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Papagaio de papel
Já estamos em plena estação dos papagaios. Aliás, demorou um pouco a
aparecerem. A estação invernosa é mais propícia a eles por causa dos ventos,
posto que o verão parecesse melhor pela ausência de chuvas. Eles agora começam a
enfeitar o céu com suas cores e de certo modo a promover caçadas. Essas caçadas
dependem de muita estratégia e se valem dos elementos cerol e gilete. Um bom
empinador de papagaios que não se sirva desses elementos não consegue manter-se
firme na opinião pública dos aficionados e o papagaio também não consegue
manter-se firme no ar por muito tempo sem ser caçado. O brinquedo popular e
popularizado universalmente possui já um vocabulário especial e uma técnica que
não é conhecida universalmente. No Brasil, ele recebe vários nomes: pandorga,
pipa, arraia etc. No Amazonas, conhecemos os nomes e as variedades do brinquedo:
papagaio, morcego, arraia, frade, curica, sendo estes dois últimos, apenas uma
recorrência filiada àqueles, não consentindo possuir a mesma técnica de
fabricação nem os mesmos elementos formais.
O papagaio de papel não é de origem brasileira nem européia. É uma tradição
milenar, atribuída aos chineses. Conta-se que Han-sin (século III, AC), hábil
general, empregou-os para que soubesse exatamente onde se encontravam as suas
tropas, e mesmo para enviar mensagens. Já naquele tempo os papagaios de papel,
passando ao popular, mantinham também espírito desportivo e os garotos da China
sabiam manejá-los de modo a "por meio de hábeis movimentos do cordel, fazer
passar o papagaio por cima de um outro". A enciclopédia chinesa Khe-tch
i-king-youan, que informa a respeito da velhice do papagaio de papel, não
diz se já usavam cerol e elementos outros de destruição dos papagaios
adversários, mas observa que os chineses, fiéis a uma tradição antiga, gostavam
de fazer subir ao ar dragões e serpentes, gênios e animais fantásticos, com que
se deliciavam. Um outro ponto importante é que o divertimento não era exclusivo
dos rapazes. Velhos de barbas brancas, nobres, filósofos, generais, o povo
enfim, mandava para o ar seus papagaios de papel, fazendo com que o céu se
povoasse de toda sorte de figuras imaginárias, inclusive à noite, possuídos de
lanternas. Houve um tempo em Manaus que se fazia também assim, colocando-se
pequenas lanternas na cauda dos papagaios, à noite, para intrigar as pessoas.
O divertimento hoje em dia está mais modificado, já não se usa regularmente
cauda de pano, mas de papel (jornal), omitiram as roncadeiras, as arraias e
morcegos desapareceram quase. Mas o papagaio continua subindo, apesar da
perseguição da polícia, do controle da CEM etc. Como se essa gente não tivesse
também empinado o seu papagaio chambeta ou alinhado, levando carreiras da
polícia, brigado etc.
E foi com o papagaio de papel que Benjamin Franklin descobriu o pára-raios.
("Paleio no copiar". Jornal de Folclore. Manaus, 18 de abril de 1964,
nº 35)
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