|
Guilherme Santos Neves
As cidades de hoje não mais apresentam o curioso espetáculo de outrora, quando
às vezes percorriam as ruas os negros carregadores de pianos.
Que era interessante o caso dizem os registros dos viajantes estrangeiros que
visitaram o Brasil até o século XIX, e entre eles, F. Biard. Este francês,
que veio ao Brasil em 1858 (e que esteve no Espírito Santo em 1860) não se
cingiu apenas a descrever a passagem dos negros carregadores, mas fixou-os no
desenho a bico de pena.
Diz o visitante francês à página 80 do seu livro Deux années au Brésil (Paris,
1862): "Num dos primeiros dias de minha estada [no Rio de Janeiro] movido pela
curiosidade fui forçado a deixar minhas atividades. É que ouvira certos sons
estranhos, repetidos de um a outro extremo da rua: tratava-se simplesmente de
uma mudança. Cada negro levava um móvel, pequeno ou grande, conforme sua escolha
ou conveniência; todos corriam juntos repetindo uma ou duas silabas acompanhadas
de sons guturais (...) na esteira da longa fila (formada de uns cinqüenta
negros) vinha, gravemente conduzido por seis homens, um piano de cauda; à
frente, um deles fazendo de chefe de orquestra, empunhava uma cabaça cheia de
pedrinhas; com esse instrumento, o negro marcava, alegremente, o compasso. O
piano era levado nas cabeças, sem qualquer auxílio das mãos, hábito generalizado
entre os pretos".
Aliás, esse modo sonoro de conduzir carga não era exclusivo dos carregadores de
piano. O pastor metodista Daniel Kidder — que andou pelo Brasil em 1837 ou 1838
—
relata o que viu (e ouviu) também nas ruas do velho Rio: "Os carregadores de
café andam geralmente em magotes de dez ou vinte negros sob a direção de um que
se intitula capitão. São em geral os latagões mais robustos dentre os africanos.
Quando em serviço, raramente usam outra peça de roupa além da camisa, para não
incomodar. Cada um leva na cabeça uma saca de café pesando cento e duas libras
e, quando todos estão prontos, partem num trote cadenciado que logo se
transforma em carreira". E prossegue nas suas Reminiscências de viagens e
permanência no Brasil" (São Paulo, Livraria Martins, 1940, p.47): "Sendo
suficiente apenas uma das mãos para equilibrar o saco, muitos deles levam, na
outra, instrumentos parecidos com chocalhos de criança, que sacodem marcando o
ritmo de alguma canção selvagem de suas pátrias distantes". E afinal confessa o
pastor norte-americano; "Não é fácil ao forasteiro esquecer a impressão que lhe
causa o alarido confuso de centenas de vozes simultâneas". Ilustra essa notícia,
também, um desenho que representa seis negros correndo com os sacos à cabeça e,
os dois da frente, com chocalhos na mão esquerda.
Mas voltemos aos carregadores de pianos.
Através de informações de outros autores, nacionais ou estrangeiros, podemos
saber alguma coisa daquilo que cantavam os negros com o piano à cabeça. Segundo
informa Gilberto Freire, em seu livro Casa grande & senzala (Rio de
Janeiro, 2ª ed., 1936,
p.338, nota 1): "Fletcher viu no Rio enormes montanhas de café, movendo-se
como que sozinhas: mas por baixo delas, verdadeiros gigantes negros. Os negros
carregadores de fardos cantavam:
Maria rabula auê
Calunga auê"
Nessa mesma página, referindo-se aos cantos de trabalho dos negros (pois estes
"trabalharam sempre cantando" e "enchendo de alegria africana a vida
brasileira"), o consagrado sociólogo afirma que "os pianos não se carregavam
outrora sem que os negros cantassem:
É o piano de yoyô,
é o piano de yayá...."
(É possível que o "piano ioiô, piano iaiá" se tenha deturpado na boca dos negros
em "piôio ioiô, piôio ia iâ", velha toada de berimbau).
Mário Sette — também de Pernambuco — focaliza "os carregadores de pianos" num
dos capítulos de seu livro Maxambombas e maracatus (Recife, 1938, p.92) Diz
ele aí que, outrora, geralmente oito homens musculosos, "punham as rodilhas,
formavam de quatro em quatro, e, com o piano nas cabeças, marchavam de rua
afora, de passos militarmente harmonizados em cadência impecável cantando:
Yayá me diga adeus
Olhe que eu vou embarcá
O vapô entrou na barra,
O telégra deu siná...
Um tirava os versos e os outros respondiam em coro:
Zomba, minha negra
Zomba, meu sinhô,
Quem quisé se embarcá
O trem de ferro já chegou..."
Esse espetáculo tão curioso — que impressionava os viajantes estrangeiros e
convocava a atenção de todos — não mais se repete em nossas cidades. Os
caminhões e as "andorinhas" mataram essa tradição das ruas brasileiras. Hoje em
dia, muito trabalho de transporte ainda se faz, exigindo o mesmo esforço
muscular, mas sem aquela glória e suavização dos antigos e perdidos cantos de
trabalho.
|