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Demetrio Dias de Morais
Das épocas mais distanciadas da nossa era contemporânea, muitos tradicionais e
interessantes costumes populares estão desaparecendo ou apagando-se da nossa
memória... Com o término daquelas gerações, tantos e variados divertimentos ou
crendices dos homens do nosso pago estão ficando no longínquo período dos tempos
que se foram.
Nas fazendas do Rio Grande era costume tradicional o levantamento de mastros
sendo um de São João e outro de São Pedro ou do Divino. Era o mastro, uma vara de
pinheiro descascado bem direita, com 10 a 15 metros de comprimento, levando na
extremidade superior um quadrinho de madeira com um pano branco bordado a linha
vermelha. O mastro de São João tinha no pano a figura de um menino com um
cordeirinho nos braços. Essa figura tinha um aspecto de um adolescente de
extrema meiguice. O mastro de São Pedro levava a figura impoluta do grande
apóstolo, com um chave na mão direita, ou então, simplesmente a chave bordada ao
centro do quadro. O mastro do Divino, levava a figura de uma pombinha bordada ao
centro do quadro.
A solenidade do levantamento desses mastros era sempre no dia em que se
festejava o santo, consistindo numa alegre festinha onde erguia enorme fogueira
de lenha, arranjada à maneira de um quadrado. Faziam-se balões de papel de seda
em cores variadas, com uma mecha embebecida em querosene, o qual se enchia de
fumaça soltando ao ar. Os balões, apesar da proibição, ainda hoje se fazem, e,
as fogueiras se fazem muito em nossos próprios dias. Foguetes bombinhas,
trabucos carregados a pólvora, taquara verde ao fogo e tudo o que pudesse
produzir detonação, iam com a algazarra da gente nova enchendo aqueles lares
campeiros, de feliz e folgazã felicidade.
Com as dificuldades daqueles tempos, para se obter um padre para as cerimônias
dos batizados e dos casamentos, ou para se fazer preces nos dias de festa
de guarda, ou, ainda, quando alguma praga devastava as lavouras, peste no gado,
ou qualquer calamidade, se faziam terços de promessa. Constituiam essas
cerimônias religiosas em reuniões em determinados lugares, algumas até mesmo nos
cemitérios e, a oficiante era sempre uma negra velha ou mulata rezadeira. Também
havia homens oficiantes.
Debaixo da tenda improvisada, muitas vezes uma ramada ao ar livre, sob a qual se
armava tosco oratório, repleto de imagens. Ali, todos ajoelhados cantavam em
coro com o/a oficiante. Quase sempre, debaixo da armação do oratório estava o
material da festança, que consistia em grande quantidade de garrafas de bebidas,
cana pura e outras comilanças.
Nas rezas que se cantavam, notavam-se algumas em versos como estes por exemplo:
O maestro de São João
Stá co'a bandeira lá encima,
A pombinha stá dizendo:
Viva a Cruz, viva o Divino
Como se vê, a rima está imperfeita e a métrica é quebrada.
Outros como estes:
As pedras de Santo Antão
Bem querem aflorescer.
Como os pecados são muitos,
Flores não querem nascer.
No fim do terço, todo o mundo beijava o santo e a gaita velha de um caboclo
começava a repinicar, concitando a indiada para o arrasta-pé que devia se
realizar na casa da oficiante ou na casa do festeiro promotor da solenidade.
Outro costume, também já extinto nas nossa campanhas era aquele da bandeira do
santo peregrinando pelo mundo afora, esmolando em benefício da festa que deveria
se realizar nalguma capela do interior.
O "fulião", como era chamado o indivíduo que conduzia a bandeira, levava uma
bandeira com a figura do santo que devia ser festejado e um gurizote com um
tambor. Seguiam pelas estradas afora, e, quando aproximavam-se de uma fazenda ou
casa qualquer, o rapaz batia o tambor até junto à morada, onde eram recebidos
com toda a solicitude.
A bandeira era apanhada pela "senhora dona", das mãos do fulião ainda a cavalo e
era conduzida para o interior da casa depositada na sala para todos beijarem o
santo.
