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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Almanaque

ANO VI - EDIÇÃO 63
FEVEREIRO 2004

Almanaque
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A fala nos quartéis , por Saul Martins

Termos e expressões populares, por Guilherme Santos Neves

Pelo correio eletrônico

Latrinália

Na parede do boteco

Escrito em papel moeda

No estradão

Provérbios

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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


Termos e expressões populares

Guilherme Santos Neves

Embora pareça estranho, a verdade é que muita semelhança existe entre o modo de falar criolo, gaúcho e capixaba. Vocábulos, expressões, ditos e frases feitas são correntes aqui, e lá nos longínquos pampas.

Tal o que facilmente se poderá comprovar folheando, por exemplo, o Vocabulário y refranero criollo, de Tito Saubidet (Buenos Aires, 1943) e o Vocabulário gaúcho, de Roque Callage (Porto Alegre, 1928).

Nossa velha expressão "matar o bicho" lá está registrada à página 40 do Vocabulário criollo: "matar al bicho — beber alcool, tomar la copa". Mata-bicho é, segundo o Vocabulário gaúcho (p.87), "a cachaça é servida em copo; trago, cana, caninha; quando o campeiro pede um mata-bicho já se sabe o que é: um cálice de aguardente". Tal como aqui.

Para o mesmo ato de beber ou "matar o bicho", aqui se usa a expressão "molhar a goela ou a garganta" — idêntica a "mojar el garguero" do falar criolo (p.246)

"Êse es otro cantar" — frase feita conhecida entre nós, com o sentido de "isto é outra coisa!", também é comum nos pampas argentinos (p.150), com a mesma significação: "es una cosa muy diferente".

"Arranca-rabo" diz-se, por aqui, do frege, do fuzuê, do rolo bravo, da discussão desbocada e violenta. No Sul é, da mesma forma, o bate-boca, a discussão acalorada (Vocabulário gaúcho, p.18).

Às crianças e à gente rude do Espírito Santo, temos ouvido a forma: "gomitar", em vez de vomitar, lançar. Também assim se estropia o vocábulo na Argentina, segundo consta do Vocabulário criollo, página180.

Xereta é a pessoa metidiça, intrometida, que "mete o bedelho onde não é chamada"; tal qual lá no sul (Vocabulário gaúcho, p.40).

Ao garoto pequeno, chama-se, entre nós, "guri", no Rio Grande do Sul, guri é a criança, o menino piazinho (Vocabulário gaúcho, p.72). Também na Argentina, "guri" é "muchachito chico, gurisito, nene" (Vocabulário criollo, p.186).

Cutuba é velho termo nosso que, parece, vai desaparecendo do uso vivo da língua. Significa: bom, gostoso, apetitoso. Lá no sul, cutuba ou cotuba quer dizer: forte, temível, respeitado e "o mesmo que pessoa generosa, boa" (Vocabulário gaúcho, p.49).

Velha expressão de nossa gente proverbialmente hospitaleira e prestativa é "dar uma mãozinha". "Dê uma mãozinha aqui, moço!", isto é, ajude um pouco aqui. Também no falar crioulo se usa a mesma expressão: "dar una mano", ou "una manito" (Vocabulário criollo, p.232).

Estar perrengue é, cá entre nós, estar doente, alquebrado, moído. No Rio Grande do Sul, perrengue significa ordinário, ruim, e se aplica ao cavalo que não presta para o serviço (Vocabulário gaúcho, p.103).

Quando, cá em terras capixabas, se quer dizer que um lugar está muito escuro, usa-se a comparação "escuro como breu" ou "escuro como boca de lobo". Esta última expressão é corrente na fala crioula e com o mesmo sentido "escuro como boca de lobo" (Vocabulário criollo, p.266)

Taludo, diz-se aqui, do sujeito grande, crescido na idade ou no tamanho. Também no Vocabulário gaúcho está registrada a palavra, com semelhante significação (p.125).

Olhar com o rabo de olho é olhar alguém disfarçadamente, de lado, de viés, obliquamente, como a Capitu do Machado de Assis. Tal expressão é, igualmente, conhecida na Argentina: "rabo de ojo — mirar de rabo de ojo. Forma de mirar dissimuladamente, al sesgo, de costado" (Vocabulário criollo, p.321).

As nossas juras — quer dos garotos, quer dos adultos — são, muitas vezes, idênticas a fórmulas criadas: "Lo juro por esta luz que nos alumbra!" "Por esta cruz!" "Por el sol que nos alumbra!" (Vocabulário criollo, p.387).

Outra expressão corriqueira em terras capixabas é aquela que diz "no fritar dos ovos é que eu quero ver!" — isto é, no momento exato, no instante preciso, na hora H. A frase-feita é usual na Argentina. Lá está ela no Vocabulário criollo, página 12, "A freir los huevos veremos".

Negro retinto — diz-se do preto, bem preto entre nós. Ora, retinto na fala crioula, é "color muy oscuro" (Vocabulário criollo, p.342).

De um indivíduo que não se submete "nem a gancho", teimoso, incapaz de se dar por vencido, diz-se que quebra mas não se dobra. Tal qual no linguajar crioulo: "Se quebra pero no se dobla" (Vocabulário criollo, p.368).

Tirar uma tora é frase-feita com o sentido de tirar uma soneca, dormitar um pouco, durante o dia, cochilar. Não tem outro sentido a expressão lá nos pampas. (Vocabulário gaúcho, p.130).

Do sujeito zangado com alguém, fulo da vida, tiririca, furioso com alguém — costuma-se dizer que está picado. Estar picado é maneira de falar crioula, com a significação de estar ofendido e "picarse" é dar-se por ofendido (Vocabulário criollo, p.155).

Quem há por aí que ignore a velha expressão "pagar o pato"? Poi o mesmo "pagar el pato" diz-se na argentina, com o sentido de "cargar con responsabilidades ajenas" (Vocabulário criollo, p.269).

O confronto poderia prosseguir, infindável, pois o material é bem copioso. Basta, porém, o que acima, de ligeiro, desfilamos, para se perceber a identidade ou semelhança de palavras, ditos e fórmulas frisantemente comuns na fala crioula, na fala gaúcha e na fala da nossa gente capixaba.

 

(Neves, Guilherme Santos. "Termos e expressões populares". Gazeta. Vitória, 27 de agosto de 1952)