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R. Magalhães Júnior
Deve-se, sem dúvida, ao aplaudido compositor musical Dorival Caymmi a
vulgarização da fantasia de baiana. Quando escreveu a composição Que é que a
baiana tem?, de êxito imediato, alguém se lembrou de incluí-la num filme
musical. E tiveram de ambientá-la, com um cenário da Bahia, no qual Carmem
Miranda surgia, vestida de baiana, ao seu jeito, para cantá-la. Do filme, levou
Carmem Miranda a música para os cassinos e, depois para o exterior, divulgando-a
no palco, no cinema, na televisão. A fantasia foi se complicando e passou a ser
quase uma criação original, apenas sugerida pela autêntica indumentária das
baianas. Mas, por ser a mais divulgada, foi aceita como se fosse a exata, ou a
mais aproximada. É claro que, antes da música de Dorival Caymmi e dos sucessos
de Carmem Miranda, já era popular a fantasia de baiana, com características
outras, menos pomposas, mais discretas e muitas das nossas atrizes do teatro de
revista assim se tinham apresentado. Entretanto, faltava-lhe um meio de
divulgação como o cinema, um prestígio como o de Carmem Miranda e uma música tão
inspirada como a de carnaval que se tornou uma espécie de hino da baianidade.
O carnaval carioca, que era fértil em tirolesas, czardas, damas francesas do
século XVIII, gueixas... por um instante pareceu nacionalizar-se, através
de uma epidemia de baianas de todos os feitios e de todas as cores. Daí para cá,
não há revista, nem show de cabaré que não apresente o seu quadro baiano, nem
compositor que não tenha ido nas águas de Dorival Caymmi, louvando a Bahia e as
baianas. Ari Barroso, que, parece, tinha tentado sem sucesso esse filão antes
dele, numa canção chamada Na baixa do sapateiro, viu de repente ressurgir essa
música como um dos seus maiores e mais merecidos sucessos. Dorival Caymmi já
virou praça, em sua terra natal. Ari Barroso parece que vai virar também, não na
Bahia, de onde não é filho, mas em Uberaba, onde nasceu, embora com grande
oposição do PR, que é, ali, pirrônico, sistemático, aristocrático e não quer dar
bola para um simples compositor popular, embora com o imenso talento do autor de
Aquarela do Brasil. Se ele perder a praça em Uberaba e se os baianos não
cochilarem, ele há de ter como consolo pelos menos um beco, ali pegado à Baixa
do Sapateiro...
Mas, voltemos, à fantasia de baiana. Com seus balangandãs, ou berenguendens,
como querem alguns, a vestimenta das pretas quituteiras da Bahia, — com as quais
tantas vezes têm andado injustamente implicando certos governantes de maus
bofes, — sempre impressionou os visitantes estrangeiros, que desde os tempos dos
vice-reis andaram peregrinando por estas terras. Num país sem trajes regionais
como o nosso, em razão da própria pobreza em que nos afundamos, tinha de um dia
surgir a estilização da indumentária das baianas, para aproveitamento artístico
e carnavalesco. É mais próprio, aliás, do que querer alguém converter as
apertadas calças dos vaqueiros e os seus gibões e chapéus de couro em trajes
regionais, pois que aquilo nunca foi traje e sim uma simples defesa do corpo nos
trabalhos de campo. O vaqueiro só se encoura para entrar pelos carrascais, nas
vaquejadas, na busca de novilhos tresmalhados, na reunião de gado para a ferra.
Realizada a tarefa, imediatamente se desfaz a importuna e pesada indumentária,
que o abafa, faz suar e oprime, mas que tem a virtude única de torná-lo
invulnerável às garras das unhas-de-gato, aos espinhos do xique-xique e da
jurubeba, às farpas dos galhos que se quebram à sua passagem pelos cerrados,
pelas caatingas de vegetação hostil. A roupa do vaqueiro é quase uma blindagem,
reforçada pelo peitoral, e não há nada que mais se aproxime da cota de malhas
dos guerreiros antigos. Não é roupa. É uma defesa, uma carapaça postiça, um
instrumento de trabalho.
Fora disto, temos o traje gaúcho, que não nos pertence porque é comum a toda
região do pampa, tão brasileiro quanto uruguaio e argentino. E os trajes dos
índios, que consistem mais na ausência de trajes, do que neles mesmos. O caipira
não existe: é mera caricatura da indumentária comum, em tecidos baratos,
desajeitamento e mau gosto. A indumentária das baianas estava realmente indicada
para vencer, para se impor.
E quem primeiro a levou do Brasil para a Europa, apresentando-a num baile de
máscaras? Muita gente decerto se surpreenderá ao saber que foi a princesa
Isabel, condessa d'Eu e, então herdeira presuntiva do trono de dom Pedro II,
"fantasiada de pretinha baiana". Foi, sem dúvida, uma originalidade da princesa,
herdeira provável do trono de um Império, apresentar-se assim, com essa
simplicidade, numa festa em que as convidadas iriam fazer a ostentação do maior
luxo. Não apenas simples, mas ainda indicativo de que a princesa se lembrara,
não só de sua terra natal, como ainda, com evidente simpatia, da raça negra que
ela um dia iria libertar...
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