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Edison Carneiro
Embora dele se extraia um óleo rico em estearina, utilizado, industrialmente na
fabricação de velas, quando duro, e de sabão, quando mole, foi como azeite, óleo
comestível que o dendê se tornou conhecido no Brasil, e especialmente na Bahia.
Até o primeiro quartel deste século, o óleo era chamado universalmente azeite
de cheiro, expressão com que, atualmente, se designa o óleo mais refinado.
Parece, com efeito, muito recente esse nome de dendê.
O dendê constitui um resultado benéfico do comércio negreiro com a África, pois
fornece um óleo ou azeite de grande riqueza em provitaminas A. Não o trouxeram
os escravos mas os traficantes. Parece viável a suposição de que os primeiros
indivíduos dessa espécie vegetal tenham vindo da zona então conhecida como Costa
da Mina — que na verdade abarcava a Costa do Ouro, a Costa do Marfim e a Costa
dos Escravos — na segunda metade do século XVIII.
Trata-se de uma palmácea, que ostenta, no encontro das palmas com a haste
inflorescências na forma de cachos, seis a oito por ano, que amadurecem duas
vezes em cada translação. Produto da floresta tropical, nasce espontaneamente
nas terras pretas e no massapé, e em geral nos solos frescos e úmidos. Leva
cerca de oito anos para frutilizar, mas não necessita de cuidados especiais: dão
maior produção os pés que recebem lixo, cinzas, urina e detritos em geral sobre
as suas raízes. O habitat natural desta monocotiledônea vai da Gâmbia até
Angola, sem solução de continuidade, ocupando uma faixa litorânea de cerca de
450 quilômetros, de largura, que no Congo invade o interior até os lagos Alberto Nfanza
e Tanganyka.
Os traficantes de escravos acrescentaram o dendezeiro à paisagem natural do
Brasil sem maiores dificuldades. Era natural que o plantassem primeiro na Bahia, então o grande centro do
comércio de negros. Na sua Notícia da Bahia (1759), José Antônio Caldas
informava que os navios negreiros, na ocasião, freqüentavam a Costa da Mina para
negociar "azeite de palmas", além de escravos. Se isto não prova a inexistência
da palmeira no país, pelo menos indica que a produção de azeite, ou não se fazia
ainda ou era íntima em relação às necessidades brasileiras. Vilhena conseguiu
encontrar estatísticas de 1798 que mostram que, naquele ano, entraram na Bahia
mil canadas de "azeite de palmas" da Costa da Mina e 500 canadas da ilha de São
Tomé, no valor total de 1.500$, ou seja, a mil réis a canada — cerca de 4.000
litros. No momento, porém, em que escrevia as suas Cartas soteropolitanas
(1802), já estava aclamado aqui o dendezeiro, tanto que o professor régio
propunha que fossem plantados nas terras dos engenhos, a fim de ser extrair do coco
"o azeite de tempero essencial da maior parte das viandas dos pretos e ainda dos
brancos, criados com ele".
O azeite conquistou facilmente a preferência popular — e a massa da população,
mais familiarizada com o dendê, valeu-se dele de vários modos e maneiras, seja
como tempero, seja como alimento, seja para outros fins.
A polpa do coco pode ser comida crua mas, sempre que possível, os cocos eram
fervidos em água e sal, ingerindo-se depois a polpa, meia tenra e macia. Uma
verdadeira guloseima era o enfunê, o coco novo, do "olho" do cacho que
praticamente é apenas polpa, sem amêndoa. O sedimento acumulado do fundo, do
tacho, depois da primeira fervura, o bambá de coloração turva, era
vendido pelas ruas da cidade da Bahia em "medidas" de folha de flandres e comido
com farinha e sal. E, quando o azeite está chegando ao ponto, os últimos resto
de borra se aglutinam em forma de torresmos, catetê, de sabor muito
apreciados pelos baianos.
Manuel Querino conta que os negros faziam vinho de dendê na Bahia — uma
beberagem muito estimada na África.
As palhas do dendê, depois de batidas, ficam ainda levemente impregnadas de
óleo. Fazem-se, com essas palhas, uns rolos chatos do tamanho de um pires aguxô, para acender fogo
— e daí o nome que deram ao penteado feminino que
assume essa forma.
Para as pessoas exigentes há a flor do azeite, o óleo mais apurado,
transparente no
seu alto grau de refinação. O povo prefere o óleo de fabricação doméstica, mais
rico em dendê, ao de fabricação industrial. Há pessoas que não dispensam o
azeite, quente ou frio, na comida, na salada, no pão, no doce...
Dura e trabalhosa era a extração do azeite, como se pode aquilatar por esta
descrição de técnicos do ministério da Agricultura. "Os rácimos separados pela
foice sem gavião são expostos durante quatro dias, no mínimo ao sol e mesmo
unicamente três dias, se têm frutos bem maduros. Então toma-se cerca de dois
quilos de frutos e se cozinha em uma marmita de ferro, e a massa polposa que
deles resulta é pisada em um almofariz ou pilão e macerada com água morna. Com a
mão separam-se então as fibras do envoltório dos caroços e se deitam fora umas e
outros. O óleo que sobrenada é misturado com água morna; deita-se o todo em uma
peneira, depois a polpa e posta a ferver em água até que não deixe mais exsudar
novo óleo novamente é passado em peneira e assim seguidamente até que as polpas
não contenham mais óleo. O óleo assim separado em diversas vezes é reunido e
fervido até a eliminação d'água. O produto assim obtido é excelente e convém
muito bem aos usos culinários."
Esta é, em geral, a forma que se obtém o óleo grosso, pesado, quase pastoso que
empresta sabor especial às comidas "africanas" da Bahia e do Maranhão.
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