Jangada Brasil
  

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Jangada Brasil - fevereiro 2004
Edição 63

catavento

Catavento
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Papagaio de papel

Melancia

O jogo do manja-manja

Picoton

Adivinhas
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Almanaque
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Papagaio de papel

Ilustração de Marcos JardimJá estamos em plena estação dos papagaios. Aliás, demorou um pouco a aparecerem. A estação invernosa é mais propícia a eles por causa dos ventos, posto que o verão parecesse melhor pela ausência de chuvas. Eles agora começam a enfeitar o céu com suas cores e de certo modo a promover caçadas. Essas caçadas dependem de muita estratégia e se valem dos elementos cerol e gilete. Um bom empinador de papagaios que não se sirva desses elementos não consegue manter-se firme na opinião pública dos aficionados e o papagaio também não consegue manter-se firme no ar por muito tempo sem ser caçado. O brinquedo popular e popularizado universalmente possui já um vocabulário especial e uma técnica que não é conhecida universalmente. No Brasil, ele recebe vários nomes: pandorga, pipa, arraia etc. No Amazonas, conhecemos os nomes e as variedades do brinquedo: papagaio, morcego, arraia, frade, curica, sendo estes dois últimos, apenas uma recorrência filiada àqueles, não consentindo possuir a mesma técnica de fabricação nem os mesmos elementos formais.

O papagaio de papel não é de origem brasileira nem européia. É uma tradição milenar, atribuída aos chineses. Conta-se que Han-sin (século III, AC), hábil general, empregou-os para que soubesse exatamente onde se encontravam as suas tropas, e mesmo para enviar mensagens. Já naquele tempo os papagaios de papel, passando ao popular, mantinham também espírito desportivo e os garotos da China sabiam manejá-los de modo a "por meio de hábeis movimentos do cordel, fazer passar o papagaio por cima de um outro". A enciclopédia chinesa Khe-tch i-king-youan, que informa a respeito da velhice do papagaio de papel, não diz se já usavam cerol e elementos outros de destruição dos papagaios adversários, mas observa que os chineses, fiéis a uma tradição antiga, gostavam de fazer subir ao ar dragões e serpentes, gênios e animais fantásticos, com que se deliciavam. Um outro ponto importante é que o divertimento não era exclusivo dos rapazes. Velhos de barbas brancas, nobres, filósofos, generais, o povo enfim, mandava para o ar seus papagaios de papel, fazendo com que o céu se povoasse de toda sorte de figuras imaginárias, inclusive à noite, possuídos de lanternas. Houve um tempo em Manaus que se fazia também assim, colocando-se pequenas lanternas na cauda dos papagaios, à noite, para intrigar as pessoas.

O divertimento hoje em dia está mais modificado, já não se usa regularmente cauda de pano, mas de papel (jornal), omitiram as roncadeiras, as arraias e morcegos desapareceram quase. Mas o papagaio continua subindo, apesar da perseguição da polícia, do controle da CEM etc. Como se essa gente não tivesse também empinado o seu papagaio chambeta ou alinhado, levando carreiras da polícia, brigado etc.

E foi com o papagaio de papel que Benjamin Franklin descobriu o pára-raios.

("Paleio no copiar". Jornal de Folclore. Manaus, 18 de abril de 1964, nº 35)