Jangada Brasil
  

  Jangada Brasil  | RealejoProvérbios  |  No Estradão  |  Amigos da Jangada  | Contato  | Mapa do Site

Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

palhoça

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Palhoça
....................................
Os caiçaras e o lar, por Joaquim Ribeiro

A fantasia de baiana, por R. Magalhães Júnior

Velhos costumes que se foram, por Demetrio Dias de Morais
....................................

Capa
....................................

Festança
....................................
Cancioneiro
....................................
Imaginário
....................................
Oficina
....................................
Colher de Pau
....................................
Panacéia
....................................
Catavento
....................................
Almanaque
....................................
 

Edições anteriores
Seleções temáticas
As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
Bibliografia utilizada
Saiba mais sobre a Jangada Brasil
Contatos
 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


Velhos costumes que se foram

Demetrio Dias de Morais

Das épocas mais distanciadas da nossa era contemporânea, muitos tradicionais e interessantes costumes populares estão desaparecendo ou apagando-se da nossa memória... Com o término daquelas gerações, tantos e variados divertimentos ou crendices dos homens do nosso pago estão ficando no longínquo período dos tempos que se foram.

Nas fazendas do Rio Grande era costume tradicional o levantamento de mastros sendo um de São João e outro de São Pedro ou do Divino. Era o mastro, uma vara de pinheiro descascado bem direita, com 10 a 15 metros de comprimento, levando na extremidade superior um quadrinho de madeira com um pano branco bordado a linha vermelha. O mastro de São João tinha no pano a figura de um menino com um cordeirinho nos braços. Essa figura tinha um aspecto de um adolescente de extrema meiguice. O mastro de São Pedro levava a figura impoluta do grande apóstolo, com um chave na mão direita, ou então, simplesmente a chave bordada ao centro do quadro. O mastro do Divino, levava a figura de uma pombinha bordada ao centro do quadro.

A solenidade do levantamento desses mastros era sempre no dia em que se festejava o santo, consistindo numa alegre festinha onde erguia enorme fogueira de lenha, arranjada à maneira de um quadrado. Faziam-se balões de papel de seda em cores variadas, com uma mecha embebecida em querosene, o qual se enchia de fumaça soltando ao ar. Os balões, apesar da proibição, ainda hoje se fazem, e, as fogueiras se fazem muito em nossos próprios dias. Foguetes bombinhas, trabucos carregados a pólvora, taquara verde ao fogo e tudo o que pudesse produzir detonação, iam com a algazarra da gente nova enchendo aqueles lares campeiros, de feliz e folgazã felicidade.

Com as dificuldades daqueles tempos, para se obter um padre para as cerimônias dos batizados e dos casamentos, ou para se fazer preces nos dias de festa de guarda, ou, ainda, quando alguma praga devastava as lavouras, peste no gado, ou qualquer calamidade, se faziam terços de promessa. Constituiam essas cerimônias religiosas em reuniões em determinados lugares, algumas até mesmo nos cemitérios e, a oficiante era sempre uma negra velha ou mulata rezadeira. Também havia homens oficiantes.

Debaixo da tenda improvisada, muitas vezes uma ramada ao ar livre, sob a qual se armava tosco oratório, repleto de imagens. Ali, todos ajoelhados cantavam em coro com o/a oficiante. Quase sempre, debaixo da armação do oratório estava o material da festança, que consistia em grande quantidade de garrafas de bebidas, cana pura e outras comilanças.

Nas rezas que se cantavam, notavam-se algumas em versos como estes por exemplo:

O maestro de São João
Stá co'a bandeira lá encima,
A pombinha stá dizendo:
Viva a Cruz, viva o Divino

Como se vê, a rima está imperfeita e a métrica é quebrada.

Outros como estes:

As pedras de Santo Antão
Bem querem aflorescer.
Como os pecados são muitos,
Flores não querem nascer.

No fim do terço, todo o mundo beijava o santo e a gaita velha de um caboclo começava a repinicar, concitando a indiada para o arrasta-pé que devia se realizar na casa da oficiante ou na casa do festeiro promotor da solenidade.

Outro costume, também já extinto nas nossa campanhas era aquele da bandeira do santo peregrinando pelo mundo afora, esmolando em benefício da festa que deveria se realizar nalguma capela do interior.

O "fulião", como era chamado o indivíduo que conduzia a bandeira, levava uma bandeira com a figura do santo que devia ser festejado e um gurizote com um tambor. Seguiam pelas estradas afora, e, quando aproximavam-se de uma fazenda ou casa qualquer, o rapaz batia o tambor até junto à morada, onde eram recebidos com toda a solicitude.

