as pernas se afinam como
rabo de peixe. As pupilas são claras, Mas a sedução maior está nos cabelos
verdes. Quando Iemanjá vem vindo, puxada no leito das ondas e das espumas, os
cabelos se confundem com a água, por isso a água fica verde que nem os cabelos
dela..."
Maninha se entristecia. Porque Iemanjá não lhe trazia de volta o seu amor? A
vizinha continuava: "Na procissão à noite, na praia, a gente derrama as rosas
nas ondas, porque Iemanjá gosta de dormir em cima das flores... Depois a gente
bota as velas acesas no gargalo das garrafas e deixa elas no mar. Iemanjá é
agradecida ajuda quem se lembra dela... Se alguém vai embora, quem fica deve
largar a vela na garrafa em riba d'água e esperar. Logo, a vela caminha para os
lados da pessoa desaparecida. Iemanjá empurra a vela até descobrir o sumido..."
A festa à deusa da água reuniu bandos e mais bandos de homens e mulheres.
Marinheiros e pescadores. A procissão se desenroscava ao longo da praia.
Entupido de rosas, os barcos dançavam na crista das maretas. O perfume das
flores se misturava à maresia, no encanto da noite enluarada. Todas as estrelas
tinham vindo brilhar nas festa de Iemanjá, garrafas com velas acesas espetadas
nos gargalos boiavam na água. Começaram as cantorias. E o coro se uniu,
glorificando, numa prece de ritmo bárbaro, a mãe das ondas, protetora dos
navegantes. Mãos atiravam as rosas dos barcos sobre o mar.
Maninha se refugiou na ponta da praia, entre os pedroucos mais rasos. Acendeu
a vela e soltou a garrafa. Ajoelhou-se e suplicou: "Mãe Iemanjá, tem piedade de
mim, me traga o Júlio ou me leve onde ele está!" A garrafa não seguia, presa a
uma pedra. O luar da noite realçava, na areia, o perfil dos vultos que a
procissão arrastava, cantando. Maninha rezou de novo. O reflexo da lua dourava
as ondas, reflexo vivo. Uma forma humana! Maninha estremeceu. "Iemanjá!" A
garrafa se moveu, e a vela andou. Maninha sungou a saia, caminhando na água, no
rastro da vela. Iemanjá empurrava a vela. O mar chegava nos seios de Maninha.
Uma onde lhe pulou nas faces, entrando pelos olhos, pela boca, pelas narinas.
Não tinha mais ponto de apoio. E a vela a levando, levando, levando...
Agora, quando, nas noites em que a lua cheia rola entre as vagas, se escuta uma
voz cantando nas lonjuras oceânicas, ninguém diz mais que é a voz de Iemanjá.
Todos falam que é a voz de Maninha, cantando nos braços do seu amor que ela
encontrou no fundo do mar...
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