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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

imaginário

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Imaginário
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O pinto da perna de breu, por Ademar Vidal

A mãe d'água, por Nonato Masson

Ciclo de Pai João, por Abelardo Duarte
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...


A mãe-d'água

Nonato Masson

Ilustração de Marcos JardimContam nas beiras-rios da Amazônia que ela era uma moça virgem, linda com os amores, que foi violentada pelo irmão índio.

Contam que ela estava de esperança e que o irmão, temendo ser descoberto, a enterrou num igapó cheio de nenúfares e de vitórias-régias.

Contam que à noite uma porção de iaras debruçou-se a chorar sobre a sepultura da pobre moça violentada.

Contam que tudo isso aconteceu há muitos e muitos anos, quando Tupã criara as aves, as feras, as árvores, os igapós e seus dois primeiros filhos, que foram os dois primeiros índios.

Contam que a moça sepultada, chorou, chorou, chorou muito numa noite de lua cheia, quando nem o canto do irapuru teve força para alegrá-la.

Contam que ela chorou porque sabia que perderia o filho, que a criancinha nasceria morta.

Contam que seus seios incharam, incharam, arrebentaram de tão inchados, e o leite que deles escorreu, mais as lágrimas que saíam dos seus olhos, atravessaram o igapó e foram deslizando, deslizando, formando rios, enseadas, fontes, lagos, córregos, angras, baías, igarapés, furos, paranás, poços, cacimbas e mares.

Contam que seus braços se multiplicaram em muitos braços na tentativa de deter as lágrimas e o leite que se transformavam em água corrente e fecundavam a terra.

E contam também que, não conseguindo deter as águas — que se avolumaram formando os rios Amazonas, Mearim, Itapecuru, São Francisco, Parnaíba, Doce, Araguaia, Tocantins — seus braços foram alcançados, pelos caminhos, as crianças que brincavam à beira dos furos, igarapés, fontes, lagos, córregos, angras, baías, paranás, poços e cacimbas.

Você já ouviu a canção que os rios cantam, rolando seixos entre folhas e flores pequeninas que se curvam, reverentes, à passagem das águas?

Os rios cantam para agradar a mãe-d'água, para que ela não se zangue e os faça transbordar. Dizem os pescadores do litoral que quando as mães não cuidam bem dos seus filhos, a mãe-d'água revolve os mares e provoca as ressacas.

A mãe-d'água é a segunda mãe de todas as crianças dos sertões destes brasis e mãe adotiva das que ficam órfãs ao nascer.

Os sertanejos juram com os dedos em cruz que muitas crianças já foram levadas pela mãe-d'água para o fundo dos rios, das fontes, das cacimbas, dos poços. No Nordeste, por exemplo, há uma porção de meninos e meninas doentes, tristes cheios de verminose ou batendo o queixo de frio de sezão. Dizem que é por ter pena das crianças que a mãe-d'água as leva para o seu reino encantado, único lugar onde elas podem sorrir e brincar.

Ela é também mãe de todos os negros. Está na mitologia iorubana com o nome de Iemanjá. Quando seu filho Orugan, apaixonado pela mãe, tentou violentá-la, ela o repudiou e saiu correndo pelos campos. Já estava o incestuoso ao seu alcance, quando ela caiu e seu seio começou a crescer. De seus seios saíram duas grandes correntes de água e o ventre se despedaçou, fazendo-a mãos de quinze deuses.

Esses quinze deuses são os que regem os vegetais, o trovão, o ferro, a guerra, o mar, os lagos, os rios africanos, a agricultura, os caçadores, os montes, as riquezas, a varíola, o sol e a lua.

Na mitologia iorubana ela tem ainda os nomes de Janaína, Dona Janaina, Princesa do Mar, Princesa do Aiocá, Sereia do Mar, Oloxum, Dona Maria (registrados por Artur Ramos), Rainha do Mar, Sereia Mukunã, Inaê, Marabô e Dandalunda (registrados por Edison Carneiro).

Mãe de todas as águas, do todos os deuses, de todos os negros e de todas as crianças doentes e tristes, ela é a mais vaidosa das mulheres.

Se um dia você se encontrar numa beira-rio com uma mulher branca, de cabelos amarelos, com um olho azul e outro verde e os seios cor-de-rosa, não tenha dúvida: você viu a mãe-d'água.

(Masson, Nonato. "A mãe-d'água". Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 18 de maio de 1965)