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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Panacéia

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Panacéia
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Cirurgias, garrafadas e mezinhas, benzeduras e outros processos de curar, por Saul Martins

Iemanjá, por Antônio Constantino

"Vai-tiarré" e outros esconjuros, por Guilherme Santos Neves
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Catavento
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Almanaque
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PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


Medicina popular
cirurgias, garrafadas e mezinhas, benzeduras e outros processos de curar

Saul Martins

O velho Apolinário da Ferrugem ainda é considerado pelos moradores da beira do córrego Macaúbas, do município de Januária, o maior curandeiro do mundo. Começou a ganhar fama desde a operação que fez no seu compadre Martim Carapuça, portador dum cisto na cara. Com efeito, bebericavam os dois amigos numa venda do Bonito, quando Apolinário saiu com esta:

— Ô cumpadre ancê cum esse morro inriba do zóio é prú gosto! Se quisé iô vô fazê uas operadeza in ancê e agaranto qui fica bão.

Animado pela vinte-e-seis, Martim anuiu:

— Uai, cumpadre! Se ancê agarante mermo pode aprepará as ferramentas quiô tô atriçurado pra mode ficá livre desse lumbim.

Apolinário tirou o cabo-de-pau da bainha, esfregou-o no chão duro e fez duas incisões profundas, em forma de cruz, sobre o lobinho, dele retirando o excesso. Em seguida, chocalhou cachaça na boca e escaldou a cesura para combater a hemorragia.

E quinze dias depois Martim Carapuça estava completamente são!

Doutra feita Apolinário foi chamado a intervir, noutro caso, agora passado assim:

Procope Leitão fora cedo para a roça e eram já cinco da tarde e não havia chegado para o almoço. A esposa, incomodada, foi atrás dele, mas o encontrou sem sentidos, caído sobre uma poça de sangue, com a cabeça partida e todo coberto de abelhas. Como se verificou mais tarde, três indivíduos haviam feito aquela maldade e fugiram na suposição de tê-lo morto. Deram-lhe várias cacetadas e um terrível golpe de foice que lhe arrancou um pedaço da caixa craniana. A pobre mulher cobriu de ramos o marido e foi buscar recursos.

Apolinário acodiu rápido.

Despejou ele azeite de mamona sobre a cicatriz e cobriu-a com um caco de cuia, amoldado segundo os contornos do talho, e costurado com linha virgem.

E Procope Leitão ainda viveu seis anos, ficando careca como é natural, na parte da emenda.

Quando conheci Apolinário perguntei-lhe como benzia e quais medicamentos empregava para curar seus doentes, tendo ele me respondido:

— Num adianta ancê querê aprendê, inhornão! A reza só serve se fô insinado pur ua muié. Taméim as muié pá sé boa rezadêra teim  caprendê benzê cum home, ancê intendeu?

E passou a ditar para mim os seus processos de prevenir males e curar doenças.

"Pá dó de barriga, num hái cuma chá de potérra, ou antonce ua beberage de cunzimetão de calunga.

Pá imbigo grande de minino cunheço mais de cinquente remédo qui é tiro e queda. Cumá pur exempo cortá um tampim de abroba qui ainda tá, cresceno lá na rama, aperta tréis véis no imbigo do minino e torna a botá o tampim na abroba pá sará.

Se fizé isso trêis sexta fêra insiguida, sás abroba sará e crescê o minino taméim sara do imbigo e fica tudo normá.

A mesma coisa pode se feita cum pé de gamellera, ou de pinhão, sirvino taméim prá rindidura, carne quebrada, osso disnocado, ou custela quebrada. Taméim pode bota ua nica de cruzado inriba do imbigo ou quaerqué rindidura qué mermo qui tirá a duença cá mão. Taméim é bão marrá o currião do padrim de betismo inriba do imbigo do minino, apois cum os adjutóro de Deus-Nossinhô tá curado.

Pá maléta um remédo bão é cachaça cum raiz de fedegoso e semente de sacupira. Taméim serve pá dó de romatismo.

Pá instancá sangue num teim cuma cabelo de gato, istêrco de cavalo e amarrá ua páia de mio inriba da cizura.

Pá largá de bebê o mió remédio é pô na garrafa um tiquim de terra de sumitero, ou botá cachaça na carne fresca e odispois dexá trêis dia de infusão, iscorre e dá pá tomá seim ele sabé de nada.

