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Joaquim Ribeiro
O lar do caiçara difere do mocambo. É uma casa de pau-a-pique, feita de barro
a sopapo, coberta de sapê. Alguns pescadores, ligados por parentesco aos
sitiantes, dispõem de terra. Pescador não planta, mas a esposa, geralmente,
cuida do milharal, do mandiocal e das touceiras de cana; semeia-se feijão,
colhe-se abóbora, que nasce sem necessidade de cuidados agríciolas, e, às vezes,
constroem-se engenhocas para as "farinhadas". A base da alimentação, porém, é o
peixe. Comem "beijus", como sucedâneo do pão.
O casamento está intimamente relacionado com pitorescos rituais mágicos,
levados a efeito no São João. Um destes é o das canoinhas, que Virgílio
Várzea assim descreve:
"Outras raparigas... queriam saber se os seus noivos viriam de fora e de que
banda seria. Corriam até a praia, lançavam à água uma casca de laranja
cavoucada, com um biquinho de vela aceso dentro. Punham-se depois a olhar o rumo
que levavam as luzinhas nas ondas. Se uma ia para o norte, o esposo que a sorte
reservava viria, sem dúvida, do norte, e assim as que tomavam outra direção. Mas
se a luz soçobrava ou dava à costa, ou apagava, então o noivo não vinha de fora;
era dali mesmo, do lugar, ou a dona da canoinha não viria a casar e
morreria solteira". (Mares e campos, p.55-56)
Virgílio Várzea, além da prova das canoinhas, tipicamente praiana,
lembra outras experiências rituais:
"Algumas apelavam para a sorte da clara do ovo num copo cheio d'água e outras
para um pedacinho de papel, com um nome de homem, enrolado como bilhete de rifa,
e que se expõe ao sereno para abrir".
Nas aldeias, a vida doméstica é exemplar. Os pescadores do sul cantam:
Meu amor é uma laje
Que está no meio do mar
Dá-lhe vento, dão-lhe as ondas
Não se move do lugar
(apud Koseritz)
A firmeza das uniões não é precária, mas consolidada e duradoura.
Filho de pescador tem de ser pescador. Desde criança já são mobilizados para
os trabalhos acessórios da pesca: fincar varais, pôr as redes ao sol, pintar as
canoas etc. Os próprios folguedos infantis revelam uma preocupação marítima,
haja vista o jogo do manja-manja.
Reúnem-se os meninos em forma de roda; cada um escolhe o nome de um bicho do
mar (garoupa, tuarão, sardinha, baleia, camarão etc.).
Um deles inicia assim:
— Garoupa manja sardinha?
O que escolheu a sardinha retruca:
— Sardinha não manja.
O primeiro replica:
— Que é que manja?
O segundo responde:
— Manja camarão.
O que escolheu camarão protesta:
— Camarão não manja.
Diz a sardinha:
— Que é que manja?
Responde o camarão:
— Manja baleia.
O baleia retruca:
— Baleia não manja.
— Que é que manja? — pergunta o camarão.
E assim vai o jogo, cada um dizendo que manja o outro, e o outro sempre
reagindo. Tudo, porém, deve ser feito com rapidez. Quem gaguejar ou deixar de
replicar na ocasião oportuna, é castigado com bolos na mão.
Habituado à vida dos pescadores e às falhas praianas, quando o filho do
caiçara não segue a profissão de pescador, vai ser marujo, geralmente na
navegação de cabotagem. E constantemente vem rever a família.
Esses marujos representam um elo móvel de ligação entre as populações
praianas e os meios urbanos e praticam, sem o saber, o mister de verdadeiros
comerciantes de tradições.
A "cana verde do mar" foi levada pelos praieiros marujos e já nos seus versos
se indiciam sentimentos, que não refletem a psicologia dos caiçaras.
Tal é a versão mais popular:
Ó senhor, mestre do barco
Desça cá, faça o favor
Aqui lhe trago uma carta
Escrita por seu amor
Oli mais ali, leré don, don
Namora quanto puderes
Casamento não é bom
Senhores que estão dançando
Não se encostem nas redes
O convés é muito largo
Para dançar a cana verde
Oli mais ali, leré santinha
Se tua cama tem pulga
Venha se deitar na minha
Ó senhor, mestre do barco
Mande nos dar aguardente
Quando não, eu vou me embora
Levo toda a minha gente
Oli mais ai, leré meu bem
Santo Antônio é pai de todos
Eu não sou pai de ninguém
Ó senhor, mestre do barco
Certa coisa eu vou dizer
O carro não anda sem bois
Eu não canto sem beber
Oli mais ai, leré sereia
A pulga saiu pulando
Depois de barriga cheia
Manuel, nesse cabelo
Passa os dedos bem ligeiro
Que do céu estão caindo
Pinguinhos d'água de cheiro
Oli mais ai, leré cocó
Quem chupa a cana verde
Pede licença à vovó
Entre os pescadores do sul, esse influxo dos marujos pode facilmente ser
demonstrado e, em virtude desses contatos, aí, no ciclo dos caiçaras, a
politização é maior que no ciclo da jangada, salvo na região das salinas.
Os caiçaras, todavia, não perderam o sagrado e quase místico respeito ao mar.
Corre entre eles o provérbio:
Quem brinca com o mar
No inferno vai pagar
Variante:
Quem brinca como mar
Pode se afogar
Orgulham-se as praieiras de serem esposas de pescadores. E o amor dos
caiçaras pode ser apreciado nas líricas trovas dessa gente:
Andei no mar, andei à roda
Todo o mar arrodiei
Nunca conheci trabalhos
Senão depois que te amei
Nas ondas do mar se criam
Peixes que nadam bem
Eu tambpem estou me criando
Para regalo de alguém
Menina dos olhos grandes
Olhos grandes como o mar
Não me olhes com teus olhos
Para eu não me afogar
E as mulheres também cantam:
Toda vez que eu vejo vir
Gaivotas à preamar
Cuido que sao meus amores
Que vêm para me levar
Nesta praia, nesta praia
Quando o vento vem do mar
Meu amor manda saudades
Na voz do vento a soprar
Os cantos dos praieiros do sul são, como os do norte, eivados de lirismo. O
tema do amor é constante. Configura a mentalidade familiar do caiçara, a sua
dedicação à casa de sapê, à aldeia, à praia natal, ao lar humilde e simples.
Gente feliz, sem conflitos, sem tragédias conjugais. A casa acolhedora e a
canoa, primitiva e ligeira, constituem os dois pólos da vida do pescador do sul.
Entre eles, processa-se a epopéia singela e cotidiana dessa gente, apegada ao
litoral, sem ambições, convencida de que a praia e o mar são o princípio e o fim
do mundo, bastante grande para os seus sonhos.
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