|
Em cada parada ou pouso, para jantar ou dormir, os bois são contados, tanto
na chegada como na saída. Nesses lugares há sempre um potreiro (determinada área
de pasto cercada de arame) ou mangueira, quando a cerca é de madeira. Na
porteira de entrada do potreiro, rente à cerca, formam os peões a seringa ou
funil, para afinar a fila. Os bois vão entrando aos poucos na área cercada. Do
lado interno, o condutor vai contando. Vis-à-vis, está o marcador, o peão
que marca as reses. O condutor conta cinqüenta cabeças e grita: "talha". O
marcador, com o auxílio dos dedos das mãos, vai marcando as talhas. Cada dedo da
mão direita corresponde a uma talha; os da mão esquerda, cinco talhas. Quando
entra o último boi, o marcador diz:
— Vinte e cinco talhas!
E o condutor completa:
— E 18 cabeças.
O que significa 1.268 bois. Falta completar a conferência com os bois de
culatra, que chegam muitas horas depois e não entram no potreiro. Festas estas,
o condutor abre a caderneta e vai dizendo:
— 1.268 no potreiro; 87 na culatra; 5 no rio Velho; 3 no rio Acima; saí com
tantos e cheguei com tantos em Água Turva. Confere.
Esse "confere" é ouvido com alívio pelo piqueteiro, aliás o mais interessado
que as contas estejam exatas. A falta de uma rês determina uma arribada. Sucede
às vezes que esta é conseqüência de um erro de contagem. É, então, uma arribada
a seco. Geralmente "dá grandes enguiços" entre o peão e o condutor. A
masculinidade deste e seu poder de domínio sobre a peonada resolvem, na maioria
dos casos, a quizila, que sempre deixa, porém, não pequeno resquício de
malquerença.
A propósito de contagem de bois nos pousos, é conhecida e decantada por todos
os peões a displicência com que um boiadeiro, de nome Portilho, hoje, ao que se
informa, já afastado das lidas, contava a boiada à entrada do potreiro. Mandava
"encher" a porteira, quase sem afinação. Os bois entravam aos magotes e com
rapidez. O velho peão, conversando com um forasteiro ou companheiro de jornada,
apenas gritava de quando em vez: "talha". Acrescentam os peões que o conheceram,
que Portilho jamais provocou uma arribada a seco.
|