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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

colher de pau

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Colher de Pau
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Culinária e cultura, por Osvaldo Orico

O azeite de dendê, por Edison Carneiro

Queijadinhas d'açúcar, por Guilherme Santos Neves
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


Queijadinhas d'açúcar — quitute medieval

Guilherme Santos Neves

O mais antigo texto em que, até agora, pude localizar a expressão queijadinhas d'açúcar, está naquela "Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuíticas", do padre Fernão Cardim, incluída no seu Tratado da terra e gente do Brasil. De fato, lá está ela neste tópico, referente à visita que, à capitania de Porto Seguro, fizeram, em 1583, o padre Cristóvão de Gouveia. José de Anchieta e o próprio Cardim: "Dali [da aldeia de São Mateus] tornamos à vila, e vindo encalmados por uma praia, eis que desce de um alto monte uma índia vestida como elas costumam, com uma porcelana da Índia, cheia de queijadinhas d'açúcar, com um grande púcaro de água fria, dizendo que aquilo mandava seu senhor ao padre provincial José". Esse padre José era o nosso padre Anchieta que — segundo Cardim — "vinha atrás com as abas [da batina] na cinta, descalço, bem cansado." (Tratado da terra e gente do Brasil. Rio de Janeiro, 1925, p.299)

O termo — queijada — é bem velho na língua. Vejo-o, por exemplo, em duas cantigas medievais: uma cantiga de escárnio do rei dom Afonso de Castela a ridicularizar algum desafeto que trazia "as mangas mui curtas e esfraldadas / bem como se adubassem queijadas / ou se quisessem tortas amassar". A outra, uma cantiga parodística de dom Fernan García Esgaravunha, na qual, com evidente intuito de ironizar, refere algumas prendas da ama de meninos, amada de outro trovador:

Esta ama, cuj'é Joan Coelho
Lava ben e faz bõas queijadas
E sabe ben moer e amassar...

Essa — queijada — segundo se vê da monumental edição crítica do medievalista Rodrigues Lapa, Cantigas de escarnho e de mal dizer (Coimbra, Editorial Galáxia, 1965), de onde recolhi os tópicos acima (páginas 41 e 210) — esta, queijada, é o mesmo que pastel de nata (op. cit., p.739)

Podemos até divulgar aqui a receita desse tipo de quitute da doçaria medieval. Está ela no precioso manuscrito I-E-33, da Biblioteca Nacional de Nápoles, que, graças ao venerando e saudoso sábio padre Augusto Magne S. J., graças também à iniciativa do ilustre professor A. G. Cunha e ao professor Antônio Gomes Filho, o Instituto Nacional do Livro editou, em 1963, sob o título Um tratado de cozinha portuguesa do século XV. Não é bem a receita da queijada ou queijadinha, mas tudo indica seja o mesmo gostoso quitute numa de suas variantes. Veja-se:

"Tigelada de leite — Tomarão quatro ovos e açúcar e farinha que será cinco colheres de prata e uma escudela, tudo batido, e tomarão uma tigelinha de barro e nela derreterão uma pouca de manteiga, que será tanto como uma noz em cada tigela e depois que for derretida, deitarão este polme [sic] que será temperado com sal; então manda-la-ão ao forno e levem uma pouca de manteiga para deitar por cima, e depois que se coalhar. E também pode fazer de leite cozido e de queijo fresco..."

Nas saborosas queijadinhas capixabas — tal como nas queijadas pernambucanas — entra, como ingrediente essencial, o coco. Pereira da Costa, em seu clássico "Vocabulário pernambucano" (Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, v.34, nº 159-162, 1936) assim define queijada: "doce de coco com ovos em pequenos vasos de massa de farinha de trigo, circulares e de pouca altura, e depois de cozido ao formo, polvilhado de canela".

Das nossas queijadinhas — para valorizar este escrito — também dou a receita, e receita bem antiga, transmitida através da tradição oral, por uma famosa quituteira dos velhos tempos, dona Prazeres:

Queijadinhas

Ingredientes para a massa: 1 ovo, 1 xícara de água morna com sal, 1 colher de café de açúcar, 1 colher de café de manteiga, farinha de trigo até amassar.

Ingredientes para o recheio: 1 coco ralado, 4 gemas, 1 colher de chá de farinha de trigo, 300g de açúcar

Modo de preparar: Despeja-se numa tigela a água morna, junta-se o ovo inteiro e a manteiga. Mexe-se tudo e vai se colocando a farinha de trigo até ficar em consistência. Estica-se a massa com um rolo e corta-se com uma carretilha de rodas do tamanho de uma forminha de empada. Faz-se uma calda com ponto de calda rala e deixa-se esfriar. Juntam-se as gemas, o coco e a farinha de trigo. Leva-se ao fogo para cozinhar; quando estiver despegando do fundo da panela, retira-se do fogo. Com uma colherinha de café vai-se colocando um pouco em cima das rodinhas e com um palito aperta-se a massa, formando uns biquinhos. Leva-se ao forno quente em assadeiras untadas de manteiga e farinha de trigo.

Devo esta receita à gentileza de Marieta Cerqueira Lima, a quem penhorado muito agradeço a valiosa colaboração.

* * *

Aos leitores que, acaso, estranharem o tema destes rabiscos de hoje, a versar aspectos da culinária tradicional brasileira — lembro-lhes o que, certa vez, escreveu Eduardo Prado a Oliveira Martins. Velha opinião ainda hoje perfilhada pelo sociólogo Gilberto Freire: "Guardemos a tradição brasileira do paladar: a última coisa no homem que se desnacionaliza". (Gilberto Freire. Região e tradição. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio, 1941, p.212. Coleção Documentos Brasileiros, 29)

(Neves, Guilherme Santos. "Queijadinhas d'açúcar; quitute medieval". A Gazeta. Vitória, 26 de novembro de 1966, tablóide)