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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

cancioneiro

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Cancioneiro
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ABC do Pedrito

Trechos de desafio em mourão entre o Cego Aderaldo e Domingos Fonseca

A festa dos cachorros, por José Pacheco
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Capa
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Festança
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
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CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


Trechos de desafio em mourão entre o Cego Aderaldo e Domingos Fonseca

Domingos Fonseca:
Seu Aderaldo Ferreira
Vamos cantar um mourão

Cego Aderaldo:
Não há dúvida, meu amigo
Que é a minha obrigação

Domingos:
Agora verso trocado
Pra ficá também riscado
Igualmente a um quadrão

Cego:
Tá direito, tem toda razão
É um trabalho bonito

Domingos:
Eu estou fazendo isto
Com o coração contrito

Cego:
Olha vai de conjuntura
Para feichar, criatura
Quase que me precipito

Domingos:
Meu verso parece escrito
Já vem me desencanado

Cego:
Parece o cego velho
Onde ele canta, é contado

Domingos:
Eu pra cantar não me vejo
O carro engara e quebra o eixo
Meu mourão tá bem fincado

Cego:
Reto, bonito e pesado
Foi meu trabalho direitinho

Domingos:
Por Deus, que até agora
Tem cantado com carinho

Cego:
Aderaldo quando canta
Dá um trino na garganta
Que parece um passarinho

Domingos:
Quando avoa do ninho
Para não voltar jamais

Cego:
Me parece que ele chora
E suspira, dá um ai...

Domingos:
Parece também que repousa
Porém ainda faz força
Que cantor novo não faz

Cego:
Eu me lembro de rapaz
Quando eu era criatura

Domingos:
De fato devia ter
Enorme musculatura

Cego:
Hoje quero, mas não posso
Dói-me a carne, arde os osso
Falta até a dentadura

Domingos:
Chegou uma criatura
Nos olhando da janela

Cego:
Para ver nossa cantiga
Que nós canta pra donzela

Domingos:
Quem será este cidadão
Que terminado este mourão
Nós vamos cantar parcela

Cego:
É uma cousa muito bela
Que inté tão bem tangida

Domingos:
É o que pode chamar-se
A maravilha da vida

Cego:
É uma cousa muito bela
Que se cantar em parcela
A cousa tão bem conhecida

Domingos:
Só uma velha luzida
Cantará parcela bem

Cego:
É a regra mais ou meno
Canta você, canta alguém

Domingos:
Na minha lira amarela
Mas para cantar parcela
É nós dois e mais ninguém

Cego:
Eu já cantei muito bem
Mas hoje vivo tão cansado

Domingos:
Assim mesmo, aonde canta
Ainda dá bom resultado

Cego:
Quando vou cantá parcela
Eu não me lembro mais dela
E fico acolá colocado

(Em Lamas, Dulce Martins. "A música na cantoria nordestina". Literatura popular em ver; estudos. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, 1973, t.1, p.257-260)