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Rossini Tavares de Lima
Os mais velhos registros, que possuímos de danças, com personagens vestidos de
índios, são de 1760 e 1763. No primeiro, há referência à dança dos meninos
índios, com seu arco e flecha, integrando o bailado dos congos; e no segundo, a
"índios caçando, com pardos e congos".
A estes antigos folguedos se relacionam os cabocolinhos, que existem ou existiram
nos estados da Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Alagoas e Minas Gerais.
Nesta última região, são denominados caboclinhos.
Os cabocolinhos ou caboclinhos constituem um folguedo popular de inspiração
indígena, que costuma se apresentar, com coreografia característica, partes
faladas ou representadas, pelas ruas das cidades, durante as festas religiosas e
também do carnaval.
De acordo com as pesquisas, ainda inéditas, de Guerra Peixe, os cabocolinhos de
Recife, Pernambuco, onde há diversos grupos ou tribos, possuem mais ou menos a
mesma organização.
Os Tupinambás, do município de Jaboatão, junto a Recife, são assim descritos
pelo referido folclorista:
1) Nome: Para efeito do registro policial e civil, eles se denominam: Tribo
Carnavalesca Mista Cabocolinhos de Tejipió. Tejipió é o bairro em que a tribo
foi fundada.
2) Figurantes: Eles são: cacique, chefe supremo; pajé, o cacique aposentado
que exerce função idêntica a de conselheiro, mas não possui voz ativa; matruá, o
feiticeiro, o mágico, apenas simbólico; caboclos, os dançadores; meninos e
meninas que representam os filhos dos caboclos. Divididos em duas filas,
denominados cordões, os caboclos são comandados pelos que se chamam capitão e
tenente. As caboclas são dirigidas pela índia-chefe.
3) Indumentária e apetrechos: Usam cocar, chamado "capacete", e por baixo
deste cabelos compridos; tanga, que vai da cintura aos joelhos; braceletes, designados "ataca-de-mão", e adornos nos tornozelos, denominados "ata-de-pé". Toda
a indumentária é feita de penas ou plumas. Os apetrechos são: "flecha", com as
seguintes peças: "preaca", o arco de madeira; "lança", a flecha propriamente
dita; "batedor", parte que reforça o lugar onde a "lança" bate, e no qual há um
orifício, para esta atravessar, quando solta: "ponteira", corda que é presa nas
extremidades da "preaca" e em cujo centro se acha amarrada a "lança", que por
ela é impulsionada; "lanças de Cabocla, pedaços de pau com a extremidade
pontiaguda; "machadinha", pequenos machados feitos de madeira. Entre os
apetrechos, também se deve mencionar o estandarte, no qual se vê um índio
segurando um arco, enquanto a flecha atinge uma pomba que voa, e os apitos de
metal ou de bambu que dão início e fim às danças e também as animam. Usam apitos
o cacique, o capitão e o tenente.
4) Partes: As diferentes partes coreográficas denominam-se "manobras", e estas,
antigamente chegavam a cento e vinte. Hoje, não ultrapassam a quinze. Nas
"manobras" há dois figurados que se chamam "pé-com-pé" e "trançado-de-cipó"; o
primeiro consiste em juntar os pés, mãos, costas, cabeças etc., do integrantes
de uma fileira com os da outra, e o segundo é a movimentação, frente a frente,
dos dois cordões, conduzindo cada caboclo um cipó, em forma de meio arco, ora
acima, ora abaixo da cabeça. Além das "manobras", há a emboscada que se realiza
quando uma tribo ataca e prende a outra; esta, contudo, só se efetiva entre dois
grupos de cabocolinhos diferentes, mas amigos.
5) Recitativo: Os cabocolinhos nada cantam, mas declamam num certo som, que
abaixa, na última sílaba, as chamadas "loas", que se dividem em "glosa", que é o
solo do cacique, e "resposta" parte do coro dos caboclos. As "loas" são versos
improvisados de caráter épico, que se referem à história do Brasil, dos
primeiros tempos. O assunto é extraído dos livros que lhes chegam às mãos,
especialmente, aqueles que falam de índios. Quanto a este aspecto Guerra Peixe
observou uma certa preferência pelas obras de José de Alencar. Em outros tempos,
os cabocolinhos levavam, umas cinco horas recitando; hoje, quando muito,
declamam durante uma hora.
6) Instrumentos musicais: Seus instrumentos usados, segundo as pesquisas de
Guerra Peixe, eram: inubia, pequena flauta reta de latão, feita por ferreiro,
com um orifício próximo à embocadura e quatro na metade para a extremidade
inferior, que apresenta, no ponto de cera de abelha; caracaxá, nome que os
cabocolinhos dão ao ganzá, tubo cilíndrico, de folha de flandres, com dentes de
milho dentro; taró, a caixa clara; e o surdo, caixa de timbre mais grave. Em vez do
caracaxá, às vezes, usam os mineiros chocalhos semelhantes ao guaiá do
batuque ou tambu paulista; o chocalho típico dos cabocolinhos, entretanto, é o
maracá, feito de coco, com sementes no interior e um cabo.
Também Guerra Peixe, durante sua estada em Recife, pesquisou as tribos dos
cabocolinhos Canindé e Paranaguá. Os primeiros dançam o toré e as "manobras"
constituem aspectos deste: recitam, também trechos referentes à riqueza da
terra, valentia e dignidade da tribo, Pedro Álvares Cabral, reis portugueses,
divindades ameríndias etc.; suas "flechas" compreendem "arco" ("pracá"),
"espigão" ("lança"), "cordel" ("ponteira"); os
caboclos trazem enrolados ao
pescoço um cipó, ao qual se acrescentam a "lança" e a "machada"; os instrumentos
são chocalhos e surdo. A tribo Paranaguá apresenta, no instrumental, os
mineiros, o taró e o surdo.
Em geral, nos cabocolinhos, as "flechas" funcionam como instrumentos musicais
idiofones; e as inubias são conhecidas pelo nome de "gaita".
Ultimamente, Renato Almeida investigou, em Recife, os cabocolinhos Taperaguases,
com sede em Afogados. Compõe-se a tribo de umas vintes pessoas, com indumentária
vistosa de índio. Seus instrumentos são o taró, gaita e caracaxá, e os
personagens: rei, rainha, capitão, tenente, contra-guias,
porta-estandarte e cabocolinhos.
Descrevendo-se, disse o folclorista: "O auto não propriamente representado, é
dito, isto é, cada qual diz a sua fala, andando sem fixar o interlocutor...
Falam apressados, e é difícil acompanhar o seguimento da ação dramática
sobretudo para os que não estejam familiarizados com aquela dicção rápida e tão
peculiar dos personagens".
Em Alagoas, segundo Téo Brandão, o folguedo é "estruturalmente um reisado". "O
próprio traje da maioria dos personagens bem como a denominação de grande número
destes, é o mesmo do reisado, com os acréscimos naturais, em virtude do seu
grande números de partes". Entretanto, o mesmo folclorista afirma que há "cabocolinhos",
que obedecem "ao estilo convencional de índio" mencionando os Índios de Ouro,
que apareceram em Maceió, no ano de 1941.
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