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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

palhoça

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Palhoça
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Os caiçaras e o lar, por Joaquim Ribeiro

A fantasia de baiana, por R. Magalhães Júnior

Velhos costumes que se foram, por Demetrio Dias de Morais
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


A fantasia de baiana

R. Magalhães Júnior

Deve-se, sem dúvida, ao aplaudido compositor musical Dorival Caymmi a vulgarização da fantasia de baiana. Quando escreveu a composição Que é que a baiana tem?, de êxito imediato, alguém se lembrou de incluí-la num filme musical. E tiveram de ambientá-la, com um cenário da Bahia, no qual Carmem Miranda surgia, vestida de baiana, ao seu jeito, para cantá-la. Do filme, levou Carmem Miranda a música para os cassinos e, depois para o exterior, divulgando-a no palco, no cinema, na televisão. A fantasia foi se complicando e passou a ser quase uma criação original, apenas sugerida pela autêntica indumentária das baianas. Mas, por ser a mais divulgada, foi aceita como se fosse a exata, ou a mais aproximada. É claro que, antes da música de Dorival Caymmi e dos sucessos de Carmem Miranda, já era popular a fantasia de baiana, com características outras, menos pomposas, mais discretas e muitas das nossas atrizes do teatro de revista assim se tinham apresentado. Entretanto, faltava-lhe um meio de divulgação como o cinema, um prestígio como o de Carmem Miranda e uma música tão inspirada como a de carnaval que se tornou uma espécie de hino da baianidade.

O carnaval carioca, que era fértil em tirolesas, czardas, damas francesas do século XVIII, gueixas... por um instante pareceu nacionalizar-se, através de uma epidemia de baianas de todos os feitios e de todas as cores. Daí para cá, não há revista, nem show de cabaré que não apresente o seu quadro baiano, nem compositor que não tenha ido nas águas de Dorival Caymmi, louvando a Bahia e as baianas. Ari Barroso, que, parece, tinha tentado sem sucesso esse filão antes dele, numa canção chamada Na baixa do sapateiro, viu de repente ressurgir essa música como um dos seus maiores e mais merecidos sucessos. Dorival Caymmi já virou praça, em sua terra natal. Ari Barroso parece que vai virar também, não na Bahia, de onde não é filho, mas em Uberaba, onde nasceu, embora com grande oposição do PR, que é, ali, pirrônico, sistemático, aristocrático e não quer dar bola para um simples compositor popular, embora com o imenso talento do autor de Aquarela do Brasil. Se ele perder a praça em Uberaba e se os baianos não cochilarem, ele há de ter como consolo pelos menos um beco, ali pegado à Baixa do Sapateiro...

Mas, voltemos, à fantasia de baiana. Com seus balangandãs, ou berenguendens, como querem alguns, a vestimenta das pretas quituteiras da Bahia, — com as quais tantas vezes têm andado injustamente implicando certos governantes de maus bofes, — sempre impressionou os visitantes estrangeiros, que desde os tempos dos vice-reis andaram peregrinando por estas terras. Num país sem trajes regionais como o nosso, em razão da própria pobreza em que nos afundamos, tinha de um dia surgir a estilização da indumentária das baianas, para aproveitamento artístico e carnavalesco. É mais próprio, aliás, do que querer alguém converter as apertadas calças dos vaqueiros e os seus gibões e chapéus de couro em trajes regionais, pois que aquilo nunca foi traje e sim uma simples defesa do corpo nos trabalhos de campo. O vaqueiro só se encoura para entrar pelos carrascais, nas vaquejadas, na busca de novilhos tresmalhados, na reunião de gado para a ferra. Realizada a tarefa, imediatamente se desfaz a importuna e pesada indumentária, que o abafa, faz suar e oprime, mas que tem a virtude única de torná-lo invulnerável às garras das unhas-de-gato, aos espinhos do xique-xique e da jurubeba, às farpas dos galhos que se quebram à sua passagem pelos cerrados, pelas caatingas de vegetação hostil. A roupa do vaqueiro é quase uma blindagem, reforçada pelo peitoral, e não há nada que mais se aproxime da cota de malhas dos guerreiros antigos. Não é roupa. É uma defesa, uma carapaça postiça, um instrumento de trabalho.

Fora disto, temos o traje gaúcho, que não nos pertence porque é comum a toda região do pampa, tão brasileiro quanto uruguaio e argentino. E os trajes dos índios, que consistem mais na ausência de trajes, do que neles mesmos. O caipira não existe: é mera caricatura da indumentária comum, em tecidos baratos, desajeitamento e mau gosto. A indumentária das baianas estava realmente indicada para vencer, para se impor.

E quem primeiro a levou do Brasil para a Europa, apresentando-a num baile de máscaras? Muita gente decerto se surpreenderá ao saber que foi a princesa Isabel, condessa d'Eu e, então herdeira presuntiva do trono de dom Pedro II, "fantasiada de pretinha baiana". Foi, sem dúvida, uma originalidade da princesa, herdeira provável do trono de um Império, apresentar-se assim, com essa simplicidade, numa festa em que as convidadas iriam fazer a ostentação do maior luxo. Não apenas simples, mas ainda indicativo de que a princesa se lembrara, não só de sua terra natal, como ainda, com evidente simpatia, da raça negra que ela um dia iria libertar...

(Magalhães Júnior, R. "A fantasia de baiana". Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 1954)