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Nonato Masson
Contam nas beiras-rios da Amazônia que ela era uma moça virgem, linda com os
amores, que foi violentada pelo irmão índio.
Contam que ela estava de esperança e que o irmão, temendo ser descoberto, a
enterrou num igapó cheio de nenúfares e de vitórias-régias.
Contam que à noite uma porção de iaras debruçou-se a chorar sobre a sepultura da
pobre moça violentada.
Contam que tudo isso aconteceu há muitos e muitos anos, quando Tupã criara as
aves, as feras, as árvores, os igapós e seus dois primeiros filhos, que foram os
dois primeiros índios.
Contam que a moça sepultada, chorou, chorou, chorou muito numa noite de lua
cheia, quando nem o canto do irapuru teve força para alegrá-la.
Contam que ela chorou porque sabia que perderia o filho, que a criancinha
nasceria morta.
Contam que seus seios incharam, incharam, arrebentaram de tão inchados, e o
leite que deles escorreu, mais as lágrimas que saíam dos seus olhos,
atravessaram o igapó e foram deslizando, deslizando, formando rios, enseadas,
fontes, lagos, córregos, angras, baías, igarapés, furos, paranás, poços,
cacimbas e mares.
Contam que seus braços se multiplicaram em muitos braços na tentativa de deter
as lágrimas e o leite que se transformavam em água corrente e fecundavam a
terra.
E contam também que, não conseguindo deter as águas — que se avolumaram formando
os rios Amazonas, Mearim, Itapecuru, São Francisco, Parnaíba, Doce, Araguaia,
Tocantins — seus braços foram alcançados, pelos caminhos, as crianças que
brincavam à beira dos furos, igarapés, fontes, lagos, córregos, angras, baías,
paranás, poços e cacimbas.
Você já ouviu a canção que os rios cantam, rolando seixos entre folhas e flores
pequeninas que se curvam, reverentes, à passagem das águas?
Os rios cantam para agradar a mãe-d'água, para que ela não se zangue e os faça
transbordar. Dizem os pescadores do litoral que quando as mães não cuidam bem
dos seus filhos, a mãe-d'água revolve os mares e provoca as ressacas.
A mãe-d'água é a segunda mãe de todas as crianças dos sertões destes brasis e
mãe adotiva das que ficam órfãs ao nascer.
Os sertanejos juram com os dedos em cruz que muitas crianças já foram levadas
pela mãe-d'água para o fundo dos rios, das fontes, das cacimbas, dos poços. No
Nordeste, por exemplo, há uma porção de meninos e meninas doentes, tristes
cheios de verminose ou batendo o queixo de frio de sezão. Dizem que é por ter
pena
das crianças que a mãe-d'água as leva para o seu reino encantado, único lugar
onde elas podem sorrir e brincar.
Ela é também mãe de todos os negros. Está na mitologia iorubana com o nome de
Iemanjá. Quando seu filho Orugan, apaixonado pela mãe, tentou violentá-la, ela o
repudiou e saiu correndo pelos campos. Já estava o incestuoso ao seu alcance,
quando ela caiu e seu seio começou a crescer. De seus seios saíram duas grandes
correntes de água e o ventre se despedaçou, fazendo-a mãos de quinze deuses.
Esses quinze deuses são os que regem os vegetais, o trovão, o ferro, a guerra, o
mar, os lagos, os rios africanos, a agricultura, os caçadores, os montes, as
riquezas, a varíola, o sol e a lua.
Na mitologia iorubana ela tem ainda os nomes de Janaína, Dona Janaina,
Princesa do Mar, Princesa do Aiocá, Sereia do Mar, Oloxum, Dona Maria
(registrados por Artur Ramos), Rainha do Mar, Sereia Mukunã, Inaê, Marabô e Dandalunda (registrados por Edison
Carneiro).
Mãe de todas as águas, do todos os deuses, de todos os negros e de todas as
crianças doentes e tristes, ela é a mais vaidosa das mulheres.
Se um dia você se encontrar numa beira-rio com uma mulher branca, de cabelos
amarelos, com um olho azul e outro verde e os seios cor-de-rosa, não tenha
dúvida: você viu a mãe-d'água.
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