Agora sancê quisé fazê a mardade de ua pessoa dá prá beberrão é só pô cachaça na boca e odispois vortá ela da boca prá garrafa e dá o póbi pá bebê. Esse coitado num larga mais nunca de bebê cachaça.

Pá duença do ári os mió remédio é couro e dente de guará. O couro ancê dá prele bebê na cachaça e o dente pá marrá no pescoço e dexá perde pru si. Taméim é bom tirá a camisa do duente azavéssa inconte tivé no ataque e tangê nágua corrente. É bom taméin botá um arco de quadó cuma purséra no braço e dexá inté perdê conde quisé. Ou antonce botá um ané de tiú no dedo inté conde quebrá pur si, apois nesse dia a duença taméim quebra prá nunca mais na pessoa.

Ôta meizinha qué mermo qui purrete pá duença do ári é o sumo do andú.

Pá febe braba num hái cuma cristé de cunzimento de perêra, ou antonce iscarda-se dum sáli e sumo de son caetano.

Pá tê bom parto a muié qui tivé prenha deve pô capim ou mio na saia vistida azavéssa e dá cavalo pá cumê. Óto remédio bão é vesti a camisa do marido, azavéssa, ou bebê água do cano da inspingarda despejada no chapéu do pai do minino, ou antonce no istribo da sela qui o pai andô muntada. Taméin é bão inguli trêis didáli dágua aparado na bica das téia da porta principá.

Pá dentição é só marrá no pescoço dente de jacaré, buzo; pêda de inxôfe; butão da cinhôra do pai, ou do padrim; caroço de mulungu; feijão preto; figa feita de mão de pilão, ou de cabo de machado; ua bolsinha chêa de sáli do mar levado pá igreja e assisti à missa toda de juêio cum ele apertado na mão e odispois dá o mínimo; ou antonce dá leite de cachorra pá bebê.

Pá minino num chorá di noite num tem cuma forrá a caminha cum couro de coéio ou botá um saquim de farinha dibaxo do trabissero.

Pá queimadura num teim cuma barrela de boi, sabão de dicuada, gáis, ovo de anum, ólo de mamona preta, suma de foia de juá. Sá queimadura fô de pimenta, ainda qui seja no zóio, é só metê a cabeça no pulero qui fica são.

Pá murdidura de bicho ruim os mió remédo é ua xicara de gáis prá bebê, ou insopá um pano e botá inriba da murdidura, ou antonce fubá de pau pode prá bebê misturado cum cachaça, raiz de cascavel, raiz de cabôco, raiz de pente de macaco, ou apricá inriba de cizura as tripa quente da coba ou da lacraia que ofendeu o vivente.

Pá cicura o mió remédo é bebê água e jogá o resto pá trais.

Pá sarampo num hái cuma chá de lagartixa botada viva na isculatêra ferveno, chá de jasmim de cachorro, de urucum, de açafrão, de fulô de sabuguero, ou ua tachinha de isterco de gado pá fazê o chá e dá pá bebê.

Pá romatismo e dó nas cadêra é fazê um cunzimento de caqueja, picão, quato dedo de fumo de rolo nua panela virge. Odispois bata a água na bacia e junta dois tijolo virge, quente, tirado da cajê naquela hurinha. A gente dá o banho geráli na pessoa seim dexá tomá vento. Inrola o duente num cobertô e vai prá cama ficá de resguardo o dia todo".

E passando às bezenduras diziam-me Apolinário da Ferrugem:

"Um mode bão pá benzê fogo servage é pegá trêis rama verde e i fazeno cruis inriba das infrimidade, falano assim cure o duente:

— Cumpadre, mará arde?
— Num arde.
— Que qui arde?
— Fogo servage!
— Antonce cum ramo verde e água fria. Cura os pudé de Deus e da Virgê Maria. Fogo servage vai arribá. E sumi ca ventania!

Quispois a gente reza trêis Ave-Maria e oferece pá Nossa Sinhora, joga água na pessoa binzida e tange os ramos verde pá tráis." (...)

(Martins, Saul. "Medicina popular; cirurgias, garrafadas e mezinhas, benzeduras e outros processos de curar". Diário de Minas. Belo Horizonte, 08 de abril de 1951, suplemento literário, p.1, 5)