Quando a paixão folclórica, orientada no sentido particular da colheita e estudo dos elementos da fala do nosso povo nos leva a escutá-la com atenção e a catalogar as preciosidades desse tesouro, pensamos ingenuamente que cedo tocaremos o fundo do suntuoso escrínio. Efêmera ilusão... Em breve, compreendemos que apenas arranhamos a epiderme de um velo de imensurável extensão e profundidade. Felizes aqueles que, ajudados de ócios e recursos, podem explorar o inesgotável filão, até que a fadiga da pesquisa lhes aplaque a ânsia de curiosidade.
Contentar-se-ão, outros, com as gemas que andam derramadas na superfície, em oferenda ao primeiro que se curvar para colhê-las. Quis alguém por ofício, o árduo mister de garimpeiro; mas sem audácia e sem forças, não pode ao menos penetrar os sertões, onde as jóias mais puras do linguajar nortista se oferecem, e ali, qual novo Fernão Dias, adormecer com o seu sonho e o seu delírio, mergulhando as mãos trêmulas na torrente das pedras rutilantes. Ficam numa pequena faixa da orla litorânea, e o que aí colheu e observou, no campo da lexologia, da sintaxe e da semântica, seria apenas o arcabouço das Achegas ao glossário brasileiro, porventura ideadas. Foi pouco, muito pouco. Mesmo assim, nesse milhar de vocábulos e dicções um espírito culto e familiarizado com o assunto, encontraria material para um interessantíssimo estudo. Aí estão representados, de fato, todos os fenômenos de linguagem, desde o mais corriqueiro metaplasmo até a mais rara e complexa mutação sematológica.
Abutecar: 1) Segurar, agarrar, prender; 2) Hipotecar. "Abutequei o cabra pela gola. Fulano está em nada! Já abutecou a casa." A da segunda, porém, afigura um caso de dupla contaminação, produzindo a troca de silabas iniciais e o abrandamento da labial p em b. A formação do vocábulo com a primeira significação parece obscuro.
Poder-se-ia também admitir que, ao revés, se tivesse primeiro corrompido o verbo hipotecar e viesse depois o outro significado, pela analogia que realmente existe entre hipotecar e prender, imobilizar.
Adjunta: Reunião de desocupados, grupelho mal intencionado, Pejorativo.
Agastado: Cabelo crespo, entre o liso e o pixaim. É rica e variada a famílias dos pêlos do coco humano. Assim, temos — o de escadinha que não sendo liso nem carapinha, forma ondulações mais ou menos regulares, como os degraus de uma escada; o escorrido, o estirado sem ondas, duro, como se houvesse sido molhado e escorrido; mastigado, uma variedade do agastado, crespo sem chegar a ser; pimenta-do-reino, que é o enrolado em bolinhas semelhantes àquela especiaria.
Agateados: Diz-se dos olhos claros, luminosos, que lembram os dos felinos.
Amourar: Plantar, assentar, mourões nos currais de pesca, etc. "Seu Lúcio está amourando um curral de fundo". A prática do ofício e a necessidade de síntese criaram o vocábulo.
Aposentar-se: Enquanto entre as classe cultas o verdadeiro sentido desse verbo quase se apagou, as iletradas conservaram-no e o empregam correta e corretamente por alojar-se, ficar num lugar.
Arruado: Lugarejo menor que um povoado. Sinédoque, da qual resultou a transformação do adjetivo em substantivo.
Banguê: Apropriação indébita de alguma coisa; conluio para tal fim; a própria coisa furtada. "Passar um banguê" — contrabandear.
Barrucheira: 1) Desaforo, atrevimento, insulto, grosseria. "Não venha pra cá com as suas barrucheiras de ninguém". 2) Bebedeira, embriaguez. Nesse sentido, menos usado.
Beiçola: Pancada nos beiços. Por extensão, qualquer golpe. "Aquele sujeito está merecendo uma beiçolada".
Bexigada: Clister. Provém de que, antigamente, antes de haver as seringas de borracha e os modernos irrigadores, os clisteres eram aplicados por meio de uma bexiga de boi ou de outro animal.
Biguane ou simplesmente bigue: Grande. Do inglês big, big one.
Bilunga: O membro viril dos menino; às vezes também dos adultos.
Bobar: Andar a toa, desprecatadamente, não parece corruptela de bobear, registrada nos léxicos, mas uma forma colateral, visto a outra não ser jamais ser usada. E as formas corruptas só aparecem em relação às palavras mais usadas.
Bucho-de-piaba: Indiscreto, tagarela, incapaz de guardar segredo.
Cabeça-de-prego: Furúnculo, acne. Caso de catacrese, por semelhança.
Caçoleta: Bater a ... Morrer. Talvez do fato de se queimarem resinas aromáticas em torno dos cadáveres, usando para tal fim caçoletas (incensórios).
Canso:Particípio passado irregular do verbo cansar, só usado com o auxiliar estar, talvez por influências doutros particípios dissílabos empregados do mesmo modo. Estou canso (cansado) de aconselhá-lo, como estou farto (fartado) de aturá-lo, etc.
