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Guilherme Santos Neves
O mais antigo texto em que, até agora, pude localizar a expressão
queijadinhas d'açúcar, está naquela "Narrativa epistolar de uma viagem e
missão jesuíticas", do padre Fernão Cardim, incluída no seu Tratado da terra
e gente do Brasil. De fato, lá está ela neste tópico, referente à visita
que, à capitania de Porto Seguro, fizeram, em 1583, o padre Cristóvão de
Gouveia. José de Anchieta e o próprio Cardim: "Dali [da aldeia de São Mateus]
tornamos à vila, e vindo encalmados por uma praia, eis que desce de um alto
monte uma índia vestida como elas costumam, com uma porcelana da Índia, cheia de
queijadinhas d'açúcar, com um grande púcaro de água fria, dizendo que aquilo
mandava seu senhor ao padre provincial José". Esse padre José era o nosso padre
Anchieta que — segundo Cardim — "vinha atrás com as abas [da batina] na cinta,
descalço, bem cansado." (Tratado da terra e gente do Brasil. Rio de
Janeiro, 1925, p.299)
O termo — queijada — é bem velho na língua. Vejo-o, por exemplo, em
duas cantigas medievais: uma cantiga de escárnio do rei dom Afonso de Castela a
ridicularizar algum desafeto que trazia "as mangas mui curtas e esfraldadas /
bem como se adubassem queijadas / ou se quisessem tortas amassar". A outra, uma
cantiga parodística de dom Fernan García Esgaravunha, na qual, com evidente
intuito de ironizar, refere algumas prendas da ama de meninos, amada de outro
trovador:
Esta ama, cuj'é Joan Coelho
Lava ben e faz bõas queijadas
E sabe ben moer e amassar...
Essa — queijada — segundo se vê da monumental edição crítica do
medievalista Rodrigues Lapa, Cantigas de escarnho e de mal dizer
(Coimbra, Editorial Galáxia, 1965), de onde recolhi os tópicos acima (páginas 41
e 210) — esta, queijada, é o mesmo que pastel de nata (op. cit.,
p.739)
Podemos até divulgar aqui a receita desse tipo de quitute da doçaria
medieval. Está ela no precioso manuscrito I-E-33, da Biblioteca Nacional de
Nápoles, que, graças ao venerando e saudoso sábio padre Augusto Magne S. J.,
graças também à iniciativa do ilustre professor A. G. Cunha e ao professor
Antônio Gomes Filho, o Instituto Nacional do Livro editou, em 1963, sob o título
Um tratado de cozinha portuguesa do século XV. Não é bem a receita da
queijada ou queijadinha, mas tudo indica seja o mesmo gostoso quitute numa de
suas variantes. Veja-se:
"Tigelada de leite — Tomarão quatro ovos e açúcar e farinha que será
cinco colheres de prata e uma escudela, tudo batido, e tomarão uma tigelinha de
barro e nela derreterão uma pouca de manteiga, que será tanto como uma noz em
cada tigela e depois que for derretida, deitarão este polme [sic] que
será temperado com sal; então manda-la-ão ao forno e levem uma pouca de manteiga
para deitar por cima, e depois que se coalhar. E também pode fazer de leite
cozido e de queijo fresco..."
Nas saborosas queijadinhas capixabas — tal como nas queijadas pernambucanas —
entra, como ingrediente essencial, o coco. Pereira da Costa, em seu clássico
"Vocabulário pernambucano" (Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e
Geográfico de Pernambuco, v.34, nº 159-162, 1936) assim define queijada:
"doce de coco com ovos em pequenos vasos de massa de farinha de trigo,
circulares e de pouca altura, e depois de cozido ao formo, polvilhado de
canela".
Das nossas queijadinhas — para valorizar este escrito — também dou a receita,
e receita bem antiga, transmitida através da tradição oral, por uma famosa
quituteira dos velhos tempos, dona Prazeres:
Queijadinhas
Ingredientes para a massa: 1 ovo, 1 xícara de água morna com sal, 1
colher de café de açúcar, 1 colher de café de manteiga, farinha de trigo até
amassar.
Ingredientes para o recheio: 1 coco ralado, 4 gemas, 1 colher de chá
de farinha de trigo, 300g de açúcar
Modo de preparar: Despeja-se numa tigela a água morna, junta-se o ovo
inteiro e a manteiga. Mexe-se tudo e vai se colocando a farinha de trigo até
ficar em consistência. Estica-se a massa com um rolo e corta-se com uma
carretilha de rodas do tamanho de uma forminha de empada. Faz-se uma calda com
ponto de calda rala e deixa-se esfriar. Juntam-se as gemas, o coco e a farinha
de trigo. Leva-se ao fogo para cozinhar; quando estiver despegando do fundo da
panela, retira-se do fogo. Com uma colherinha de café vai-se colocando um pouco
em cima das rodinhas e com um palito aperta-se a massa, formando uns biquinhos.
Leva-se ao forno quente em assadeiras untadas de manteiga e farinha de trigo.
Devo esta receita à gentileza de Marieta Cerqueira Lima, a quem penhorado
muito agradeço a valiosa colaboração.
* * *
Aos leitores que, acaso, estranharem o tema destes rabiscos de hoje, a versar
aspectos da culinária tradicional brasileira — lembro-lhes o que, certa vez,
escreveu Eduardo Prado a Oliveira Martins. Velha opinião ainda hoje perfilhada
pelo sociólogo Gilberto Freire: "Guardemos a tradição brasileira do paladar: a
última coisa no homem que se desnacionaliza". (Gilberto Freire. Região e
tradição. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio, 1941, p.212. Coleção
Documentos Brasileiros, 29)
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