Jangada Brasil
  

  Jangada Brasil  | RealejoProvérbios  |  No Estradão  |  Amigos da Jangada  | Contato  | Mapa do Site

Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

oficina

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Oficina
....................................
Os pedreiros e seu trabalho, por Thomas Ewbank

Velhos e perdidos cantos de trabalho, por Guilherme Santos Neves

A contagem de bois
....................................

Capa
....................................

Festança
....................................
Cancioneiro
....................................
Imaginário
....................................
Palhoça
....................................
Colher de Pau
....................................
Panacéia
....................................
Catavento
....................................
Almanaque
....................................
 

Edições anteriores
Seleções temáticas
As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
Bibliografia utilizada
Saiba mais sobre a Jangada Brasil
Contatos
 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...


A contagem de bois

Em cada parada ou pouso, para jantar ou dormir, os bois são contados, tanto na chegada como na saída. Nesses lugares há sempre um potreiro (determinada área de pasto cercada de arame) ou mangueira, quando a cerca é de madeira. Na porteira de entrada do potreiro, rente à cerca, formam os peões a seringa ou funil, para afinar a fila. Os bois vão entrando aos poucos na área cercada. Do lado interno, o condutor vai contando. Vis-à-vis, está o marcador, o peão que marca as reses. O condutor conta cinqüenta cabeças e grita: "talha". O marcador, com o auxílio dos dedos das mãos, vai marcando as talhas. Cada dedo da mão direita corresponde a uma talha; os da mão esquerda, cinco talhas. Quando entra o último boi, o marcador diz:

— Vinte e cinco talhas!

E o condutor completa:

— E 18 cabeças.

O que significa 1.268 bois. Falta completar a conferência com os bois de culatra, que chegam muitas horas depois e não entram no potreiro. Festas estas, o condutor abre a caderneta e vai dizendo:

— 1.268 no potreiro; 87 na culatra; 5 no rio Velho; 3 no rio Acima; saí com tantos e cheguei com tantos em Água Turva. Confere.

Esse "confere" é ouvido com alívio pelo piqueteiro, aliás o mais interessado que as contas estejam exatas. A falta de uma rês determina uma arribada. Sucede às vezes que esta é conseqüência de um erro de contagem. É, então, uma arribada a seco. Geralmente "dá grandes enguiços" entre o peão e o condutor. A masculinidade deste e seu poder de domínio sobre a peonada resolvem, na maioria dos casos, a quizila, que sempre deixa, porém, não pequeno resquício de malquerença.

A propósito de contagem de bois nos pousos, é conhecida e decantada por todos os peões a displicência com que um boiadeiro, de nome Portilho, hoje, ao que se informa, já afastado das lidas, contava a boiada à entrada do potreiro. Mandava "encher" a porteira, quase sem afinação. Os bois entravam aos magotes e com rapidez. O velho peão, conversando com um forasteiro ou companheiro de jornada, apenas gritava de quando em vez: "talha". Acrescentam os peões que o conheceram, que Portilho jamais provocou uma arribada a seco.

(Em "Boiada, comitivas e seus peões". O Estado de São Paulo, 21 de dezembro de 1952)