Jangada Brasil
  

  Jangada Brasil  | RealejoProvérbios  |  No Estradão  |  Amigos da Jangada  | Contato  | Mapa do Site

Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Panacéia

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Panacéia
....................................
Cirurgias, garrafadas e mezinhas, benzeduras e outros processos de curar, por Saul Martins

Iemanjá, por Antônio Constantino

"Vai-tiarré" e outros esconjuros, por Guilherme Santos Neves
....................................

Capa
....................................
Festança
....................................
Cancioneiro
....................................
Imaginário
....................................
Oficina
....................................
Palhoça
....................................
Colher de Pau
....................................
Catavento
....................................
Almanaque
....................................
 

Edições anteriores
Seleções temáticas
As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
Bibliografia utilizada
Saiba mais sobre a Jangada Brasil
Contatos
 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


Iemanjá

Antônio Constantino

Todas as tardes, Maninha tomava a direção da praia, punha-se a olhar a imensidão das águas. Fitava a linha do horizonte, além da ilha onde o farol principiava a luzir, alertando os navegantes. Um barco seguia no meio das ondas, a vela se distanciava até ser absorvida pelo escurecer. Maninha esperava em vão o retorno de Júlio. Ele havia partido há duas semanas, negócios que não contava o atraíam. A companheira desconfiava muito do outro, o que aparecia sempre com umas valises pesadas. Os dois se trancavam no quarto e só pela madrugada saíam. Júlio a beijava, sossegando-a, antes de amanhecer ele estaria de volta. Saltavam os dois no barco e sumiam. Noite alta, Júlio regressava alegre, trauteando um samba e cheirando a aguardente. Fechava-se em segredo, porém lhe trazia presentes caros.

Há quinze dias, seu homem não dera mais sinal de vida. Fora com o estranho, para demorar dois dias, e nada. A vizinhança sentia dó de Maninha sofrendo, assediada de maus pressentimentos. As amigas às vezes a levavam à praia e retornavam, porque Maninha se sentava nas pedras, sem ver as horas passarem. Só o bramido do oceano respondia às perguntas do seu coração magoado. Descia a noite, as estrelas cobriam o infinito e se esparramavam entre as vagas. Maninha, indagava se elas não sabiam novas do seu amado. Mudas, as estrelas cuidavam apenas de brilhar e de se disseminarem nas ondas insensíveis aos padecimentos de Maninha. Quando tombava na cama, não conseguia cerrar os olhos inchados de tanto chorar.

A vizinha lhe disse o quanto Iemanjá, deusa do mar, protege as criaturas abandonadas pelo seu amor. "Você nunca viu ela?" Maninha, suspirando: "Não, Que jeito ela tem?" "É mais bonita do que todas as sereias juntas. Nem a iara das lagoas tem pupilas tão lindas e voz tão macia! O corpo dela é branco, tão branco que nem a lua cheia... O ventre desce, se encomprida, e as pernas se afinam como rabo de peixe. As pupilas são claras, Mas a sedução maior está nos cabelos verdes. Quando Iemanjá vem vindo, puxada no leito das ondas e das espumas, os cabelos se confundem com a água, por isso a água fica verde que nem os cabelos dela..."

Maninha se entristecia. Porque Iemanjá não lhe trazia de volta o seu amor? A vizinha continuava: "Na procissão à noite, na praia, a gente derrama as rosas nas ondas, porque Iemanjá gosta de dormir em cima das flores... Depois a gente bota as velas acesas no gargalo das garrafas e deixa elas no mar. Iemanjá é agradecida ajuda quem se lembra dela... Se alguém vai embora, quem fica deve largar a vela na garrafa em riba d'água e esperar. Logo, a vela caminha para os lados da pessoa desaparecida. Iemanjá empurra a vela até descobrir o sumido..."

A festa à deusa da água reuniu bandos e mais bandos de homens e mulheres. Marinheiros e pescadores. A procissão se desenroscava ao longo da praia. Entupido de rosas, os barcos dançavam na crista das maretas. O perfume das flores se misturava à maresia, no encanto da noite enluarada. Todas as estrelas tinham vindo brilhar nas festa de Iemanjá, garrafas com velas acesas espetadas nos gargalos boiavam na água. Começaram as cantorias. E o coro se uniu, glorificando, numa prece de ritmo bárbaro, a mãe das ondas, protetora dos navegantes. Mãos atiravam as rosas dos barcos sobre o mar.

Maninha se refugiou na ponta da praia, entre os pedroucos mais rasos. Acendeu a vela e soltou a garrafa. Ajoelhou-se e suplicou: "Mãe Iemanjá, tem piedade de mim, me traga o Júlio ou me leve onde ele está!" A garrafa não seguia, presa a uma pedra. O luar da noite realçava, na areia, o perfil dos vultos que a procissão arrastava, cantando. Maninha rezou de novo. O reflexo da lua dourava as ondas, reflexo vivo. Uma forma humana! Maninha estremeceu. "Iemanjá!" A garrafa se moveu, e a vela andou. Maninha sungou a saia, caminhando na água, no rastro da vela. Iemanjá empurrava a vela. O mar chegava nos seios de Maninha. Uma onde lhe pulou nas faces, entrando pelos olhos, pela boca, pelas narinas. Não tinha mais ponto de apoio. E a vela a levando, levando, levando...

Agora, quando, nas noites em que a lua cheia rola entre as vagas, se escuta uma voz cantando nas lonjuras oceânicas, ninguém diz mais que é a voz de Iemanjá. Todos falam que é a voz de Maninha, cantando nos braços do seu amor que ela encontrou no fundo do mar...

(Constantino, Antônio. "Iemanjá". Paralelo 38)