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Domingos Fonseca:
Seu Aderaldo Ferreira
Vamos cantar um mourão
Cego Aderaldo:
Não há dúvida, meu amigo
Que é a minha obrigação
Domingos:
Agora verso trocado
Pra ficá também riscado
Igualmente a um quadrão
Cego:
Tá direito, tem toda razão
É um trabalho bonito
Domingos:
Eu estou fazendo isto
Com o coração contrito
Cego:
Olha vai de conjuntura
Para feichar, criatura
Quase que me precipito
Domingos:
Meu verso parece escrito
Já vem me desencanado
Cego:
Parece o cego velho
Onde ele canta, é contado
Domingos:
Eu pra cantar não me vejo
O carro engara e quebra o eixo
Meu mourão tá bem fincado
Cego:
Reto, bonito e pesado
Foi meu trabalho direitinho
Domingos:
Por Deus, que até agora
Tem cantado com carinho
Cego:
Aderaldo quando canta
Dá um trino na garganta
Que parece um passarinho
Domingos:
Quando avoa do ninho
Para não voltar jamais
Cego:
Me parece que ele chora
E suspira, dá um ai...
Domingos:
Parece também que repousa
Porém ainda faz força
Que cantor novo não faz
Cego:
Eu me lembro de rapaz
Quando eu era criatura
Domingos:
De fato devia ter
Enorme musculatura
Cego:
Hoje quero, mas não posso
Dói-me a carne, arde os osso
Falta até a dentadura
Domingos:
Chegou uma criatura
Nos olhando da janela
Cego:
Para ver nossa cantiga
Que nós canta pra donzela
Domingos:
Quem será este cidadão
Que terminado este mourão
Nós vamos cantar parcela
Cego:
É uma cousa muito bela
Que inté tão bem tangida
Domingos:
É o que pode chamar-se
A maravilha da vida
Cego:
É uma cousa muito bela
Que se cantar em parcela
A cousa tão bem conhecida
Domingos:
Só uma velha luzida
Cantará parcela bem
Cego:
É a regra mais ou meno
Canta você, canta alguém
Domingos:
Na minha lira amarela
Mas para cantar parcela
É nós dois e mais ninguém
Cego:
Eu já cantei muito bem
Mas hoje vivo tão cansado
Domingos:
Assim mesmo, aonde canta
Ainda dá bom resultado
Cego:
Quando vou cantá parcela
Eu não me lembro mais dela
E fico acolá colocado
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