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Fevereiro 2010 - Ano XII - nº 133


Sumário

Festança
Jardineira, arco-de-flores ou balainhas

Cancioneiro
A festa dos cachorros
José Pacheco

Imaginário
A lenda dos tatus brancos
Maria Rosa Moreira Lima

Colher de Pau
Chimarrão; Na campanha rio-grandense, um círculo de fraternidade
J. A. P. de A.

Oficina
O rei café como ele é

Palhoça
Do nosso vocabulário popular
Paulino Santiago

Panacéia
Azar de Adão foi não ter um figa
Abdias Rodrigues

 

Veja o que foi publicado em Oficina
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Oficina
Textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

O rei café como ele é

Trabalho começa cedo

Um toque de sereia ou de sino, às 5 horas da manhã, anuncia, nas lavouras cafeeiras, o inicio de mais um dia de trabalho. Os colonos se levantam e, às 6 horas, todos já estão a postos. Almoçam às 8:30 ou 9 horas, tomam café ao meio-dia e, entre 15 e 18 horas, jantam. Às 21 horas é dado novo toque, traduzindo a hora de recolher. A sereia, sino ou buzina acompanha o lavrador durante o dia inteiro, assinalando suas horas de serviço, refeições e descanso. É pesado, duro, o trabalho nos cafezais: o ano agrícola começa no primeiro dia de outubro e termina a 30 de setembro. De outubro a fevereiro, portanto são feitas as capinas, uma por mês. Em março e abril é realizada a arruação. Em maio é prolongando-se até julho, agosto e — raramente — setembro, começa a colheita.

Época feliz

Em épocas de colheita — conforme verificou in loco a professora Marina de Andrade Marconi — a alegria é enorme. Um grita "ó-ó-ó" comprido, outro responde, lá longe. O terceiro acompanha e todos se localizam aos gritos. Fazem brincadeiras, jogos, namoros. Aliás, os jovens afirmam que o melhor lugar para namorar é no café, na época da "colêta".

Para a "panha" (colheita) usa-se um pano, formado por duas folhas de tecido, com dois metros de largura por cinco de comprimento. Dai o nome: "colheita de pano". Este pano é colocado debaixo do pé de café, bem unido, trespassado um pouco nas extremidades. O café é apanhado com as mãos, puxado e derrubado em cima do pano. Quando alguns grãos caem fora do pano, os colonos não os recolhem, porque isso atrasaria o serviço. Deixem que fiquem lá e dizem: "Esse aí fica pro Matarazzo... Esse aí fica pras armas (almas)..."

Comida pobre mas boa

Arroz e feijão constituem a base alimentar dos colonos, sendo o angu, o macarrão, a mandioca e sua farinha usados como "mistura". Verduras e carne não os interessam muito, embora quase todas as casas possuam quintal grande que poderia ser utilizado para plantar. Também criam porcos e galinhas, para o gasto. O gênero de plantação e a criação de animais dependem do gosto de cada um: "quem qué, come; quem num qué, vende..."

Indumentária

É uniforme a indumentária do homem "do café": calça de brim, camisa de mangas longas ou curtas, chapéu de palha, lenço no pescoço e, às vezes, duas mangas compridas avulsas — o mangote — usadas em época de colheita. As mulheres usam vestido, calça comprida por baixo deste, lenço na cabeça, amarrado sob o queixo e mangote. Calçam botinas ou sandálias e sua indumentária foi especialmente "planejada" para se protegerem do sol e dos terríveis borrachudos. Em algumas fazendas, os colonos usam alpercatas de panos chamadas também "sapato de cachorro".

Terapêutica pelo café

O povo recorre a todos os meios possíveis para obter o restabelecimento da saúde. E até o café entra nessa, servindo de "santo remédio" para todos os males. Segundo os próprios informantes de nossos pesquisadores, café é "ótimo" para curar: asma, anemia, azia, bebedeira, bronquite, bicheira, cólicas, cansaço, disenteria, coração, dor de cabeça, de dentes e qualquer outra enfermidade.

Para curar asma, é necessário "na sexta-feira da Paixão, cortar a orêia dum gato preto, pingá uma gota no café e dá pro doente tomá". Para o coração, "quando a criança tá sofrendo do coração é bão dá uma cuié de café cuado na hora, que fortalece, assim como café forte, adoçado". Cansaço a gente pode curar se "pegá nove fóia de café e fervê: dispois, tomá um banho nisso. É bão para tirá as ruindades do corpo".

Crendices

Poderes maléficos e benéficos são atribuídos ao café, como por exemplo: "Para ficar rico, deve-se tomar café sentado; para a noiva ser feliz no casamento, a primeira peça de seu enxoval deve ser um coador de café; beber na xícara do marido dá sorte, mas beber na xícara da esposa dá azar; tomar café em pé, de manhã, dá azar"

("O rei café como ele é". A Gazeta, São Paulo, 4 de novembro de 1966)

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