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Abelardo Duarte
Os contos ou mais propriamente as estórias de pai João que se
incorporaram ao folclore negro brasileiro formam um ciclo interessantíssimo,
tendo como figura central o negro escravo velho, simbolizado em pai João. O
pai Zuão que a tradição ora vai perpetuando através desses enredos ora
zombeteiros, os chistosos, ora maliciosos, dos contos populares. Mas contos
populares que não são de origem negra, sim mestiça quero lembrar. Neles há,
admiravelmente fixados pela imaginação do povo porém, os traços psicológicos do
negro escravo, a sua astúcia, a sua velhacaria, a sua malícia, a sua
ingenuidade. Nesse fundo psicológico, em que se desenvolve a trama dessas
estórias de pai João, sente-se ou percebe-se nos mínimos detalhes a agudeza de
percepção e apreensão do espírito popular.
Obra de inventiva ou ficção dos nossos mestiços cheios de malícia, porque como
mostrou o saudoso folclorista Lindolfo Gomes [1] "por conta do elemento mestiço
ou agente assimilador, se constituiu no país um ciclo de contos tradicionais que
o elemento popular denominou os contos ou histórias de pai João", o ciclo desse
nome encarna ao vivo a história secreta do período do cativeiro. O burlesco e o
facecioso que não podiam figurar certamente em contos eruditos, tiveram
intérpretes perfeitos nos contistas anônimos desse ciclo. Contos existem que
ultrapassam mesmo os limites do publicável.
Pai João é bem um símbolo como dele disse Artur Ramos. Símbolo de que se valeu o
elemento mestiço para desabafo de certos recalques também. A completar-lhe a
personalidade surge mãe Maria a companheira, negra ainda moça e vistosa e que
figura em algumas estórias com significação de baixa moral.
Da coletânea de Lindolfo Gomes, constam cinco contos [2] todos colhidos no estado
de Minas Gerais, sendo ao que parece os primeiros desse gênero registrados no
país. Na primeira edição de seus Contos populares e cantigas de adormecer
(Juiz de Fora, Dias Cardoso & Cia. editores, 1918). Lindolfo Gomes [3] havia
publicado apenas quatro contos — A pedra do diamante, Pai João e mãe Maria,
O que os outros não querem, Pai João e a fritangadas. Posteriormente, essa
coleção foi acrescida com mais um — Pai João e sinhá colhido em Barbacena.
Nas Alagoas, Téo Brandão coligiu dez estórias [4]: Cão de cinzas, Pai João e
a viúva do senhor, Pai João e a moça do sobrado, Pai João e a viúva do
senhor (variante), Pai Mateus e a moça roubada, Pai Gonçalo e as galinhas,
Pai João, Juliana e o moleque, Negros fugidos, Moleque José e o
senhor.
José Maria de Melo, consagrado autor de Enigmas populares (Rio de
Janeiro, Ed. A Noite),
recolheu segundo informa Téo Brandão, um conto desse ciclo de pai João ainda
inédito, São Benedito de Roma, no Engenho Baixa Funda nas Alagoas.
As estórias que a seguir são publicadas foram todas por mim coligidas nas
Alagoas de tradição oral, as duas primeiras no Engenho Hortelã e as restantes em
Maceió. Seguindo o exemplo de outros autores, procurei reproduzi-las com toda a
exatidão, não só na grafia dos modismos peculiares ao negro africano, como no
enredo. Com exceção da última que é uma variante de uma estória bem conhecida,
as outras são inéditas quero crer.
* * *
Pai João e o bicho de pé
Pai João foi à presença da senhora reclamar contra o modo de vida que levava.
Todo blandicioso começou:
— Pai Zuão, não guenta mai de ziriviço, não pode comê aberém sossegado. É pai
Zuão pra qui, pai Zuão pra colá.
— Que quer, pai João? perguntou-lhe a senhora.
Animado com a atenção que lhe foi prestada, deu logo em cheio a resposta:
— Pai Zuão tá véio, zinhora. quere vivê como mê zinho baranco.
— Era só o que faltava, pai João! Conhece o seu lugar negro metido.
No dia seguinte, pai João voltou à carga:
— Êh, êh, Pai Zuão não pode mal sengá arroze pilado, pai Zuão quere passá como mê
zinho baranco.
— Está bem, está bem, pai João. Para começar vida nova vou mandar dar-lhe roupas
e sapatos, respondeu-lhe a senhora.
Dias depois, volta pai João à casa grande meio desconfiado, metido na fatiota
nova de brim riscado, mas descalço.
E ante a estranheza da senhora, foi se explicando:
— Pai Zuão quelia vivê como mê zinho baranco, ixo [isso] quelia, mais nun ai
lembrava de bicho de pé.
E saiu todo desconfiado, resmungando baixo:
— Mi zinhora, tatarné lambê, oi, oi...
