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Ademar Vidal
Na baixada do Jaguaribinho o mundo se povoa de visões extravagantes. As
noites se enchem de movimentos misteriosos. Vive-se em aperreio sobressaltado. E
no meio dessa complicação uma bruxa manobra o pequenino centro de atividade com
as suas estranhas determinações. Todos lhe têm respeito, ninguém quer embaraços.
Bruxa sempre conta com poderes invisíveis e notoriamente malignos. Essa mulher
envelhecida e afinada pela miséria física, toda cabeluda, unhas salientes,
possui uma galinha diferente das outras galinhas, nas cores misturada — e que
raramente passeia em outros terreiros. O certo é que de uma aventura amorosa que
teve por fora lhe veio farta postura. Pôs o ovo inaugural exatamente na primeira
sexta-feira de agosto. Tinha extraordinário tamanho. Foi deitado e encubado com
rezas fortes, dele saindo um pinto já entroncado, a cantar como galo, com voz
grossa, e que entrou logo a cocoricar as galinhas da vizinhança.
Esse pinto feito galo, nasceu defeituoso: possui pernas de breu. Só podia ser
artes do cafute. Mas havia de ter a sua significação lógica. Imediatamente
concluíram todos que a bruxa se achava nele encantada. Isto ainda mais tomou
raízes na crendice popular pelo fato da velha haver morrido ao mesmo tempo em
que o pinto viera à luz. De modo que flagrante aura de desconfiança entrou a
pairar na existência do galináceo, olhado a distância — e de quem ninguém queria
se aproximar. Constitui perigo social que precisa ser evitado a todo pano.
Demais se diz que, durante a noite, principalmente nas noites frias de junho,
ele toma formas de "cavalo do cão", a correr, em saltos alados, como um
desesperado pelas redondezas e a fazer toda sorte de diabruras inimagináveis.
Então, costuma desprender faíscas fosforecentes das pernas de breu, atacando os
desprevenidos que passam na estrada ou que se destinam à cidade.
Nesses ataques deixa a sua vítima de tanga, desprovida de tudo quanto
possuía. Fica muita vez nuinha. Cheia de queimaduras e por cima destas não se
descura de pôr água salgada com areia. Evidentemente um malvado que se delicia
com o sofrimento alheio. A marca tem de ficar para sempre como estigma de
perseguição quando não sistemática pelo menos orientada. Orientada porque as
feridas se tornam conhecidas de toda gente. Basta olhar-se de relance para
compreender qual a sua origem: apresenta invariavelmente a mesma conformação
amarela a escorrer caldo fino. Ou salmoura. Não cessa aquela fonte vermelha de
motivar dores tormentosas. As feridas não saram senão depois de muito tempo. E
ainda assim fica o cascão que se renova sempre. Cai, mas cria outro.
O duende de pernas de breu está a merecer ataque de morte. Inadiável se faz
sentir essa reação que venha acabar com existência tão perigosa. Cavalo do cão
que reclama sumária morte diante do clamor público. Porém o bicho não pode ser
pegado. Impossível eliminá-lo na hora em que agride. As sombras favorecem-no. E
o serviço que faz é bem feito, é completo — e as vítimas que o digam. Não há
outra alternativa que não seja ir para a tocaia com o fim de pegar o pinto de
jeito.
A glória coube, afinal, a um frade de hábitos modestos, humilde e temente a
Deus. Frei Rogério de Solazio vivia em 1843 governando um convento, dirigindo a
escravaria negra e, na cidade, a sua ação benéfica não era desconhecida. Onde
houvesse um necessitado, lá estaria ele com os bálsamos da religião, socorrendo
com a farta e sortida despensa da ordem. Soube das proezas do cavalo do cão e
viu por várias vezes os doentes com as feridas abertas. Sindicou o caso, vindo a
saber que o mito passava o dia encantado num pinto de pernas de breu, metido a
ser galo, senhor de terreiro em Jaguaribinho. Botou-se para lá. Constatou a
veracidade do fato. E desde então ficou de atalaia, havia de agarrá-lo a seu
modo. Não rodou tempo demais para realizar o seu desejo: apanhou-o com vontade
quando se dirigia em penitência às matas do Jaburu. Frei Rogério deu-lhe boa
surra com os cordões de São Francisco, desencantando o pinto que tinha pernas de
breu.
Na noite se ouviu enorme estrondo que mais parecia trovão no começo do
inverno. O ar ficou todo impregnado de forte cheiro de enxofre. E, daí por
diante, o mito não teve mais a menor ação, desapareceu, ficando anos na
lembrança do povo. Mas no quintal da bruxa existia uma pitombeira frondosa e que
dava frutos doces e muito procurados pelos meninos.
Então se transformara a fruteira subitamente num pé de jurema que encarnava o
pinto de pernas de breu e a sua dona de corpo anguloso e cabelos enormes. Louco
seria quem tocasse nessa árvore de agressividade mortal. Bastava que os seus
espinhos arranhassem alguém para esse alguém nunca mais ficar bom. O arranhão se
tornava ferida de casca a escorrer caldo amarelo. Tinha a mesma conformação que
as outras feridas formadas pela ferocidade do cavalo do cão desencantado pelo
frei Solazio. E se ficasse curado, a cicatriz apresentaria a estranha
conformação de arabesco, que a todos mais parecia esporão sangrando numa perna
de galo de briga.
Ainda hoje a jurema é olhada com desconfianças justas, serve para catimbó.
Afirma-se que um talho por ela provocado dará as piores conseqüências,
resultados nefastos. E, aquela, que tomou o lugar da pitombeira, ninguém quer
mais saber de seus contatos, deixando muitas cicatrizes e matando muito braço
que teve a desdita de tocá-la. Além disso, a jurema, em geral, esconde espíritos
zombeteiros e malignos mesmo, acolhidos sob a sua ramalhuda copa com o intuito
de tramar novidades que recordam a bruxa — e o pinto de pernas de breu que era
cavalo do cão.
No entanto, ultimamente, as coisas andam bem mudadas: o pinto, que é também
galo, resolveu regressar ao seu terreiro. Tem pintado o sete. O clamor não
encontra limites. E talvez seja até mais que possível — certíssima — a sua
eliminação, visto as proezas agressivas que vem fazendo, atacando a torto e a
direito, coisa mesmo de doido que não mede as conseqüências.
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