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Versão, incompleta, colhida por alunos da Faculdade de Filosofia da
Universidade Federal da Bahia, em novembro de 1969, também conhecida por
Alfabeto de Pedrito.
Apreciem, meus senhores
E prestem bem atenção
A grande calamidade
Que Pedrito está sofrendo
Lá no fundo da prisão
Bernardino Madureira
Que foi meu antecessor
Tirou o pé da arapuca
Dentro dela me jogou
Para hoje estar passando
Por tão grande dissabor
Coitado de mim quem diz
A não ser o triste cabo
Bem o povo me dizia:
Macaco olha o teu rabo
Madureira fez comigo
Tal como São Benedito
Fez como o senhor diabo
Delegado fui por três anos
Fiz o que tive vontade
Dei muita pancada em gente
Fiz grandes barbaridades
Uma vez até prendi
Um padre da Piedade
Engenheiros, bacharéis, doutores
Toda esta gente eu prendia
No xadrez de vagabundos
Com pancada e água fria
Hoje é que estou vendo
Quanto os pobres padecia
Fiz muitas prisões injustas
Não tenho arrependimento
Eu tinha um auxiliar
José Francisco, um sargento
Tudo quanto lhe ocultava
Era feito neste intento
Hoje choro arrependido
Por tanta coisa que fiz
Já prendi e mandei matar
Uma pobre meretriz
O remorso me persegue
Como me sinto infeliz!
Indefeso me entrego ao povo
Já não chego pra quem quer
Homens, velhos e crianças
Menina, moça e mulher
Peço a todos me perdoem
Meus irmãos do candomblé
Jogadores que persegui
Conto com vossos perdões
Eu agora estou pior
Que os negros dos carvões
Disto tudo são culpados
Seu Vital e seu Simões
Lembro de dona Silvana
A velha da bruxaria
Eu cerquei a sua casa
Com a minha cavalaria
E mesmo assim não pude
Trazê-la à delegacia
Madureira e Simões
Tornaram-se meus inimigos de vez
Nem ao menos me vieram
Para me ver no xadrez
Para vir me dar notícias
Dos fatos do fim do mês
Não me matem minha gente
Tenham de mim compaixão
Foi verdade mandei matar
Dois moços lá na prisão
Para ir servir de bucha
Na frente do canhão
O tenente João Domingos
Que assassinou o doutor
Na cidade de Carinhanha
Logo que se confessou
Disse só de artimanha
Foi Pedrito quem mandou
Pedro de Azevedo Gordilho
Foi como eu fui batizado
Meu apelido é Pedrito
Por todo mundo odiado
Mesmo que fique escondido
Na sala do arcebispado
Quando o general Juarez
Foi ao jantar oferecido
No palácio do arcebispo
Eu estava lá escondido
Para ver se alguma palavra
Ficava no meu sentido
Revoltosos, revoltosos
Tenham de mim compaixão
Foi verdade mandei matar
Os dois moços do sertão
Fura-me com cipó de espinho
Judas também foi carrasco
Mas obteve o perdão
Senhores, bons senhores
De medicina e direito
Eu vos imploro perdão
Porque não tenho outro jeito
Livrai-me deste insolente
Deste malvado [tenente ?]
Vamos fugir meu Pedrito
Que a coisa está preta
Porém eu facilitei
Fiquei como um coelho de treita
Julgando não ser macaco
Para fugir de careta
Xadrez é coisa ruim
Mas disto eu não sabia
Quando eu mandava prender
Mandar jogar água fria
Hoje é que eu estou sabendo
Quanto os pobres padecia
Zombam-se todos de mim
Como se eu fosse judeu
Que junto ao alvo
(...)
Sexta, sábado, domingo é meu!
Quedê Pedrito? o gato comeu!
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