Pai João e as criações
Certa vez um senhor de engenho chamou pai João e encarregou-o de tomar conta da
criação que estava desaparecendo. Fez-lhe severas recomendações, pois estava
desconfiado de que não era a raposa que lhe comia os pintos.
— Deve haver gente sabida metida nisso, resmungou o senhor de engenho.
— Deixe estare mê baranco ziraposa nem gambá nun entra nu mê têrêro,
tranquilizou-o Pai João. Xipaio esses bicho todo de cacete.
Passados uns dias, o senhor de engenho vai ver as coisas como andam pelo
terreiro e, com surpresa, acha ainda menor o número de aves.
Desconfiado cada vez mais das astúcias dos negros, chamou pai João à sua
presença e ordenou-lhe:
— Vamos contar as criações na minha vista, pai João! Não quero mais prosa, vamos
logo!
— Êh, êh, mê zinho baranco tem confiança na palavra de pai Zuão; ninguém lá
enganando mê zinhô.
E pai João foi engabelando o senhor de engenho, hoje com uma desculpa, amanhã
com outra, até que um dia não se conteve mais o senhor de engenho e "apertou"
com o negro no couro cru.
— Ou diz ou entra na chibata!
Quando a pêia lhe batia no lombo, o negro cantava:
Galina tá nu xiqueiro
Mundiça no cercado
Pai Zuão não é bumbo
Pra ter couro surrado,
Ai, ai, ai, oi...
Desse dia em diante as galinhas não desapareceram mais.
Pai João e o cordão de ouro
Mãe Maria, negra moça e vistosa ainda para pai João, negro velho velhaco, casado
com ela, possuía um cordão de ouro que era todo o seu encanto e vivia trancado
num baú de couro de boi.
Nos dias de festa, mãe Maria, botava o cordão de ouro no pescoço e saía como se
fosse moça branca.
Pai João quando via a mulher enfeitada com o coração de ouro bem areado no
pescoço, ralhava logo com ela:
— Deixa ixo, Malia!
O negro foi envelhecendo e a medida que a carapinha ia cada vez mais
embranquecendo não perdia de vista o enfeite de ouro de mãe Maria.
— Ou Malia, cadê o cordão de ôro que mê zinho deu?
— Pai Zuão, cordão tá guardado na camarinha.
Passavam-se os dias e quando menos esperava, Pai João voltava a pergunta
costumeira:
— Ou Malia, cadê cordão de ôro que mê zinho deu?
— Pai Zuão, cordão tá guardado na camarinha.
Os anos foram caindo sobre o costado do negro velho. Cada vez mais pai João as
alquebrava ao peso delas. Até que um dia pai João adoeceu para morrer. Vendo que
estava próximo a sua hora final pai João lembrou-se do diabo do cordão de ouro
de mãe Maria. E teve uma idéia súbita:
— Êh, êh! Pai Zuão tá no chôco. Mãe Malia! Pai Zuão tá de moré!
Vai lá ni baú traze gorro de congo pra ieu e água de ôro pra bebê.
Com essa artimanha, o negro velho lembrava, velhaco que com o cordão de ouro lhe
podiam satisfazer o último desejo. No baú de couro estavam guardados o gorro de
congo e o rico cordão de ouro de mãe Maria; associava no seu pedido as duas
coisas.
Aos seus repetidos rogos trouxeram-lhe afinal, uma caneca com água e dentro dela
puseram o cordão de ouro suspirado.
— Nossa Zenhora do Ruzaro mi dê salvação. Ziparecoro adeuse!
Pai João, rápido, virou a caneca d'água toda e lá se foi também o rico cordão de
ouro de mãe Maria de guéla abaixo.
Bicho de massa
Certa vez pai João chegou em casa sem ser esperado e a mulher teve de esconder o
outro parceiro. Ao notar a aproximação de pai João, a negra não teve dúvida.
"Entra pra qui disinfeliz" e meteu o negro no porrão de massa puba. O negro se
espremeu todo e entrou na vasilha, mas agüentou por muito tempo. Aí o negro
começou a se sacudir dentro até que a vasilha virou e ele escapuliu coberto de
massa.
Pai João, sem saber que diabo era aquilo, perguntou meio encafifado:
— Que visage é essa, Mãe Malia?
A negra pespegou uma deslavada mentira em pai João, encobrindo a falta e
avisando ao namorado:
— É bicho de massa, marido. Vá prá cacimba de baixo que a de baixo tem gente.
Notas
1. Lindolfo Gomes. Contos populares e cantigas de adormecer (folklore).
Juiz de Fora, Dias Cardoso & Cia. ed., 1918
2. Lindolfo Gomes. Op. cit. Ed. Melhoramentos
3. Lindolfo Gomes. Op. cit.
4. Téo Brandão. Folclore de Alagoas. Maceió, Casa Ramalho, 1949
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