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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

imaginário

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Imaginário
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O pinto da perna de breu, por Ademar Vidal

A mãe d'água, por Nonato Masson

Ciclo de Pai João, por Abelardo Duarte
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...


O pinto da perna de breu

Ademar Vidal

Ilustração de Marcos JardimNa baixada do Jaguaribinho o mundo se povoa de visões extravagantes. As noites se enchem de movimentos misteriosos. Vive-se em aperreio sobressaltado. E no meio dessa complicação uma bruxa manobra o pequenino centro de atividade com as suas estranhas determinações. Todos lhe têm respeito, ninguém quer embaraços. Bruxa sempre conta com poderes invisíveis e notoriamente malignos. Essa mulher envelhecida e afinada pela miséria física, toda cabeluda, unhas salientes, possui uma galinha diferente das outras galinhas, nas cores misturada — e que raramente passeia em outros terreiros. O certo é que de uma aventura amorosa que teve por fora lhe veio farta postura. Pôs o ovo inaugural exatamente na primeira sexta-feira de agosto. Tinha extraordinário tamanho. Foi deitado e encubado com rezas fortes, dele saindo um pinto já entroncado, a cantar como galo, com voz grossa, e que entrou logo a cocoricar as galinhas da vizinhança.

Esse pinto feito galo, nasceu defeituoso: possui pernas de breu. Só podia ser artes do cafute. Mas havia de ter a sua significação lógica. Imediatamente concluíram todos que a bruxa se achava nele encantada. Isto ainda mais tomou raízes na crendice popular pelo fato da velha haver morrido ao mesmo tempo em que o pinto viera à luz. De modo que flagrante aura de desconfiança entrou a pairar na existência do galináceo, olhado a distância — e de quem ninguém queria se aproximar. Constitui perigo social que precisa ser evitado a todo pano. Demais se diz que, durante a noite, principalmente nas noites frias de junho, ele toma formas de "cavalo do cão", a correr, em saltos alados, como um desesperado pelas redondezas e a fazer toda sorte de diabruras inimagináveis. Então, costuma desprender faíscas fosforecentes das pernas de breu, atacando os desprevenidos que passam na estrada ou que se destinam à cidade.

Nesses ataques deixa a sua vítima de tanga, desprovida de tudo quanto possuía. Fica muita vez nuinha. Cheia de queimaduras e por cima destas não se descura de pôr água salgada com areia. Evidentemente um malvado que se delicia com o sofrimento alheio. A marca tem de ficar para sempre como estigma de perseguição quando não sistemática pelo menos orientada. Orientada porque as feridas se tornam conhecidas de toda gente. Basta olhar-se de relance para compreender qual a sua origem: apresenta invariavelmente a mesma conformação amarela a escorrer caldo fino. Ou salmoura. Não cessa aquela fonte vermelha de motivar dores tormentosas. As feridas não saram senão depois de muito tempo. E ainda assim fica o cascão que se renova sempre. Cai, mas cria outro.

O duende de pernas de breu está a merecer ataque de morte. Inadiável se faz sentir essa reação que venha acabar com existência tão perigosa. Cavalo do cão que reclama sumária morte diante do clamor público. Porém o bicho não pode ser pegado. Impossível eliminá-lo na hora em que agride. As sombras favorecem-no. E o serviço que faz é bem feito, é completo — e as vítimas que o digam. Não há outra alternativa que não seja ir para a tocaia com o fim de pegar o pinto de jeito.

A glória coube, afinal, a um frade de hábitos modestos, humilde e temente a Deus. Frei Rogério de Solazio vivia em 1843 governando um convento, dirigindo a escravaria negra e, na cidade, a sua ação benéfica não era desconhecida. Onde houvesse um necessitado, lá estaria ele com os bálsamos da religião, socorrendo com a farta e sortida despensa da ordem. Soube das proezas do cavalo do cão e viu por várias vezes os doentes com as feridas abertas. Sindicou o caso, vindo a saber que o mito passava o dia encantado num pinto de pernas de breu, metido a ser galo, senhor de terreiro em Jaguaribinho. Botou-se para lá. Constatou a veracidade do fato. E desde então ficou de atalaia, havia de agarrá-lo a seu modo. Não rodou tempo demais para realizar o seu desejo: apanhou-o com vontade quando se dirigia em penitência às matas do Jaburu. Frei Rogério deu-lhe boa surra com os cordões de São Francisco, desencantando o pinto que tinha pernas de breu.

Na noite se ouviu enorme estrondo que mais parecia trovão no começo do inverno. O ar ficou todo impregnado de forte cheiro de enxofre. E, daí por diante, o mito não teve mais a menor ação, desapareceu, ficando anos na lembrança do povo. Mas no quintal da bruxa existia uma pitombeira frondosa e que dava frutos doces e muito procurados pelos meninos.

Então se transformara a fruteira subitamente num pé de jurema que encarnava o pinto de pernas de breu e a sua dona de corpo anguloso e cabelos enormes. Louco seria quem tocasse nessa árvore de agressividade mortal. Bastava que os seus espinhos arranhassem alguém para esse alguém nunca mais ficar bom. O arranhão se tornava ferida de casca a escorrer caldo amarelo. Tinha a mesma conformação que as outras feridas formadas pela ferocidade do cavalo do cão desencantado pelo frei Solazio. E se ficasse curado, a cicatriz apresentaria a estranha conformação de arabesco, que a todos mais parecia esporão sangrando numa perna de galo de briga.

Ainda hoje a jurema é olhada com desconfianças justas, serve para catimbó. Afirma-se que um talho por ela provocado dará as piores conseqüências, resultados nefastos. E, aquela, que tomou o lugar da pitombeira, ninguém quer mais saber de seus contatos, deixando muitas cicatrizes e matando muito braço que teve a desdita de tocá-la. Além disso, a jurema, em geral, esconde espíritos zombeteiros e malignos mesmo, acolhidos sob a sua ramalhuda copa com o intuito de tramar novidades que recordam a bruxa — e o pinto de pernas de breu que era cavalo do cão.

No entanto, ultimamente, as coisas andam bem mudadas: o pinto, que é também galo, resolveu regressar ao seu terreiro. Tem pintado o sete. O clamor não encontra limites. E talvez seja até mais que possível — certíssima — a sua eliminação, visto as proezas agressivas que vem fazendo, atacando a torto e a direito, coisa mesmo de doido que não mede as conseqüências.

(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.103-105)