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Guilherme Santos Neves
Embora pareça estranho, a verdade é que muita semelhança existe entre o modo
de falar criolo, gaúcho e capixaba. Vocábulos, expressões, ditos e frases feitas
são correntes aqui, e lá nos longínquos pampas.
Tal o que facilmente se poderá comprovar folheando, por exemplo, o
Vocabulário y refranero criollo, de Tito Saubidet (Buenos Aires, 1943) e o
Vocabulário gaúcho, de Roque Callage (Porto Alegre, 1928).
Nossa velha expressão "matar o bicho" lá está registrada à página 40 do
Vocabulário criollo: "matar al bicho — beber alcool, tomar la copa".
Mata-bicho é, segundo o Vocabulário gaúcho (p.87), "a cachaça é servida
em copo; trago, cana, caninha; quando o campeiro pede um
mata-bicho já se sabe o que é: um cálice de aguardente". Tal como aqui.
Para o mesmo ato de beber ou "matar o bicho", aqui se usa a expressão "molhar
a goela ou a garganta" — idêntica a "mojar el garguero" do falar criolo (p.246)
"Êse es otro cantar" — frase feita conhecida entre nós, com o sentido
de "isto é outra coisa!", também é comum nos pampas argentinos (p.150), com a
mesma significação: "es una cosa muy diferente".
"Arranca-rabo" diz-se, por aqui, do frege, do fuzuê, do rolo
bravo, da discussão desbocada e violenta. No Sul é, da mesma forma, o bate-boca,
a discussão acalorada (Vocabulário gaúcho, p.18).
Às crianças e à gente rude do Espírito Santo, temos ouvido a forma:
"gomitar", em vez de vomitar, lançar. Também assim se estropia o vocábulo na
Argentina, segundo consta do Vocabulário criollo, página180.
Xereta é a pessoa metidiça, intrometida, que "mete o bedelho onde não é
chamada"; tal qual lá no sul (Vocabulário gaúcho, p.40).
Ao garoto pequeno, chama-se, entre nós, "guri", no Rio Grande do Sul, guri é
a criança, o menino piazinho (Vocabulário gaúcho, p.72). Também na
Argentina, "guri" é "muchachito chico, gurisito, nene" (Vocabulário
criollo, p.186).
Cutuba é velho termo nosso que, parece, vai desaparecendo do uso vivo da
língua. Significa: bom, gostoso, apetitoso. Lá no sul, cutuba ou cotuba quer
dizer: forte, temível, respeitado e "o mesmo que pessoa generosa, boa" (Vocabulário
gaúcho, p.49).
Velha expressão de nossa gente proverbialmente hospitaleira e prestativa é
"dar uma mãozinha". "Dê uma mãozinha aqui, moço!", isto é, ajude um pouco
aqui. Também no falar crioulo se usa a mesma expressão: "dar una mano",
ou "una manito" (Vocabulário criollo, p.232).
Estar perrengue é, cá entre nós, estar doente, alquebrado, moído. No Rio
Grande do Sul, perrengue significa ordinário, ruim, e se aplica ao cavalo que
não presta para o serviço (Vocabulário gaúcho, p.103).
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Quando, cá em terras capixabas, se quer dizer que um lugar está muito escuro,
usa-se a comparação "escuro como breu" ou "escuro como boca de lobo". Esta
última expressão é corrente na fala crioula e com o mesmo sentido "escuro como
boca de lobo" (Vocabulário criollo, p.266)
Taludo, diz-se aqui, do sujeito grande, crescido na idade ou no tamanho.
Também no Vocabulário gaúcho está registrada a palavra, com semelhante
significação (p.125).
Olhar com o rabo de olho é olhar alguém disfarçadamente, de lado, de viés,
obliquamente, como a Capitu do Machado de Assis. Tal expressão é, igualmente,
conhecida na Argentina: "rabo de ojo — mirar de rabo de ojo. Forma de mirar
dissimuladamente, al sesgo, de costado" (Vocabulário criollo, p.321).
As nossas juras — quer dos garotos, quer dos adultos — são, muitas vezes,
idênticas a fórmulas criadas: "Lo juro por esta luz que nos alumbra!" "Por
esta cruz!" "Por el sol que nos alumbra!" (Vocabulário criollo,
p.387).
Outra expressão corriqueira em terras capixabas é aquela que diz "no fritar
dos ovos é que eu quero ver!" — isto é, no momento exato, no instante preciso,
na hora H. A frase-feita é usual na Argentina. Lá está ela no Vocabulário
criollo, página 12, "A freir los huevos veremos".
Negro retinto — diz-se do preto, bem preto entre nós. Ora, retinto na
fala crioula, é "color muy oscuro" (Vocabulário criollo, p.342).
De um indivíduo que não se submete "nem a gancho", teimoso, incapaz de se dar
por vencido, diz-se que quebra mas não se dobra. Tal qual no linguajar crioulo:
"Se quebra pero no se dobla" (Vocabulário criollo, p.368).
Tirar uma tora é frase-feita com o sentido de tirar uma soneca, dormitar um
pouco, durante o dia, cochilar. Não tem outro sentido a expressão lá nos pampas.
(Vocabulário gaúcho, p.130).
Do sujeito zangado com alguém, fulo da vida, tiririca, furioso com alguém —
costuma-se dizer que está picado. Estar picado é maneira de falar crioula, com a
significação de estar ofendido e "picarse" é dar-se por ofendido (Vocabulário
criollo, p.155).
Quem há por aí que ignore a velha expressão "pagar o pato"? Poi o mesmo "pagar
el pato" diz-se na argentina, com o sentido de "cargar con
responsabilidades ajenas" (Vocabulário criollo, p.269).
O confronto poderia prosseguir, infindável, pois o material é bem copioso.
Basta, porém, o que acima, de ligeiro, desfilamos, para se perceber a identidade
ou semelhança de palavras, ditos e fórmulas frisantemente comuns na fala
crioula, na fala gaúcha e na fala da nossa gente capixaba.
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