A bandeira era apanhada pela "senhora dona", das mãos do fulião ainda a cavalo e era conduzida para o interior da casa depositada na sala para todos beijarem o santo.

O fulião era, um sabidão de primeira ordem. De tudo ele dava notícias, dos mexericos, da política, da festa e quando pernoitava numa casa, contava coisas e coisas, até altas horas da noite.

Alguns deles eram violeiros e nas varandas das hospitaleiras fazenda, cantavam e tocavam viola.

Era muito comum, quando a bandeira aproximava-se de uma casa, em hora bastante adiantada, o fulião chegar cantando:

A bandeira do Divino
Aqui vem muito cansada,
A pedir ao senhor dono
Que lhe dê uma pousada

Muitas vezes o populacho malcriado fazia, chacota desse velho e inocente costume.

Assim, diziam quando uma bandeira, aproximava-se de uma casa, o tambor exclamava:

Vou roubá, vou roubá,
Vou roubá bá bá
Vou roubá bá bá
Vou roubá bá bá bá!

E quando saía da casa dizia:

Já roubei, já roubei,
Já roubei bei bei
Já roubei bei bei
Já roubei bei bei bei!

Além de muitos outros, temos ainda um costume velho, também, já quase completamente desusado. Era a reunião da vizinhança para o trabalho das lavouras. Pachirão — muxirão ou picheirão, chamavam.

Nas lavouras, a rapaziada em vozerio alegre, extendia-se pela testada interior; cortando coivara e levantando terra preta e fértil no fio dos enxadões largos e afiados.

— Oi, chiqueiro, nhô Chico... gritava um.

— Guaxo não faz chiqueiro... retrucava o outro.

E o farfalhar dos roceiros prosseguia num afanado trabalho de enxadas, cujos resultados iam aparecendo.

— Passe um trago pro Néco... que o "tamanduá" já está nele...

— "Tamanduá Mirim" não pega índio retovado...

E, o garrafão de cana pura, daquela que vinha de Torres, ia passando de mão em mão até o seu completo esvaziamento.

Num puchirão é assim ninguém pode dar "mamá" à enxada porque recebe um mundão de dixotes e um "chiqueiro", que é coisa vergonhosa para um roceiro. Todos trabalham com ardor e afinco, primando pela dianteira no eito e com isso o bom resultado se vê logo.

O anfitrião larga a ferramenta, olha o sol, senta-se num toco ou numa coivara, observa o trabalho já feito e depois, olha ao sol novamente e diz:

— Tá na hora da bóia, moçada!
— Oi, o Rafael na indiada...
— Iiiiiiiiiiiiii! uuuuuuuuuuuuuuuu....
— O churrasco...
— A cachaça...
— Pro rancho...

E num labirinto de vozes e gritos, a moçada guapa segue ao arroio para lavar o rosto e as mãos para o almoço.

No acampamento, crepita o churrasco assado, de carne de vaca, de ovelha ou de leitão. A indiada estende algum pelego, alguns puxam o macaio e vão cortando para empaliar o tempo até que chegue a sua vez de cortar o assado.

Depois de terminado o puchirão, logo à tardinha, a rapaziada retira-se para se preparar para o baile do puchirão. Esse baile é realizado na casa do favorecido, sendo os convivas muito bem obsequiados com doces, bebidas, etc...

Tantas vezes aparece por ali algum intruso caracterizado por gente que não tomou parte no puchirão e nem teve para o baile. Esse indivíduo é o "carancho" como dizem os gaúchos. É olhado de esguelha pelo dono da casa, mas quando fica quietinho num canto, nada lhe acontece. Há ocasiões em que os tais "caranchos", já pelas tantas horas, quando a indiada está no auge da alegria, influenciada pela bebida, resolvem tomar parte da brincadeira e à primeira dama, que se achega, leva um carão com uma desfeita, o carancho desaparece da festa e algum meio afoito, insulta a prenda que lhe deu o carão provocando com isso a reação natural dos parentes ou namorados. Aí, a coisa fecha num tumulto medonho de socos facadas, tiroteio, pancadas e tantas vezes até ferimentos graves ou mortes se ocasionam nessas festinhas simples dos gaúchos da serra.

(Morais, Demetrio Dias de. "Velhos costumes que se foram". Diário de Notícias. Porto Alegre, 30 de março de 1958, seundo caderno, p.4)