O fulião era, um sabidão de primeira ordem. De tudo ele dava notícias, dos
mexericos, da política, da festa e quando pernoitava numa casa, contava coisas e
coisas, até altas horas da noite.
Alguns deles eram violeiros e nas varandas das hospitaleiras fazenda, cantavam e
tocavam viola.
Era muito comum, quando a bandeira aproximava-se de uma casa, em hora bastante
adiantada, o fulião chegar cantando:
A bandeira do Divino
Aqui vem muito cansada,
A pedir ao senhor dono
Que lhe dê uma pousada
Muitas vezes o populacho malcriado fazia, chacota desse velho e inocente
costume.
Assim, diziam quando uma bandeira, aproximava-se de uma casa, o tambor
exclamava:
Vou roubá, vou roubá,
Vou roubá bá bá
Vou roubá bá bá
Vou roubá bá bá bá!
E quando saía da casa dizia:
Já roubei, já roubei,
Já roubei bei bei
Já roubei bei bei
Já roubei bei bei bei!
Além de muitos outros, temos ainda um costume velho, também, já quase
completamente desusado. Era a reunião da vizinhança para o trabalho das
lavouras. Pachirão — muxirão ou picheirão, chamavam.
Nas lavouras, a rapaziada em vozerio alegre, extendia-se pela testada interior;
cortando coivara e levantando terra preta e fértil no fio dos enxadões largos e
afiados.
— Oi, chiqueiro, nhô Chico... gritava um.
— Guaxo não faz chiqueiro... retrucava o outro.
E o farfalhar dos roceiros prosseguia num afanado trabalho de enxadas, cujos
resultados iam aparecendo.
— Passe um trago pro Néco... que o "tamanduá" já está nele...
— "Tamanduá Mirim" não pega índio retovado...
E, o garrafão de cana pura, daquela que vinha de Torres, ia passando de mão em
mão até o seu completo esvaziamento.
Num puchirão é assim ninguém pode dar "mamá" à enxada porque recebe um mundão de
dixotes e um "chiqueiro", que é coisa vergonhosa para um roceiro. Todos
trabalham com ardor e afinco, primando pela dianteira no eito e com isso o bom
resultado se vê logo.
O anfitrião larga a ferramenta, olha o sol, senta-se num toco ou numa coivara,
observa o trabalho já feito e depois, olha ao sol novamente e diz:
— Tá na hora da bóia, moçada!
— Oi, o Rafael na indiada...
— Iiiiiiiiiiiiii! uuuuuuuuuuuuuuuu....
— O churrasco...
— A cachaça...
— Pro rancho...
E num labirinto de vozes e gritos, a moçada guapa segue ao arroio para lavar o
rosto e as mãos para o almoço.
No acampamento, crepita o churrasco assado, de carne de vaca, de ovelha ou de
leitão. A indiada estende algum pelego, alguns puxam o macaio e vão cortando
para empaliar o tempo até que chegue a sua vez de cortar o assado.
Depois de terminado o puchirão, logo à tardinha, a rapaziada retira-se para se
preparar para o baile do puchirão. Esse baile é realizado na casa do favorecido,
sendo os convivas muito bem obsequiados com doces, bebidas, etc...
Tantas vezes aparece por ali algum intruso caracterizado por gente que não tomou
parte no puchirão e nem teve para o baile. Esse indivíduo é o "carancho" como
dizem os gaúchos. É olhado de esguelha pelo dono da casa, mas quando fica
quietinho num canto, nada lhe acontece. Há ocasiões em que os tais "caranchos",
já pelas tantas horas, quando a indiada está no auge da alegria, influenciada
pela bebida, resolvem tomar parte da brincadeira e à primeira dama, que se
achega, leva um carão com uma desfeita, o carancho desaparece da
festa e algum meio afoito, insulta a prenda que lhe deu o carão provocando com
isso a reação natural dos parentes ou namorados. Aí, a coisa fecha num tumulto
medonho de socos facadas, tiroteio, pancadas e tantas vezes até ferimentos
graves ou mortes se ocasionam nessas festinhas simples dos gaúchos da serra.
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