Caseiras: Só no plural — Achaques de velhice, dores nos quadris, hemorróidas.
Cartrevagem: Gente baixa, ralé. De caterva, com metástase do R mais o sufixo agem, formando o coletivo.
Cristão: O ente humano em geral; o homem, o racional. "Não há um cristão que aguente isso." "Como é que se mata um cristão assim."
Desigual: Fora do comum, incompatível com o meio, amigo de contrariar. "Vocé é muito desigual."
Dores: Reumatismo. Emprego do geral pelo particular. Metonímia.
Dose: A diluição em água, de qualquer tintura homeopática. Nesse sentido restrito é que o povo conhece a palavra e geralmente a emprega "Seu Zé Diegues tratava com dose." "O finado professor Goulart dava muita dose."
Encasar: Verbo neutro e reflexivo... Alojar-se, permanecer num lugar do corpo. Usado quase exclusivamente com referência a uma dor surda. "Tem uma dor encasada aqui no vão."
Enfermidade: Ferida, chaga, úlcera braba. Entre o povo faz mal ou é feio pronunciar esses nomes. Deve-se dizer-se: "Tive uma enfermidade nesta mão, que quase ficou aleijada." "Fulano morreu de uma enfermidade lá nele aqui na batata da perna."
Familiação: A filharada. Coletivo duplo, derivado de família, com significação de filho.
Febrão: Choque moral, grande contrariedade, emoção. Diz-se: Tomar um febrão.
Ferigagem: Muitas feridas, geralmente miúdas, furúnculos.
Fininha: Tísica, tuberculose. Estar com a fininha.
Forquilha: Certa doença dos pés das pessoas que andam descalças. Força a separação em V dos dedos atacados, donde o nome.
Fumaceiro: Grande quantidade de fumaça.
Gaitada: Risada estridente, rápida e aguda. O verdadeiro sentido da palavra obliterou-se.
Gastura: Mal-estar, sobretudo proveniente do estômago; enjôo, náusea. Parece evidente o elemento erudito gast - estômago, ventre, com o sufixo ur de que a língua popular já se utilizou na criação do vocábulo lonjura, etc. Como e onde, porém, teria sido captado tal elemento, se as camadas populares jamais fazem uso das palavras com ele formadas, como gastralgia, gastrite, gastronomia e outras...
Gavião: A parte curva de uma variedade de foice.
Rato com coco
Lagartixa com feijão
O ferreiro faz a foice,
Mas não fez o gavião.
Jeringonça: Armadura de um edifício, malfeita e sem segurança. Casa velha, em ruínas. Também jirigonça.
Lanço: Vômito: a coisa vomitada. Como de vomitar se fez o deverbal vômito, assim de lançar o povo fez lanço, já havendo transformado aqueles em gumitar ou gumito.
Mãe do corpo: O útero das mulheres; madre.
Mal-do-monte: Nome vulgar da erisipela ou elefantíase, pelas protuberâncias que tais doenças produzem.
Mavunges: Pêlos do púbis.
Mijo-de-aranha: Pustulazinha que aparece nos lábios, sobretudo nas comissuras e que o povo supõe ter causado pelo mijo das aranhas que transitavam no telhado enquanto o paciente dormia. Tem por sinônimo o vocábulo sabiá.
Minduada: Tisana geralmente preparada por curandeiros, com ingredientes vários, como plantas, aguardente, etc. Por extensão — mistura de muitas coisas.
Mocorongo: Tornozelo inchado. Por extensão — qualquer articulação deformada.
Macumbagem: Os órgãos genitais do homem. Quase sempre empregado no plural. Vez por outra macumbagem que nada tem com macumba.
Nopró: Nódulo, quisto; qualquer saliência molesta de uma parte do corpo. Parece um aumentativo de nó.
Papoca: Empola ou borbulha que se forma na pele, por causa interna ou externa. Derivado papocado — cheio, coberto de papocas.
Pecó: Que só tem um pé. Muito usado como antonomástico. "Antonio Pecó" "João Pecó"
Polvejar: Apanhar polvos por meio do bicheiro. Outra síntese verbal, de grande expressividade, com que os praieiros enriquecem o nosso vocabulário.
Quereca: Feridinha, pereba. Derivado: querequento — que tem querecas.
Roçado: vício de Lesbos. Chermont, apud Rodolfo Garcia, diz que na Amazônia se chama a isso — Uruá.
Sambudo: Enfezado, pálido sem vigor, anêmico.
Sangue-novo: Inflamação pruriginosa da epiderme, urticária.
Sete couros: Doença da planta dos pés das pessoas que andam descalças. Produz o engrossamento da pele local, que se vai desagregando em camadas. Parece causada por um parasito.
Severgonho: Desavergonhado. Metábole da locução adjetiva sem-vergonha, com aglutinação dos elementos e queda da medial m. Resulta da necessidade da concordância de gênero.