Jangada Brasil
  

  Jangada Brasil  | RealejoProvérbios  |  No Estradão  |  Amigos da Jangada  | Contato  | Mapa do Site

Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

cancioneiro

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Cancioneiro
....................................
ABC do Pedrito

Trechos de desafio em mourão entre o Cego Aderaldo e Domingos Fonseca

A festa dos cachorros, por José Pacheco
....................................

Capa
....................................

Festança
....................................
Imaginário
....................................
Oficina
....................................
Palhoça
....................................
Colher de Pau
....................................
Panacéia
....................................
Catavento
....................................
Almanaque
....................................
 

Edições anteriores
Seleções temáticas
As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
Bibliografia utilizada
Saiba mais sobre a Jangada Brasil
Contatos
 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


ABC de Pedrito

Versão, incompleta, colhida  por alunos da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, em novembro de 1969, também conhecida por Alfabeto de Pedrito.

 

Apreciem, meus senhores
E prestem bem atenção
A grande calamidade
Que Pedrito está sofrendo
Lá no fundo da prisão

Bernardino Madureira
Que foi meu antecessor
Tirou o pé da arapuca
Dentro dela me jogou
Para hoje estar passando
Por tão grande dissabor

Coitado de mim quem diz
A não ser o triste cabo
Bem o povo me dizia:
Macaco olha o teu rabo
Madureira fez comigo
Tal como São Benedito
Fez como o senhor diabo

Delegado fui por três anos
Fiz o que tive vontade
Dei muita pancada em gente
Fiz grandes barbaridades
Uma vez até prendi
Um padre da Piedade

Engenheiros, bacharéis, doutores
Toda esta gente eu prendia
No xadrez de vagabundos
Com pancada e água fria
Hoje é que estou vendo
Quanto os pobres padecia

Fiz muitas prisões injustas
Não tenho arrependimento
Eu tinha um auxiliar
José Francisco, um sargento
Tudo quanto lhe ocultava
Era feito neste intento

Hoje choro arrependido
Por tanta coisa que fiz
Já prendi e mandei matar
Uma pobre meretriz
O remorso me persegue
Como me sinto infeliz!

Indefeso me entrego ao povo
Já não chego pra quem quer
Homens, velhos e crianças
Menina, moça e mulher
Peço a todos me perdoem
Meus irmãos do candomblé

Jogadores que persegui
Conto com vossos perdões
Eu agora estou pior
Que os negros dos carvões
Disto tudo são culpados
Seu Vital e seu Simões

Lembro de dona Silvana
A velha da bruxaria
Eu cerquei a sua casa
Com a minha cavalaria
E mesmo assim não pude
Trazê-la à delegacia

Madureira e Simões
Tornaram-se meus inimigos de vez
Nem ao menos me vieram
Para me ver no xadrez
Para vir me dar notícias
Dos fatos do fim do mês

Não me matem minha gente
Tenham de mim compaixão
Foi verdade mandei matar
Dois moços lá na prisão
Para ir servir de bucha
Na frente do canhão

O tenente João Domingos
Que assassinou o doutor
Na cidade de Carinhanha
Logo que se confessou
Disse só de artimanha
Foi Pedrito quem mandou

Pedro de Azevedo Gordilho
Foi como eu fui batizado
Meu apelido é Pedrito
Por todo mundo odiado
Mesmo que fique escondido
Na sala do arcebispado

Quando o general Juarez
Foi ao jantar oferecido
No palácio do arcebispo
Eu estava lá escondido
Para ver se alguma palavra
Ficava no meu sentido

Revoltosos, revoltosos
Tenham de mim compaixão
Foi verdade mandei matar
Os dois moços do sertão
Fura-me com cipó de espinho
Judas também foi carrasco
Mas obteve o perdão

Senhores, bons senhores
De medicina e direito
Eu vos imploro perdão
Porque não tenho outro jeito
Livrai-me deste insolente
Deste malvado [tenente ?]

Vamos fugir meu Pedrito
Que a coisa está preta
Porém eu facilitei
Fiquei como um coelho de treita
Julgando não ser macaco
Para fugir de careta

Xadrez é coisa ruim
Mas disto eu não sabia
Quando eu mandava prender
Mandar jogar água fria
Hoje é que eu estou sabendo
Quanto os pobres padecia

Zombam-se todos de mim
Como se eu fosse judeu
Que junto ao alvo
(...)
Sexta, sábado, domingo é meu!
Quedê Pedrito? o gato comeu!

(Silva, José Calasans Brandão da; Braga, Júlio Santana; Tourinho, Maria Antonieta. Folclore geo-histórico da Bahia e seu recôncavo. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Departamento de Assuntos Culturais, 1972. Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 7, p.57-61)